Por João Victor Ferreira

Em O Conto das Três Irmãs, Reyhan (Cemre Ebüzziya), Havva (Helin Kandemir) e Nurhan (Ece Yüksel) são três irmãs que vivem em Anatólia (península na Turquia). Sevket (Müfit Kayacan), seu pai, as manda para trabalhar como empregadas e babás de uma família abastada. Depois de desagradarem seus patrões, Sevket tenta recuperar o emprego, enquanto as irmãs sonham com um futuro melhor, longe dali.

          Emin Alper detém a direção do filme que, junto da equipe técnica, consegue compor uma linguagem estética que funciona muito bem com o conteúdo que a história se propõe. Tome por exemplo as cenas de jantar, filmadas com um vigor diferenciado de ângulos não repetitivos e uma edição precisa. Esse é um filme que consegue equilibrar o rigor técnico que serve para elevar a história e não a ofuscar.

A narrativa funciona de forma bem usual, com o desenvolvimento clássico do personagem A, falando algo com o B e a reação desse B fazê-lo falar com o C – e por aí vai. A beleza real que dá vida a história talvez seja a interpretação das personagens pelas atrizes que conseguem transpor muito bem um aspecto naturalista que aumenta ainda mais as camadas de intepretação por baixo da história mais aparente. O filme discute a dominação masculina de uma sociedade patriarcal, casamento, drogas, traumas e etc.

Um grande mérito do roteiro é a habilidade de criar uma linha dedutiva clara que dispensa, a priori, qualquer tipo de dispositivo mais usual de exposição, como diálogos explicativos ou flashbacks longos. Havva, por exemplo, é demitida e, por meio da voz indireta, descobrimos por meio da dedução como foi a experiência das irmãs na casa dos patrões. A história se desenvolve muito bem, sem muitos percalços, tirando um salto temporal um tanto abrupto que acontece no último terço do filme.

Aliás, é interessante observar alguns contrastes que O Conto das Três Irmãs se propõe. Enquanto as irmãs ostentam o ambiente das locações externas, em momentos lúdicos de puro escapismo com seus sonhos de fugir daquele local, seu pai conversa com os patrões, em ambientes internos e claustrofóbicos, sobre como continuar limitando as escolhas de suas filhas.

A representação do mundo externo em que as personagens vivem é talvez o maior valor do longa que consegue se utilizar do ambiente para explicar os dramas escolhidos. As montanhas que cercam o vilarejo parecem prender as meninas, da mesma forma que seu pai e a realidade em que vivem. Da mesma forma, o vilarejo, mesmo sendo uma parte do todo, parece representar a Turquia e não apenas estar contido nela, servindo como boa base de comparação e discussão com o mundo real, inclusive.

 

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