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Nino: de sexta a segunda, de Pauline Loquès, trata com leveza um diagnóstico terminal

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Alguns dos melhores filmes a que a gente assiste ao longo da vida, a gente assiste sem qualquer expectativa e, muitas vezes, longe de uma sala de cinema. Eu iria assistir a Nino: de sexta a segunda, um longa-metragem francês dirigido por Pauline Loquès, pequeno, mas absolutamente envolvente, tocante, na sala do NET Rio, em Botafogo. Mas uma falta de luz, que deixou o cinema por mais de 12 horas no escuro, acabou me obrigando a ver esse filme em casa, por meio de um link divulgado pela assessoria de imprensa e pela distribuidora brasileira da obra.

Com certeza, a experiência não é igual; assistir em casa não é a mesma coisa que no cinema, porque a sala de cinema dá condições de mergulho, de se aprofundar no filme, que o ambiente caseiro não oferece. Ainda assim, essa foi uma obra que me marcou e que já consigo rotular como inesquecível. Nino: de sexta a segunda retrata três dias na vida do personagem-título, vivido por Théodore Pellerin, um rapaz que, na manhã de uma sexta-feira, um dia após completar 28 anos, vai a um hospital de Paris buscar os resultados de um exame de rotina para solicitar uma simples licença médica. Só que as coisas, às vezes, não acontecem conforme imaginamos.

Ao chegar lá, a recepcionista pede que ele vá ao consultório no andar superior. Ele não entende, pois achava que era só pegar os exames. No entanto, naquela cena rápida, logo percebemos que o resultado não era nada rotineiro. Em choque, Nino segue a orientação e, ao chegar lá, a médica, com uma calma para lá de blasé, informa que ele tem câncer na garganta e que o tratamento precisa começar na segunda-feira. Neste instante, o título do filme em português, Nino: de sexta a segunda, justifica-se como poucas vezes nestes anos todos de traduções e adaptações mal-ajambradas. Essa cena inicial é o ponto de partida para três dias que virarão de cabeça para baixo a vida do protagonista.

Nino: de sexta a segunda tem uma temática pesada, complicada e, por isso, poderia ser bastante denso. Todavia, Loquès consegue tratar tudo com extrema leveza. Enxergamos esses três dias como uma jornada de interiorização, de aceitação daquela nova condição e de encontros e reencontros importantes. Nino busca a ex-namorada, vai à casa da mãe, passa o sábado à noite em uma festa que era para ser surpresa para ele e onde timidamente tenta conversar com seu melhor amigo sobre sua doença e, por fim, no domingo, após uma venda de garagem, reencontra uma colega de escola com quem cria uma conexão imediata e a quem, naturalmente, ele confia sua situação. Por essa e por outra cena, é interessante ver como o protagonista consegue se abrir muito mais com quem ele não tem uma intimidade prévia do que o contrário.

A leveza da direção é um dos grandes trunfos de Nino: de sexta a segunda. A cineasta consegue tratar um tema tão pesado com uma delicadeza quase ímpar. Eu só vi algo parecido uma vez, ano passado, em Uma Bela Vida, de Costa-Gavras. Pode ser que outros filmes tenham provocado em mim a mesma sensação; porém, por ora, não me recordo de nada semelhante. A Pior Pessoa do Mundo também me tocou bastante, mas por motivos que nada têm a ver com doenças. Dito isto, a jornada de Nino é, ao mesmo tempo, séria e fluida, em grande parte devido aos tais encontros e desencontros. A capacidade do filme de equilibrar seriedade e doçura é rara. Quando li a sinopse, confesso que tive receio, mas fui surpreendido pela sutileza com que Loquès conduz a narrativa.

A razão dessa minha experiência tão pessoal com Nino: de sexta a segunda se deve ao fato de que, em 2025, eu perdi um amigo para o câncer. O filme me fez revisitar esse luto e entrar em contato íntimo com os meus próprios pensamentos intrusivos (daí o receio na hora em que li a sinopse). Não foi nada fácil, mas a diretora, com o seu olhar sensível, típico de um cinema francês capaz de unir leveza e importância, tornou a minha jornada, assim como a do protagonista, um pouco menos complicada. Por fim, de algum modo, creio que, por se tratar de um estudo de personagem, o trabalho de Pauline Loquès me remeteu ao da maior cineasta de todos os tempos, Chantal Akerman, que era belga, mas fazia um cinema com nuances francesas.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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