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Digger: Alejandro G. Iñárritu transforma Tom Cruise em personagem obscuro

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Digger, o novo, interessantíssimo e instigante filme do cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu, é facilmente o melhor filme de Iñárritu desde Birdman, de 2014. Saí do cinema com a certeza de que o filme, por exemplo, é muito melhor do que O Regresso, de 2015, que foi uma obra badaladíssima. E talvez seja ainda o segundo melhor filme da carreira do diretor, que tem algumas obras excelentes da época em que não era um diretor oscarizado.

Deixando esses pormenores de lado, do que fala Digger? Esse título faz referência ao nome do personagem principal, interpretado pelo ator Tom Cruise. Impressionante: 64 anos de idade e o filme precisou envelhecer o intérprete para o papel. É como se ele tivesse um quadro envelhecendo no porão de casa. Mas isso aí é outra história. Digger Rockwell é o homem mais rico do mundo, um milionário, dono de uma megacorporação, explorador de petróleo. E, no dia em que uma catástrofe ambiental acontece por causa de uma das suas empresas, ele se vê em uma encruzilhada: não fazer nada por conta do prejuízo ou tentar, de algum modo, remediar a situação, para que o mundo não o veja como um destruidor da humanidade, e sim como o seu salvador? Com um grande elenco, além de Tom Cruise, o filme tem John Goodman interpretando um inescrupuloso presidente dos Estados Unidos, Michael Stuhlbarg, ótimo como sempre, na pele de um acovardado vice-presidente, e Riz Ahmed como um cientista e principal consultor para assuntos ambientais de Digger. O elenco é uma das melhores coisas do filme, com todos trabalhando muito bem e de forma coesa.

Em Digger, para ficar irreconhecível na pele do personagem Cruise usou próteses, muita maquiagem e também usou um enchimento corporal.

Eu já falei do plot e poderia destrinchá-lo mais. Só que Digger é um desses filmes que, quanto menos você souber, melhor. Então, na verdade, me agradeçam por estar dando tão poucos detalhes em relação à história. O longa-metragem tem um, não, dois plot twists. Por isso, não posso dizer mais nada para vocês. Agora, além de ser o melhor filme de Iñárritu desde Birdman, essa é a produção que, de várias maneiras, dialoga melhor com a obra mais famosa do diretor mexicano. Tanto por questões técnicas — Iñárritu tem mais uma vez como parceiro o melhor diretor de fotografia do mundo, Emmanuel Lubezki, o homem que fotografou Birdman e fotografa Digger — quanto pelo próprio espírito do filme.

Indo contra aquela lógica de que quanto mais roteiristas, pior o roteiro, de que os melhores textos são escritos por apenas uma pessoa, aqui, assim como em Birdman, Digger tem quatro roteiristas: o próprio diretor, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, ambos co-roteiristas de Birdman e ganhadores do Oscar com Iñárritu, e Sabina Berman. O roteiro é baseado em uma ideia do cineasta e de Berman, mas não é só isso. Há um outro aspecto que alimenta o diálogo. Eu vou tentar dizer de um jeito que não seja considerado um spoiler, já que não quero estragar a experiência dos leitores: essa é a obra mais teatral de Iñárritu desde Birdman. E aí, vocês que estão me lendo agora, entendam esse teatral como quiserem. Se alguém chegar à conclusão do que seria essa teatralidade que aproxima os dois filmes, não conte para o amiguinho.

Por fim, para além do universo da cinematografia de Iñárritu, outro diálogo, para mim muito claro, de Digger é com Doutor Fantástico, de 1964, de Stanley Kubrick. A grandiosidade almejada é a mesma, a capacidade de nos entreter e de nos capturar visualmente também e, lá pelas tantas, as duas histórias se encontram no seu viés destrutivo da humanidade. Um como uma dura, irônica, debochada e sarcástica crítica à maneira como a humanidade lida com o meio ambiente. Já o outro como uma dura, irônica, debochada e sarcástica crítica aos arroubos bélicos da Guerra Fria.

Talvez tenhamos aqui um dos grandes filmes do ano e eu vou matutar nos próximos dias, porque talvez seja o meu filme favorito deste ano. Ele está dividindo a crítica e, sinceramente, não posso fazer nada. Uma vez, um crítico carioca disse que Gente de Sicília, de 1999, de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, era um filme para críticos, e ali havia uma contradição, porque ele estava dizendo que o público não gostaria, só os críticos. No entanto, ele era crítico e não gostou do que viu. Dito isto, correndo o risco de soar contraditório como o meu colega, pois eu gostei do que vi, vou dizer que esse é um filme mais para o público do que para os críticos. Não que críticos não possam gostar, mas a complexidade que Iñárritu e a sua turma tentam colocar talvez seja encarada pela maior parte da crítica especializada como uma papagaiada, um rebuscamento pedante. No final das contas, eu recomendo demais. Vejam no cinema e em tela grande, pelo amor de Deus!

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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