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“Eles Não Usam Black-Tie” põe um monumento teatral em fricção na manha de João Velho

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Melhor passar fome no meio de amigos do que passar fome no meio de estranhos” é uma das profecias de “Eles Não Usam Black-Tie” que, mesmo 60 anos depois de sua escrita, permanece imune ao Tempo, para alegria da dramaturgia nacional, mas para desespero de nossa gente. De oracular, o marxismo apolíneo de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) ainda ostenta o retrato cru do que o capitalismo (como os demais “ismos” financeiros) pode desagregar. 

Saiba mais sobre a peça!

A maior destreza da releitura que o ator (e agora também encenador) João Velho demonstra ao esgrimar com um texto que é um patrimônio quase monolítico de nosso teatro é extraí-lo do pedestal épico onde o cinema o colocou, depois da colossal adaptação de Leon Hirszman (1937-1987), em 1981. Velho vem, certamente, recuperar suas bases mais intimistas. O que virou uma saga da classe operária vai de volta ao berço. Volta a ser um estudo sistêmico sobre os impactos do Poder nas entranhas afetivas de uma família. O encenador modula a montagem inteira nesse prisma. Não erra uma cena. É jubiloso ver como fez bem o dever de casa. 

João Velho entra em cena também, vivendo o cunhado de um dos protagonistas, o trabalhador Tião, que Nino Batista esculpe com delicadeza de ourives, aproveitando fragilidades da juventude para misturá-las com instabilidades de quem cresceu num Brasil de falências financeiras. Ao lado dele, Velho põe no bolso todas as aparições que faz, gargarejando um realismo que a peça parecia ter perdido ao entrar numa esfera mítica. 

Via de regra, ela é encenada numa mirada nostálgica (por vezes, melancólica) de busca por uma inocência perdida, quase como um documento de época. Depois do filmaço de Hirszman, ela inspirou mais arqueologia do que poesia, numa submissão míope a diálogos e rubricas, que, em sua gênese, foram feitas por Guarnieri para serem chargísticas, ou seja, servirem como aríete contra as vicissitudes que assombram o momento atual de sua encenação. Nesse ponto, a sagaz escolha cênica de João Velho tira a peça do ponto-morto da sacralização e faz jus ao que seu autor esperava. Ele põe “Black-tie” de novo no gerúndio. Gerúndio é vida.  

 Escrita em 1956, quando Gianfrancesco Guarnieri tinha pouco mais de vinte anos, “Eles não usam black-tie” segue atravessando gerações.     

A trama dá conta dos conflitos entre um pai operário, Otávio (um brilhante Pedro Rocha), e sua esposa, Romana (a força da natureza Laura Campos Braz), diante das escolhas individualistas de Tião. A desculpa que ele usa é o casamento e a chegada de um bebê. Usa a relação com Maria (encarnada por uma Tai Xavier em chamas) para escusar seus erros com a classe.   

A partir da orientação corporal da midas Marcia Rubin, somada à preparação vocal de Isabel Schumann, João Velho consegue contar com uma trupe em ponto de ductilidade, que se molda (com perfeição) à toda implosiva de uma leitura de Guarnieri. A Romana de Laura Campos, por exemplo, metralha o texto sem cair num lugar comum, sem se colocar à sombra do que Fernanda Montenegro fez na filmagem de Hirszman. Laura cria a sua Romana. É uma Romana que se dói e partilha conosco seus lamentos e sua coragem. O Otávio de Rocha se faz verbo a verbo, ligado na mesma voltagem.
 
João Amorim, Lavinia Diniz, Vini Venancio, Mara Uchoa, Bruna Kury e (um inspirado) Ricardo Lopes (no papel de Bráulio, que Milton Gonçalves imortalizou na telona) completam a trupe desse necessário regresso a uma narrativa que trata, por veredas da dor, do “heroísmo do rendimento”. Cada qual cria um pedacinho de um Brasil sem um pau pra dar no gato que apanha muito. 

O conceito de “heroísmo do rendimento traduz uma linhagem dramatúrgica que abrange muitos media, de romances a filmes. Foi um livro do século XIX, “Germinal” (1885), de Émile Zola (1840-1905), que abriu a torneira dessa estética. Ela pode ser descrita por ser uma linhagem sociológica de narrativas em que a jornada dos protagonistas se constrói a partir de estratégias de sobrevivência económica. 

Além disso, cabem aí de Chaplin a Plínio Marcos, passando por Rocky Balboa, com amplo espaço para as personagens de Ken Loach e do próprio Costa-Gavras. “Parasita” (Palma de Ouro de 2019) é um outro bom exemplar. No teatro, o Plínio Marcos (1935-1999) de “Quando as Máquinas Param” (1967) e o Bosco Brasil de “O Dia do Redentor” (2002) são balizas da História.

Marco do realismo no teatro brasileiro, o texto nasceu de um olhar vanguardista para a classe trabalhadora. 

Não é rara a associação deste procedimento temático às cartilhas marxistas de luta de classes e aos engenhos teóricos funcionalistas, nos quais a sociedade é vista em analogia com organismos biológicos. Nessa toada, há lugar também para os aportes do naturalismo — uma corrente anfíbia entre a arte e as ciências sociais — que representa territórios como se fossem as entranhas dos corpos, com as suas escatologias e dinâmicas de excreção. 

É nesse naturalismo que uma parte considerável de montagens de “Eles Não Usam Black-Tie” se instaurou, estetizando periferias como instâncias de esgoto a céu aberto. A peça deixa o flanco aberto a essas indelicadezas depois de Tião dizer: “Viver não é o que se faz aqui”. João Velho não cai nessa armadilha. Vetorizada sem salamaleques pela iluminação de Zezinho da Luz (impecável), a cenografia de Nino Batista e Diogo Drosa não faz da pobreza um cosmético. Nem o figurino (igualmente funcional… e preciso de) Eder Ferreira.  

Na operação rigorosa de som de Camila Pacifico, ouve-se o soluço de pessoas. Ouve-se transpirar o humano. A operação de luz de Safo é igualmente atenta ao que há de mais demasiadamente brasileiro. Tudo é pé no chão. Um pé que se suja, que se fura. Um pé com o chulé do cotidiano e com a unha feita da esperança. Um pé fincado na excelência de um diretor que esbanja firmeza e nos dá duas horas de alumbramento. 

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