A peça “Cuidado quando for falar de mim” nasceu nas trocas estabelecidas em reuniões de acolhimento da ONG Grupo Pela Vida RJ. A urgência de se falar sobre HIV, seus impactos na vida da população, os avanços da medicina e os estigmas de uma doença social se tornou o objetivo do projeto, que faz temporada na lapa.

“Fiquei com a ideia na cabeça e segui na pesquisa para além do Grupo. O ponto de partida está em falar das relações que se estabelecem quando atravessadas pelo HIV, vivendo ou convivendo com o vírus. Ao longo de dois anos de pesquisa entrevistamos transexuais, homens e mulheres cisgênero, lésbicas, gays, pessoas na terceira idade, enfim, foi uma ampla amostragem. A partir dos depoimentos coletados, percebemos nessas trajetórias um aprofundamento e uma forma de refletir sobre , morte civil, violência doméstica, aborto, feminização do vírus, superação, acolhimento etc. São trajetórias que esbarram em muitas outras questões para além do HIV”, salienta Ricardo.

Tendo a dramaturgia construída com base em fatos, “Cuidado quando for falar de mim” encontra o ficcional em alguns pontos, e traz o cotidiano como forma de aproximação, criando pontes de identificação. “Em cena, as trajetórias dos personagens têm em comum o atravessamento pelo HIV. Não pretendemos trazer na essência da montagem o olhar da vitimização, tampouco o lugar de inferiorização”, salienta o diretor, que buscou uma forma de levar o depoimento à cena atravessado pelo tempo e o espaço, como forma de deslocar o presente do futuro e do passado.

“Ao passo que a ciência muito avançou em relação ao HIV, o estigma e o preconceito em quase nada avançaram. Não se fala sobre o HIV, simplesmente teme-se o vírus”, pondera. “Porque é possível dizer sem rodeios que se é diabético ou hipertenso e não se fala do mesmo modo sobre o HIV, se todos têm a mesma classificação técnica de doença controlada? O HIV é um vírus social, carregado de estigmas e repleto de fantasmas do passado, que vivem no imaginário e no consciente coletivo”, ressalta o diretor.

Assegurar o direito de ser respeitado, independente da sorologia, é de suma importância para Ricardo, que acredita que o silêncio adoece e mata. “A frase do título é uma forma de alerta. Envolve o respeito. Pressupor o que de fato não se conhece é uma forma de preconceito. Os espaços de diálogo conquistados por meio da mobilização estão abalados por um crescente silêncio que sufoca as vozes críticas. Hoje é possível viver bem com HIV, mas não é como viver sem ele”, finaliza.

SERVIÇO:
Temporada: 01 a 31 de julho de 2022.
sexta e sábado, às 20h e domingo, às 19h
Sede das Cias dos Atores (Rua Manuel Carneiro, 12 – Santa Teresa (Escadaria Selarón)
Classificação Indicativa: 16 anos

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