Os habitantes de um povoado estão fartos dos abusos do governante e se unem contra ele. A precisão dessa sentença, em incontáveis pontos do planeta nesse momento, é o que conecta uma obra que tem exatos 400 anos a um espetáculo realizado hoje. “Fonte Ovejuna” estreia no dia 23 de outubro no Teatro Cesgranrio, e fica em cartaz todas as quartas e quintas-feiras até 14 de novembro. Tem direção de Samara Pinheiro e Manu Hashimoto, e traz no palco os intérpretes e idealizadores Hikari Amada, Luísa Vianna e Vinicius Teixeira.

A peça é inspirada na obra literária “Fuente Ovejuna”, do espanhol Lope de Vega – chamado por seu contemporâneo Cervantes de “força da natureza”, tamanho era o volume e o alcance do que produzia. A obra, editada pela primeira vez em 1619, revela uma rebelião popular contra Fernão de Gusmão, comendador de um povoado, que culmina em seu assassinato. “Ao povo unido, até os reis têm que a cabeça curvar”, sustenta o argumento do dramaturgo hispânico.

Bebendo dessa inspiração, o espetáculo propõe uma reflexão as relações de poder nas estruturas hierárquicas da sociedade. Em cena, os três atores-intérpretes exploram o texto numa triangulação entre corpo, música e interpretação. A movimentação se dá em diferentes níveis, numa interação com um cenário modular, e o jogo cênico tem como principais traços a fisicalidade do gesto e a relação visceral com a música. Uma construção conjunta do olhar da direção com as poéticas pessoais dos intérpretes.

“O processo de levantamento do espetáculo foi bastante colaborativo. Sempre foi uma preocupação da direção que esse processo fosse o mais democrático possível. Propostas de encenação dos atores se fundiram com propostas tanto da direção quanto da equipe artística, resultando numa diversidade muito interessante considerando que esse é um espetáculo em que a união do povo é o assunto norteador. Ter uma equipe majoritariamente feminina também foi crucial para que pudéssemos explorar a fundo e com propriedade as questões ligadas ao feminino e à misoginia”, explica Manu Hashimoto.

Assim como a obra original quebra todas as barreiras de entendimento pelo tamanho de sua universalidade, a encenação tem como objetivo estar bem próxima à plateia. Cada sessão tem característica de ensaio aberto, e será seguida de um bate-papo, para troca de visões e questionamentos do público.

“Esperamos que o público reconheça no espetáculo as prisões que nos rodeiam diariamente, e que possam refletir sobre as possibilidades de ampliar esses limites e abalar as estruturas hierárquicas que ajudam a sustentar pequenos poderes e privilégios em detrimento da melhor qualidade de vida do povo”, aponta Vinicius Teixeira.

Serviço
“FONTE OVEJUNA”
De 23/10 a 14/11
Quartas e quintas-feiras, às 20h
Local: Teatro Cesgranrio (Rua Santa Alexandrina 1011, Rio Comprido)

Foto: Aloysio Araripe

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