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 “Carnaval como método”, seis carnavalescos apresentam obras inéditas, no MAM Rio

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O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) inaugura a exposição “Carnaval como método“, que leva para o espaço museológico os processos de criação desenvolvidos no Carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro. A mostra reúne obras inéditas comissionadas a seis carnavalescos em atividade, trabalhos de Joãosinho Trinta (1933–2011), Rosa Magalhães (1947–2024) e Maria Augusta Rodrigues (1942–2025), e pinturas de artistas ligados ao universo do samba e do carnaval, como Heitor dos Prazeres e Nelson Sargento. A exposição ocupará o Salão Monumental e o mezanino do museu.

O Carnaval surge como prática artística e método de criação, construído coletivamente a partir da experimentação de materiais, imagens, saberes e linguagens. André Rodrigues em colaboração com Juliana Joannou, Annik Salmon, Antônio Gonzaga, a dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora, e Thayssa Menezes foram convidados a desenvolver projetos específicos para o MAM Rio, trabalhando a partir de pesquisas, experiências e procedimentos construídos em suas trajetórias nas escolas de samba. A exposição parte do reconhecimento dos carnavalescos como artistas visuais responsáveis pela concepção de um dos maiores acontecimentos artísticos do país.

“Trazer os artistas do Carnaval para dentro do museu é, para o MAM Rio, uma forma de reconhecer a potência artística de uma produção que faz parte da história e da cultura do nosso país, mas que ainda ocupa um lugar pouco explorado no campo das artes visuais. A partir do protagonismo dos carnavalescos e de seus processos de criação, a exposição propõe ampliar esse debate e aproximar universos que, embora historicamente relacionados, nem sempre estiveram em diálogo dentro das instituições museológicas”, comenta Yole Mendonça, diretora executiva do MAM Rio.

A passagem da avenida para o museu modifica as condições em que esses artistas trabalham. O desfile tem movimento, duração determinada, uma relação específica com a distância e diferentes pontos de observação. No museu, o visitante estabelece seu tempo e seu percurso, aproxima-se de uma obra, observa um detalhe, se afasta. Essa mudança de contexto está no centro da experiência proposta aos artistas.

“Os carnavalescos desenvolvem processos de criação extremamente complexos, realizados por equipes com diversas especializações artísticas e técnicas. São artistas que criam para um público muito amplo, em uma relação marcada pela emoção, produzindo experiências coletivas. Ao trazer esses processos para o museu, a exposição propõe que olhemos as formas de fazer do Carnaval e sua relação com o público como exemplos para a produção artística contemporânea”, comenta Raquel Barreto, curadora-chefe do MAM Rio.

A arquitetura do MAM Rio participa diretamente dessa experiência. O Salão Monumental guarda uma relação particular com a escala da Sapucaí: os dois espaços permitem observar o que acontece no nível do chão e também de cima. A dimensão vertical do salão, sua estrutura de concreto e a possibilidade de percorrer as obras por diferentes perspectivas foram apresentadas aos carnavalescos como questões para a criação.

A exposição tem curadoria da equipe do museu (Raquel Barreto, Pablo Lafuente e Phelipe Rezende), com contribuições de Debora Moraes e Edu Gonçalves. A expografia é assinada pelo Studio Gero Tavares e a identidade visual pelo Estúdio m-cau. 

André Rodrigues, em colaboração com Juliana Joannou, trabalha com o próprio processo de construção do figurino. Quatro peças inicialmente brancas serão transformadas por meio de momentos de participação dos visitantes, tornando visíveis etapas e procedimentos da criação ao longo da exposição. Historiadora da arte formada pela Escola de Belas Artes da UFRJ, Juliana pesquisa a história das escolas de samba do Rio de Janeiro, seus processos de criação e os enredos como formas de construção historiográfica. Designer, projetista, figurinista e carnavalesco nascido no Rio de Janeiro, Rodrigues iniciou sua trajetória no carnaval em 2007. Na Portela, assinou com Antônio Gonzaga o desfile Um defeito de cor, em 2024, e, em 2026, realizou seu primeiro trabalho solo como carnavalesco no Grupo Especial. Atualmente é diretor criativo da LIESA. 

Annik Salmon criou uma obra de grandes dimensões que aborda a presença das mulheres no carnaval. Um corpo monumental ocupa o salão e pode ser visto à distância, do mezanino e também por dentro, já que o público poderá entrar na estrutura. Carioca, Salmon é formada em Belas Artes pela UFRJ e iniciou sua trajetória no carnaval em 2003. Trabalhou em escolas como Vila Isabel, Beija-Flor e Unidos da Tijuca e desenvolve enredos ligados à cultura afro-brasileira e ao protagonismo feminino. Atualmente é carnavalesca do G.R.E.S. São Clemente. 

Antônio Gonzaga também trabalha em grande escala. Sua escultura articula motivos afro-brasileiros à espacialidade do carnaval e estabelece um diálogo com a arquitetura modernista do MAM. Artista plástico e compositor, Gonzaga é formado em Design pela PUC-Rio e iniciou sua trajetória no carnaval criando as identidades visuais dos enredos da Cubango, em 2019, a convite de Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Participou da equipe de criação dos desfiles da Grande Rio de 2020 e 2022, foi carnavalesco da Portela e hoje da Grande Rio.

Thayssa Menezes parte de figuras e referências ligadas às raízes das escolas de samba. Nascida em Niterói, a pesquisadora, carnavalesca e arte-educadora investiga as relações entre memória, matrizes afro-brasileiras, pensamento negro e escolas de samba. Sua produção compreende o carnaval como linguagem estética, política e patrimônio intelectual negro. Thayssa é idealizadora do projeto Mulheres Negras no Carnaval e foi curadora da exposição As Raízes Negras do Carnaval, realizada pelo SESC no Sambódromo, em 2024. Carnavalesca e enredista, atualmente é enredista da Unidos da Tijuca e Mocidade Unida da Mooca, já foi carnavalesca da Cubango. 

Gabriel Haddad e Leonardo Bora apresentam quatro trabalhos que partem dos processos criativos de carnavalescos que marcaram a história dos desfiles. As peças estabelecem diálogos com diferentes modos de pensar e construir a linguagem visual das escolas de samba, articulando homenagem e investigação dos procedimentos desenvolvidos por esses criadores. Parceiros de longa data no carnaval, Haddad e Bora assinaram trabalhos na Sossego, Cubango e Grande Rio e conquistaram, em 2022, o primeiro campeonato da história da escola de Duque de Caxias com o enredo Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu. Desde 2026, são carnavalescos da Unidos de Vila Isabel. Haddad, nascido no Rio de Janeiro em 1988, é mestre em Artes e doutorando em História da Arte pela UERJ. Bora, nascido em Irati, no Paraná, em 1986, é doutor em Letras e professor da UFRJ, onde desenvolveu pesquisa sobre a obra de Rosa Magalhães.

As trajetórias dos artistas comissionados também revelam diferentes escalas de atuação nas escolas de samba cariocas. A escolha não se restringiu ao Grupo Especial e reúne artistas com experiências na Sapucaí, na Série Ouro e nos desfiles da Intendente Magalhães. O recorte acompanha a amplitude desse universo, formado por escolas de estruturas e orçamentos distintos.


“Carnaval como método” traz três mestres da avenida

Trabalhos de Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães e Maria Augusta Rodrigues revelam a multiplicidade de processos de criação dos três artistas por meio de desenhos, figurinos, fotografias e registros de desfiles.

A apresentação de Joãosinho Trinta, desenvolvida em colaboração com a doutoranda em história da arte e pesquisadora de artes do Carnaval Debora Moraes, se concentra em Ratos e urubus, larguem minha fantasia, desfile concebido para a Beija-Flor de Nilópolis em 1989. Estão reunidos desenhos de Cláudio Urbano, responsável por traduzir visualmente as ideias do carnavalesco, e fotografias inéditas de Valtemir Valle, que trabalhava no barracão com Joãosinho. As imagens registram a construção daquele e outros carnavais e o transporte de peças e carros para a avenida. O desfile, hoje lembrado sobretudo pela imagem do Cristo coberto, será exibido integralmente.

De Rosa Magalhães, a exposição apresenta croquis relacionados a cinco desfiles de diferentes momentos de sua trajetória, os quais fazem parte do Núcleo de Memória, Informação e Documentação da Rede de Bibliotecas da  UERJ. Os desenhos permitem acompanhar as concepções desenvolvidas pela artista ao longo dos anos em diferentes escolas.

Maria Augusta Rodrigues, carnavalesca e professora de Teoria da Cor da Escola de Belas Artes da UFRJ, ganha uma instalação organizada em torno de uma mesa circular, com desenhos, figurinos e fantasias, concebida em colaboração com o carnavalesco e pesquisador Edu Gonçalves. Conhecida por levar para a avenida o chamado “luxo da cor”, Maria Augusta ampliou a paleta dos desfiles para além das cores oficiais das agremiações, subordinando a escolha cromática às necessidades de cada enredo. Sua produção também se destacou pela leveza dos temas escolhidos, inclusive durante a ditadura militar, quando levou para a avenida assuntos como o domingo, o amor e o amanhã.

Por fim, ao final do percurso, uma seleção de pinturas funciona como uma espécie de epílogo e revela outras conexões entre a criação visual e o universo das escolas de samba. Estão presentes o desenhista e compositor Antônio Caetano, um dos fundadores do G.R.E.S. Portela; a sambista Gisa Nogueira, integrante da Ala de Compositores da escola; o pintor, compositor e sambista Heitor dos Prazeres; o percussionista, compositor e pintor João da Baiana; o pintor, escultor, percussionista e carnavalesco Mestre Saul; o pintor, escultor e cenógrafo Miguel Moura; o compositor, cantor, pintor e escritor Nelson Sargento; e a coreógrafa, carnavalesca e folclorista  Raquel Trindade, que atuou como aderecista da Quilombo, escola fundada por Candeia. O conjunto revela uma produção visual pouco conhecida de artistas profundamente ligados ao samba e às escolas.

A exposição é apresentada como uma unidade, sem divisões em eixos temáticos. Na expografia, estruturas discretas construídas em camadas fazem referência aos próprios modos de fazer do Carnaval. Superfícies espelhadas e o brilho criam reflexos entre os trabalhos e incorporam a imagem dos visitantes ao percurso.

Carnaval como método retoma uma relação que atravessa a história do MAM Rio. Escolas de samba participaram dos Domingos da Criação, concebidos pelo crítico e curador Frederico Morais nos anos 1970, e a Beija-Flor de Nilópolis esteve entre os grupos presentes na mobilização pela reconstrução do museu depois do incêndio de 1978. Historicamente, no entanto, a produção artística ligada ao carnaval encontrou pouco espaço no circuito institucional das artes visuais.

Ao colocar em discussão hierarquias que estabeleceram lugares distintos para o carnavalesco e o artista visual, a exposição representa, nas palavras de Pablo Lafuente, um “gesto de abertura de portas”, que lança questões sobre quais artistas encontram lugar no museu, acervos e coleções.

SERVIÇO: 19 de setembro até 21 de fevereiro de 2027
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
End: Av. Infante Dom Henrique, 85
Aterro do Flamengo

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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