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Apenas Coisas Boas brinca com os gêneros do cinema, principalmente os mais tradicionais estadunidenses

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Assim como Gustavo Vinagre (de Lembro Mais dos Corvos A Rosa Azul de Novalis), Daniel Nolasco representa um artigo raro no cinema brasileiro hoje. Ao largo da excelência em que se encontra nossa recepção internacional, da própria safra dos últimos 10 anos ser superlativa em sequência, da criatividade inerente ao cinema periférico à grande indústria, do surgimento de novos grandes cineastas anualmente, existe sim um certo sossego em relação a pelo menos um quesito: o sexo. Mais precisamente o sexo queer, esse encontra respaldo em poucos jorros de momento (o Fábio Leal de Seguindo Todos os Protocolos, o Ricardo Alves Jr. de Parque de Diversões), e exclusivamente na cinematografia de Vinagre e Nolasco. O segundo lança Apenas Coisas Boas no fim do Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, mas em tempo de ser representativo da zona inquieta da nossa cinematografia. 

Ao contrário de seu colega, Nolasco tem primado até agora em construir um olhar mais disruptivo dentro de narrativas tradicionais, ainda que um curta seu recente (O Cavalo de Pedro) tenha se comunicado com a experimentação de linguagem. Mas é muito saudável o que o diretor de Vento Seco pensa para uma próxima geração de imagens iconográficas do universo gay, traduzindo para o Brasil um dispositivo utilizado em provocações de outras áreas da arte, como o teatro e as plásticas. Sem nunca soar vulgar – pelo contrário, se tem algo que sobra no que Nolasco cria, é bom gosto – seus filmes contemplam o olhar do espectador com uma naturalidade de representação romântico-sexual, para além do que está sendo posto por uma normatividade de orientação. 

Não é apenas uma questão de ousadia os termos que Nolasco coloca, mas de real representação de algo que é inerente ao ser humano – pessoas transam, sob qual orientação sexual elas estiverem. Mas o cinema brasileiro, ainda herdeiro de pré-conceitos oriundos desde os anos 70 e a ignorância reinante que tornou marginais tanto o cinema da boca do lixo paulistana quanto as pornochanchadas, carrega toda sua timidez para dentro de narrativas que deveriam ousar, pela sua própria liberdade de personagens. Em Apenas Coisas Boas, os protagonistas são homens adultos que não fogem de seus desejos, então porque as imagens precisam frear a narrativa? Ou, porque o corpo masculino precisa ser apartado do explícito, quando o feminino nunca foi? Se começarmos a debater, todos os conceitos do machismo vêm à tona a partir dessas afirmações, e nenhuma acusação será falsa. 

Nolasco brinca com os gêneros do cinema, principalmente os mais tradicionais estadunidenses (o faroeste e o noir), mas fortalecendo um olhar latino americano, e principalmente as chaves do universo gay. Apenas Coisas Boas se encontra em dois polos do tempo, separados por 40 anos – a princípio, a juventude de Antônio e Marcelo, quando o primeiro ajuda o segundo após um acidente de moto, levando-o para se recuperar em sua fazenda. No segundo momento, 4 décadas adiante (mas ainda deslocado da contemporaneidade, nas tintas que o autor emprega), Antônio está sozinho, Marcelo desapareceu, e uma investigação policial sobre isso começa a se desenhar. Entre uma fatia e outra, a paixão que explode entre esses homens e a fina camada que nos separa do que é seguro para o desgaste comum do tempo.

Assim como é de conhecida estirpe sua, Nolasco não pinta o quadro de maneira clara, tanto para as referências culturais quanto para o que pretende contar em sua obra, particularmente. Desse jeito, Apenas Coisas Boas tem um aspecto borrado de maneira positiva; são cores vibrantes na fotografia do sempre impressionante Larry Machado, ou a montagem entrecortada de Will Domingos que promove algo perto do desassossego ao espectador, porque algo está em ritmo de espreita sempre, no ritmo. É a turma tradicional que o diretor trabalhou em suas obras anteriores, o que confere um entendimento coletivo do que está em curso. São olhares para o lugar do desejo em situações disparatadas: a vontade imensa de ficar e a profunda dor de perceber que essa vontade passou. E o que resta após o todo se completar?

Como sua obra já aponta, também em Apenas Coisas Boas sua ideia é aproximar-se da intensidade das coisas, da volúpia do ato de viver, de sentir, de entregar-se. Antônio e Marcelo, embora não tenhamos a figura completa do que foi vivido, são desenvolvidos pelo seu autor com a exatidão de quem viveu profundamente o amor e a certeza de ter encontrado um lugar no mundo… até que tudo que era certo, em determinada hora, deixa de fazer sentido. E também aí essa intensidade é sincera; tão forte quanto é a pulsão da carne, também é a certeza do fim. E seguimos no cinema brasileiro procurando por imagens a um só tempo tão dóceis e tão cheias de tesão quanto as que Daniel Nolasco nos oferta. 

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