Foto: Marcia Gonzalez

Guilherme Arantes lança novo álbum, “A Desordem dos Templários”, com uma atmosfera de sonho e poesia. O álbum abre com “El Rastro”, não por acaso, musica que junta violões e percussões com uma levada no contrabaixo acústico lembrando o “Chan Chan” cubano, pintando uma “tela” que se refere aos “lienzos” da cultura Abulense, os campos mesclados de tons pastel, o trigo e os pastos cor de creme salteados pelas árvores verde-escuro de copas arrepiadas pra cima, tão típicas de clima temperado, sempre uma pintura para o olhar da gente.

Arantes conta que com a avalanche de analgésicos para a cervicobraquialgia se instalou um clima alternado de sonolências e vigílias, ponteado por muitos sonhos delirantes. De um desses sonhos, acordou de madrugada e anotou o enredo do sonho, eu e Márcia éramos camponeses pobres e jovens, o Portão do Rastro aparecia com suas sacadas embandeiradas como cenário para uma aglomeração medieval, onde o Rei proclamava as Cruzadas. Assim, nascia “Nenhum Sinal do Sol”.

“Como naquela hora o dia ainda amanhecia os primeiros tons escarlates no horizonte, resolvi mesclar o sonho com a minha volta ao tempo real, e descrevendo a nossa deserção, a nossa fuga daquela época de guerras, e no dia seguinte, eu tinha uma nova letra em tom delirante, para construir “Nenhum Sinal do Sol” em forma de cantiga de gesta, coisa que me remetia aos anos 60, tão recheado de temas barrocos”, conta Guilherme Arantes.

O som progressivo se misturou com os pós-tropicalistas do Nordeste e surgiram no meu caminho João Cabral, Ariano Suassuna e sua Pedra do Reino, Alceu, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho no fluxo dos repentes delirantes com inflexões do Cordel e sua cultura marcadamente Ibérica em lendas épicas de paisagens áridas. “Eu, ali num cenário inacreditavelmente pertinente, as Cruzadas cravadas nas pedras da cidade, os cavaleiros trágicos e imaginários, encontrava então o mote que eu precisava pra fazer a ligação da estranha realidade no meu retiro, com os conflitos do panorama externo do mundo, nascia, assim, a música-titulo, “A Desordem dos Templários”.

Aliás, o hiato da pandemia, interrompendo a carreira desabalada do tempo, colocando a grande festa global das “Madris metafóricas do mundo” em xeque-mate, iria me ajudar muito nessa hora. A letra explodiu num fluxo de consciência irrefreável, e quando eu vi, pofff, estava ali despejado a lápis um poema épico no caderno espiral, por sobre a cama, durante o repouso forçado em que me vi prisioneiro.

O trecho em ritmo de repentista me pareceu um convite irresistível. Eu nunca havia composto um baião, estava buscando um rock de cangaceiro em pleno Século 21. Parecia “música grande” de Festival, na sua mais gloriosa Era do Brasil. Ressuscitei em mim aquele velho sonho de menino, de um dia ser relevante para a Música Popular. Meus músicos, lá no Brasil, iriam adorar, liguei imediatamente pra eles, anunciando a novidade, e logo mandando as primeiras sessões para que Gabriel e Willy gravassem na nossa filialzinha paulistana do meu estúdio agora desmontado e desmembrado. A partir desse ponto, eu estava irremediavelmente arrestado por um torvelinho de criação. O caderno, é lógico, encheu depressa.

A próxima fronteira a ser enfocada nos meus sonhos em noites delirantes seria o movimento “sísmico” no campo sócio-político, que teria erguido cordilheiras intransponíveis entre as tribos humanas, uma alegoria que incluiria no topo dessas cordilheiras justamente os portais para as imensidões insondáveis da condição humana, a cada dia mais perdida frente aos paradoxos de sua pequeneza. Cordilheiras que desafiam a coragem, oferecendo dimensões, na sua travessia, para um Universo, não por acaso, libertador de possibilidades. tipicamente oitentista, essa melodia ficou marcada como a mais “synth-pop” da nova safra, “A Cordilheira”.

Outra canção também brotou nessa leva, explicitamente de amor, “A Razão Maior” que me transportava para o meu habitat preferido, a balada pianística, um gênero musical que eu havia, afinal, ajudado a inventar na música do Brasil. Era uma música para ter um piano acústico majestoso, muitos violões, com uma delicada terceira parte, uma canção para ter uma marca indelevelmente “Guilherme Arantes”…

Nesse meio tempo, lá de São Paulo, vieram graves notícias de que minha mãe entrava na etapa final da sua vida, uma experiência angustiante para mim, longe e isolado pelas impossibilidades de viajar (eu já trazia o pressentimento de que não iria revê-la mais, desde a festa do Natal em Santos…), me vi diante de um outro desafio emocional urgente, que seria compor uma canção – era o que eu poderia fazer – para que ela escutasse a minha declaração de amor com elementos muito pessoais entre nós dois, a melhor que eu fosse capaz de realizar. Ainda consegui que ela escutasse a canção, mesmo que embrionária, e isso significará muito para mim, eternamente. Hebe era a deusa grega que trazia o néctar da vida, então coloquei isso na letra, nada mais pessoal para ela. Convidei o genial Arthur Verocai para escrever esse arranjo das cordas, e o piano acústico seria gravado somente em 11 de março de 2021, na Sala Sinfônica do Centro de Convenções Lienzo Norte de Ávila. As preparações para esse dia ocuparam muitos meses, providenciando e configurando microfones e pré-amplificadores de última geração, com modelagem em DSP, padrão duplo “Blumlein” quadrafônico, aproveitando plenamente o Auditório vazio com o excelente piano Steinway “D” Hamburgo no palco. Um momento único, mágico, indescritível para mim!

Uma outra canção em forma de delírio, “Toda Aflição do Mundo” brotou durante uma viagem para Lalin, no coração da Galícia, com incursões pela região do Minho, berço ancestral da minha família paterna. Um tema de rock oitentista, mesclado com a Bossa Nova, (os temas de várias dezenas de leituras no período, com seus personagens fascinantes como Tom, Nara, Raul, Samuel Wainer, Danuza, Antonio Maria, Zózimo, Simonal, Caetano, Chico, Belchior, Renato, Glauber, Nelson Motta), misturando na letra até mesmo cenas das grandes navegações e flashbacks Greco-Romanos remetendo aos sinais de um colapso contemporâneo da velha Democracia de representação, nesta hora em que o mundo está ilusoriamente todo ao alcance das mãos. Tornou-se outra faixa-conceito de longa duração, fazendo par com “A Desordem dos Templários”, desobedecendo frontalmente às regras de 3 minutos de duração. Essas duas músicas acabaram adquirindo a forma de suítes em várias partes, com desenvolvimento característico do Progressivo, voltadas para o espaço privilegiado dos Shows e se libertando dos limites radiofônicos para o pop comercial: nesse meu espaço mais pessoal, aposentei o cronômetro, eu queria a velha faixa mastodôntica ocupando a maior parte da bolacha de vinil! Aliás, um outro sonho a realizar seria o delírio da capa desenvolvida para ser vinil. Em tempos de produtos voláteis na rede, eu queria ter uma capa dupla, conceitual, com envelope interno, uma ilustração especialmente concebida e uma direção de arte que me permitisse brincar à vontade em Photoshop/Illustrator, artes que viraram um outro deleite para mim, nas longas horas/dias/meses, quase 2 anos de claustro, preenchendo ludicamente um novo tempo tão elástico, agora literalmente parado, à espera da normalidade. As pessoas poderão estranhar um pouco uma pequena faixa-vinheta de sonoplastia que fecha o lado A do LP. Essa faixa está em 5.1 Surround no cartão USB, junto com os filmes “caseiros” de making of, editados por mim. A função seria essa mesma, causar um clima contextual para o côro dos robôs em batalhão, combinando com a ideia da capa, uma alegoria, um cenário interior do conflito instalado na alma humana. Em contraponto, uma tônica proposital neste disco seria uma busca de uma maior suavidade no canto, nas melodias que pediam maior delicadeza, como as odes de amor ”A Razão Maior” e “Nenhum Sinal do Sol”, que eu queria bem orgânicas, em texturas de violões de cordas de nylon e de aço. Todo o disco, aliás, envolve uma preocupação nova com a qualidade das vozes, já que, com a parada forçada, eu tinha todo o tempo do mundo para me dedicar especialmente a essa artesania. Esse sempre foi um aspecto um pouco descuidado por mim, ao longo da carreira, por ter sempre o meu foco muito mais voltado à composição, às letras e às instrumentações. Desta vez, eu me exigia fazer o meu próprio “coaching vocal”, prestando muito mais atenção nas respirações, no relaxamento, na fluidez do canto. Acho que consegui melhorar muito esse aspecto nestas interpretações. Este aqui não é um álbum numeroso em faixas. Ficou muito mais voltado à profundidade do que à profusão de temas. Eu finalmente concluí a criação de “Nossa Imensidão a Dois”, na qual eu havia parado no meio do caminho, e agora poderia fechar o seu ciclo com o arranjo “cheio”, e viria a ser o primeiro “single” no lançamento, pra eu logo “desengasgar” essa música junto ao público.

A última composição dessa safra veio tardiamente, em 2021, para fechar com chave de ouro, em forma de um côro sacro, um adendo para “El Rastro”. “Eu achei aquilo tão inspirado, que resolvi misturá-lo com os contrapontos das cordas barrocas que abrem o disco, amarrando o álbum entre a abertura e o encerramento, e desenvolver uma faixa declaradamente ProgRock, derivando dali as partes para guitarra, órgão, clavinete, minimoog, strings e mellotrons, pedindo uma bateria e um baixo exuberantes, virtuosísticos mesmo, ao melhor estilo “paleozóico” da Era das grandes bandas progressivas dos anos 70”, conta.

“Não fazia mais sentido renegar esse estilo, tão detratado e depreciado pela chegada triunfal da crítica aderente ao pós-punk, na época, “em nome da modernidade”. Essa “modernidade”, aliás, já morreu faz tempo. Além disso, eu acho o minimalismo modernista chatérrimo, mas é questão de gosto pessoal. E boa parte do público (que é o que mais importa) adora o “jeito antigo” e cobra muito que voltemos às origens”, completa.

Pois então “Kyrie” acabou se transformando na realização desse anseio, para o meu gosto, uma joia no repertório de “A Desordem dos Templários”, concluindo um disco feito com tantas superações, muito afinco, capricho e todo o amor pela poesia e pela música, dispondo de todo o tempo deste mundo, por mais ansiedade que eu tivesse para trazer logo a público.

 

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