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Homem-Aranha: Um Novo Dia traz versão do herói mais madura e fiel às HQs

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Os créditos de Homem-Aranha: Um Novo Dia acontecem no fim do filme, e devem ser os mais singelos (e bonitos) créditos que eu já tenha visto saído de um produto da Marvel Studios. Sim, produto; já faz um tempo que o material conseguido sob os domínios de Kevin Feige tem qualquer interesse principal que não o de vender sua marca e arrecadar zilhões de dólares. Antes que os fãs venham atacar o pobre crítico, vamos deixar clara minha isenção ao declarar profunda admiração ao título que chega aos cinemas nessa semana. Inesperado sim, mas absolutamente recompensador o que Destin Daniel Cretton colocará nas salas de cinema de todo mundo em larga escala, trazendo para as telas algo que faz algum tempo que não é visto por essas bandas animadas: identificação. 

Esses créditos (que não irei descrever, sou chatíssimo com spoiler), ajudam a descrever um lugar de humanidade e/ou normalidade que os filmes de super-heróis naturalmente lhes faltam. Afinal, estamos falando de seres de collant que voam, que não morrem mesmo com a explosão de 10 bombas atômicas, cujos super poderes desafiam qualquer lógica, e esse é o barato. Recentemente, em meu texto sobre A Odisseia, deixei claro que a ausência de uma pureza, grandiosidade épica e um mergulho na magia coloca o filme de Christopher Nolan em ambiente de exceção. Pois Homem-Aranha: Um Novo Dia também é uma exceção, já que muito raramente os personagens heróicos de hoje precisam lidar com o que é mundano. 

E não estou com isso me referindo a situações básicas de jornadas aventureiras não, como amar e ser amado, trair ou ser traído, vencer ou ser derrotado, e os dramas provenientes de cada uma dessas coisas; isso é comum até em produções medíocres. Eu me refiro a uma sensibilidade em destrinchar a solidão, as muitas dores físicas e emocionais provenientes de tantas perdas, o labirinto que se forma entre pessoas cujo ponto de partida era ser comum, e esbarraram com algo que a tirou desse lugar, mas elas ainda sentem comum. Homem-Aranha: Um Novo Dia mostra que o cinema indie perdeu a revelação de Short Term 12, mas a seara dos blockbusters talvez ainda não tenha percebido o que ganhou com a presença de Cretton na fórmula de seus bolos. Após o acerto que foi Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, ele dobra a aposta com um filme que é uma resposta a grandiosidade que na Marvel de hoje é só um vácuo, somada a um festival de… sentimentos muito humanos. E profundamente verdadeiros. 

Ainda que seu elenco não erre (a essa altura, figuras como Tom Holland, Zendaya, Mark Ruffalo, Florence Pugh sabem exatamente como se comportar em cada um desses recintos), o principal responsável pela textura do filme, seus acertos e o arsenal de contradições que apresenta, é mesmo de Cretton. Ele nos aproxima de Peter Parker tanto sem quanto, principalmente com fantasia, ao lançar o cinéfilo-espectador na viagem em primeira pessoa do Aranha, voando pelos arranha-céus e colado ao rosto do homem por trás da máscara. É uma direção delicada porém cheia de estilo e ritmo, que não é um jogo vertiginoso ininterrupto, e com isso ajuda a construir tensão, drama e leveza, muitas vezes de maneira contígua. 

Para o que interessa a esse tipo de produção (os milhões! os fãs! os bolsos!), e a qual os textos críticos não importam, esses também ficarão felizes – Homem-Aranha: Um Novo Dia é um show de referências, reencontros, surpresas e rumos inesperados.envolvendo possíveis novas alianças entre grupos, ou seja, o tal do ‘fan service’ é utilizado sem qualquer moderação. Mas o que mais espanta o olhar crítico é perceber que tais situações se desenvolvem organicamente, sem que o desejo de lucrar seja o único motivador da obra. O roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers delineia tais eventos de maneira circular, e um exemplo disso é um momento onde a aparente vilã parece ter perdido sua função dramática; logo após, o filme revela que sua presença continuava influenciando outros personagens, em um giro esperto de sua ações. 

Que fique claro que Homem-Aranha: Um Novo Dia não é irretocável. Os efeitos visuais, por exemplo, tanto tem belos momentos quanto planos quase animados, a narrativa ainda encontra umas facilidades, e o arco central não é exatamente novo. Mas como já dito, é a preocupação em não drenar a sensibilidade da obra, em descrever tais relações com suas verossimilhanças particulares, em observar o carinho natural dedicado ao desenvolvimento de um material feito para as máquinas registradoras. E chegar a conclusão de que não há qualquer problema em ganhar dinheiro com seu trabalho; o problema reside em trabalhar porcamente, como tem sido habitual na Marvel. E, certamente, toda exceção será muito bem-vinda. 

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