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Cansei de Ser Nerd: Fernando Caruso constrói nuances dramáticas inesperadas

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As segundas-feiras costumam ser complicadas para a maior parte das pessoas. Uma nova semana se descortina pela frente, cinco dias ininterruptos de trabalho, e quase todo mundo já está pensando no próximo final de semana. Dito isto, poucas coisas parecem melhores do que começar essa jornada semanal assistindo a uma boa comédia. E foi justamente em uma segunda-feira que tive a chance de conferir o primeiro longa-metragem do premiado diretor de arte Gualter Pupo como cineasta. Cansei de Ser Nerd mistura comédia, ficção científica e suspense em uma narrativa que, aos poucos, vai revelando que pretende ser muito mais do que aparenta em seus minutos iniciais.

O protagonista Airton, interpretado por Fernando Caruso, é o típico nerd eterno. Já adulto, continua agindo como adolescente: mora com a mãe, cultiva hábitos juvenis e divide suas neuroses com o inseparável amigo Ulisses, vivido por Pedro Benevides. Quando Airton decide ir à festa de vinte anos de formatura do colégio, percebe-se rapidamente que há algo mal resolvido naquele passado. O trauma envolve Juliana, personagem de Bia Guedes, antiga paixão do protagonista, afastada dele após um mal-entendido que o roteiro propositalmente esconde do público. O reencontro, portanto, não nasce apenas da nostalgia, mas da tentativa desesperada de entender um passado que Airton nunca conseguiu superar.

A festa acontece em uma casa soturna, escura, quase decadente, localizada em uma rua ainda mais estranha do que a própria residência. Quando os personagens entram naquele ambiente que mais parece um clube secreto — onde quase se espera que alguém peça uma senha para atravessar a porta — Cansei de Ser Nerd dá uma guinada e muda completamente de tom.

Em meio a ex-colegas que parecem presos no tempo, uma banda formada justamente pelos antigos mauricinhos, patricinhas e praticantes de bullying toma o palco. É aí que a comédia adolescente tardia ganha ares tarantinescos, ou melhor, ecos diretos do cinema de Robert Rodriguez. Em muitos momentos, a sensação é a de termos sido transportados para dentro de Um Drink no Inferno (1996), obra escrita por Tarantino e dirigida por Rodriguez. O público passa então a tentar decifrar o mistério: afinal, estamos diante de uma história de vampiros? Ficção científica? O longa brinca justamente com essa indefinição de gêneros, e talvez esse seja o seu maior mérito.

O interessante é que Cansei de Ser Nerd não se acomoda na fórmula fácil da comédia nacional descartável. Gualter Pupo demonstra criatividade ao misturar referências e atmosferas distintas, construindo uma narrativa que instiga o espectador a permanecer atento, curioso para descobrir o que aquela penumbra esconde. Existe um charme muito particular nessa mistura improvável de humor, suspense e estranhamento. Entretanto, em determinado momento, a fórmula parece se esgotar.

Esse esgotamento não chega a comprometer o resultado final, mas deixa a impressão de que o longa-metragem poderia ser um pouco mais curto — ou talvez precisasse desenvolver melhor determinadas ideias para sustentar plenamente sua duração. Ainda assim, o saldo permanece positivo justamente porque o filme nunca deixa de ser interessante e aposta em uma gama de efeitos especiais bem legais.

Fernando Caruso é, sem dúvida, o grande destaque da produção. Utilizando o humor que lhe é característico, o ator constrói também nuances dramáticas inesperadas, transformando Airton em uma espécie de Dom Quixote contemporâneo, alguém que atravessa seus próprios delírios em busca de uma paixão do passado enquanto enfrenta moinhos que talvez não sejam tão imaginários assim. Como contraponto, João Velho reforça mais uma vez a imagem de antagonista que carrega desde os tempos de Malhação (1995-2020).

No final das contas, Cansei de Ser Nerd pode até apresentar alguns excessos e irregularidades, mas acerta justamente por ousar. E isso, em um cenário onde tantas comédias parecem nascer prontas para serem esquecidas, já é uma qualidade enorme. Dito isto, obviamente, não tenho como não recomendar.

Desliguem os celulares e ótima diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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