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Triste e Belo Mundo, uma comédia romântica libanesa, delicada e sensível

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Se Triste e Belo Mundo fosse uma produção britânica ou norte-americana, provavelmente seria estrelado por Julia Roberts, Hugh Grant ou algum outro casal clássico das comédias românticas. Mas o filme vem do Líbano e carrega consigo todas as particularidades, dores e belezas de um país que raramente ocupa o centro das atenções do grande público. Indicado pelo país para disputar uma vaga no Oscar de 2026, o longa marca a estreia de Cyril Aris na ficção e já chega demonstrando uma maturidade impressionante para um diretor que até então era conhecido principalmente por seus documentários.

A história acompanha Nino e Yasmina, interpretados por Mounia Akl e Hassan Akil. Nascidos no mesmo dia, com apenas um minuto de diferença entre eles, os dois se conhecem ainda na infância e vivem aquele tipo de paixão que apenas as crianças conseguem experimentar: intensa, sincera e aparentemente eterna. Mas o mundo além dos muros da escola é muito mais complicado do que o pátio onde brincam. Problemas familiares acabam separando os dois, enquanto o próprio Líbano atravessa décadas marcadas por crises políticas, corrupção, dificuldades econômicas e conflitos que tornam a vida cotidiana cada vez mais difícil.

O tempo passa em Triste e Belo Mundo e os dois crescem. Yasmina se transforma em uma respeitada consultora econômica, alguém que observa o futuro do país com ceticismo. Ela não acredita que o Líbano voltará a ser aquilo que um dia foi, nem que se tornará um lugar capaz de oferecer perspectivas reais para as próximas gerações. Nino, por outro lado, segue um caminho oposto. Administrando o restaurante herdado da família, ao lado dos amigos Chafic (Tino Karam) e Leila (Nadyn Chalhoub), ele mantém uma visão otimista da vida e do país. Seu restaurante, que mistura tradições da culinária libanesa com influências internacionais, acaba funcionando como uma extensão de sua própria personalidade: aberta, acolhedora e esperançosa.

O reencontro acontece por acaso. Um incidente leva Nino ao escritório da mãe de Yasmina e, posteriormente, aos corredores de um hospital. Sem reconhecer imediatamente a antiga paixão de infância, os dois voltam a cruzar seus caminhos. Aos poucos, pequenos detalhes, lembranças e coincidências fazem com que percebam quem realmente são. E é justamente aí que o filme encontra sua principal força. Mais do que uma história romântica, Triste e Belo Mundo fala sobre memória, destino, pertencimento e sobre a maneira como o tempo transforma as pessoas sem apagar completamente aquilo que elas foram um dia.

Mas o grande destaque da obra talvez esteja na forma como Cyril Aris escolhe contar essa história. Uma das soluções mais inteligentes do diretor é a utilização de imagens que simulam antigas fitas VHS para representar o passado. Essas sequências contrastam diretamente com a fotografia contemporânea do restante do filme, criando uma separação visual clara entre memória e presente. O efeito funciona de maneira admirável, reforçando a sensação de nostalgia e ajudando o espectador a compreender como aquelas lembranças continuam vivas, ainda que desgastadas pelo tempo. Outro recurso igualmente interessante é a decisão de nunca mostrar claramente os rostos dos pais dos protagonistas durante as passagens da infância. Vemos seus corpos, ouvimos suas vozes, mas seus rostos permanecem ocultos, como se fossem lembranças incompletas preservadas apenas de forma fragmentada na memória dos personagens.

O resultado é um filme delicado, sensível e extremamente bem realizado. É difícil não sair da sessão se perguntando por que a obra ficou fora da lista final de indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Trata-se de uma estreia em ficção extremamente segura, conduzida por um diretor que demonstra domínio narrativo e visual raros para alguém em seu primeiro longa de ficção. Triste e Belo Mundo é uma história de amor, mas também é uma história sobre um país, sobre a passagem do tempo e sobre a persistência da esperança em meio às dificuldades. Um filme belo, melancólico e profundamente humano. Uma estreia que coloca Cyril Aris imediatamente no radar de qualquer pessoa que goste de bom cinema..

Desliguem os celulares e excelente diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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