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Chopin, Uma Sonata em Paris: Cinebiografia evita qualquer romantização ensolarada

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Chopin, Uma Sonata em Paris, novo filme do cineasta Michal Kwiecinski, começa de maneira extremamente inusitada. A trilha sonora e a construção imagética inicial fazem parecer, por alguns instantes, que estamos diante de um episódio de “Stranger Things” (2016-2025). Paris surge como uma cidade escura, de céu permanentemente cinzento, enquanto um incômodo zumbido de mosca domina o espaço sonoro. Então vemos o compositor polonês Frédéric Chopin, interpretado por Eryk Kulm, imóvel em uma cadeira, quase como um cadáver esquecido pelo tempo. Mas ele ainda não morreu. Subitamente desperta, salta da cadeira e vai para a rua. É uma abertura forte, impactante e cheia de personalidade — exatamente o tipo de início que imediatamente desperta a curiosidade do espectador.

Quem costuma me ler aqui no Rota Cult sabe que cinebiografias, definitivamente, não estão entre os meus gêneros favoritos. Musicais e cinebiografias são obras que assisto, eventualmente escrevo sobre, mas raramente me conquistam de verdade. Aqui, no entanto, Kwiecinski consegue aquilo que considero fundamental: prender a minha atenção durante praticamente toda a projeção. Com 1h53min de duração, o filme opta inteligentemente por retratar apenas o período final da vida de Chopin, já estabelecido em Paris, sem cair naquela estrutura convencional e preguiçosa de acompanhar o personagem da infância até a morte por tuberculose. E talvez essa seja mesmo a decisão mais acertada da obra, porque é justamente em Paris que Chopin se transforma em “Chopin”.

O roteiro de Chopin, Uma Sonata em Paris explora principalmente a relação do compositor com duas figuras fundamentais de sua trajetória: o húngaro Franz Liszt, também compositor, vivido por Victor Meutelet, e a escritora francesa George Sand, interpretada por Joséphine de La Baume. Enquanto Liszt surge quase como um contraponto artístico e intelectual, Sand é claramente apresentada como o grande amor da vida de Chopin. E o contraste entre os dois funciona muito bem. Ele é reservado, tímido diante do público, embora extremamente espirituoso entre amigos. Ela, ao contrário, é expansiva, provocadora, uma mulher muito à frente de seu tempo — fumava charutos em público, vestia-se como homem e carregava consigo pensamentos libertários incomuns para a época. São almas bem distintas que acabam se encontrando.

Talvez a principal falha de Chopin, Uma Sonata em Paris, enquanto cinebiografia, esteja justamente nessa relação. Em nenhum momento fica verdadeiramente claro para o espectador o quanto George Sand foi fundamental como musa inspiradora das obras mais célebres de Chopin. Essa percepção acaba surgindo apenas depois da sessão, em uma inevitável pesquisa despertada pelo interesse que o próprio longa provoca. Ainda assim, é impossível negar a força dramática construída entre os dois personagens. Outra percepção tardia, igualmente fruto de pesquisas posteriores, é a de que o diretor se inspirou em A Pior Pessoa do Mundo (2021) ao escolher o modo como iria apresentar o seu protagonista. E, de fato, há uma boa dose de semelhança entre os protagonistas das duas obras.

Outras duas relações importantes retratadas pela obra são as de Chopin com o jovem prodígio Carl Filtsch, papel de Theo Grundmann Brechet, seu principal aluno, que morreria, tragicamente, aos 14 anos, também vítima da tuberculose, e com o rei Luís Felipe I, vivido pelo inglês Lambert Wilson. E é através do chamado “rei burguês” que o músico passa a frequentar os salões franceses e a ampliar seu reconhecimento. Afinal, Chopin ainda não vivia da imortalidade de suas composições — vivia de aulas, concertos e da aristocracia que financiava a arte naquele período.

O aspecto mais fascinante de Chopin, Uma Sonata em Paris, porém, talvez passe pela maneira como Kwiecinski decidiu filmar a melancolia. Tudo aqui possui uma atmosfera soturna, pesada, quase febril. Mesmo quando Chopin viaja para Maiorca ao lado de George Sand — período que, teoricamente, representaria mais qualidade de vida ao compositor tuberculoso — o filme evita qualquer romantização ensolarada. Há chuva, há cinza, há um constante sentimento de desgaste emocional. E essa escolha estética conversa diretamente com a própria essência de Chopin: um homem genial, revolucionário artisticamente, mas profundamente melancólico. Sua vida jamais foi feita apenas de luz.

E acredito que seja justamente por isso que o desfecho me conquistou de vez. O longa-metragem evita mostrar Chopin no tradicional leito de morte e encontra uma saída visual muito mais elegante e criativa para encerrar sua trajetória. Foi nesse instante final que a obra terminou de me abraçar por completo. Chopin, Uma Sonata em Paris — título brasileiro que, aliás, considero muito inferior ao original Chopin, Chopin!, a forma como as pessoas o chamavam nas ruas — é uma cinebiografia recomendada não apenas para os amantes de música clássica ou os fãs do gênero, mas também para espectadores que, como eu, normalmente mantêm certa distância desse tipo de filme. E ver essa obra no cinema faz diferença, especialmente pela fotografia extraordinária de Michal Sobocinski.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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