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Consequências Paralelas: Gabriel França e Cd Vallada misturam ciência e a filosofia em ficção científica

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Vocês já pararam para pensar no que fariam se tivessem à disposição uma máquina do tempo? O que mudariam na própria vida? Eu já me peguei pensando nisso algumas vezes. A última foi em uma sala de cinema, confortavelmente sentado, com o ar-condicionado na temperatura certa, assistindo a Consequências Paralelas, de Gabriel França e CD Vallada. Acho que não mudaria muita coisa. Talvez uma escolha ou outra na vida profissional, mas é complicado mexer nisso, porque, se hoje estou aqui falando com vocês por meio deste texto, é porque fiz determinadas opções ao longo da vida. Se tivesse feito outras, talvez não tivesse visto esse filme nem estivesse aqui escrevendo sobre ele. Mas, pensando bem, eu voltaria no tempo para dançar com aquela colega que achava muito bonita, mas com quem minha timidez, a de um tatu dentro de uma toca, me impediu de aceitar dançar. Eu tinha 13 anos e ainda estudava no Colégio Sion. Também teria conversado mais com a Juliana, essa eu lembro o nome. Quando fiquei doente, ela organizou uma carta com letras coloridas, recolheu as assinaturas dos colegas e me desejou melhoras e um rápido retorno às aulas. Eu teria sido menos tímido e aproveitado algumas oportunidades. Mas não dá para voltar no tempo. Não na vida real. Na ficção, sim.

Consequências Paralelas, salvo algum engano deste crítico, é o terceiro filme brasileiro sobre viagem no tempo, depois de O Homem do Futuro (2011) e Branco Sai, Preto Fica (2014). Fui ao cinema com uma expectativa sinistra, porque gosto muito de um desses filmes e não gosto nada do outro. Não vou dizer aqui qual é qual. Ao assistir à produção de Gabriel França e CD Vallada, fui gostando aos poucos, devo confessar. Não foi um filme que me conquistou de cara, mas também não me afastou definitivamente logo no início. Minhas reações foram mistas, e fiquei tentando entender aonde aquela história queria chegar. Uma das primeiras consequências foi achar meio absurda a ideia de uma poltrona como máquina do tempo. Mas, levando em conta que a viagem no tempo é apenas uma teoria, sem comprovação científica, tanto faz se a máquina é um carro, um DeLorean, uma poltrona de sala ou uma cabine telefônica.

Com apenas três atores e uma estrutura que poderia facilmente ser adaptada para o teatro, Consequências Paralelas tem uma característica que me agrada. Quem me acompanha sabe que gosto de filmes com estruturas teatralizadas. Carol Macedo interpreta Bruna, João Fenerich vive Pedro e Felipe Hintze dá vida a Max. Bruna e Pedro são namorados, enquanto Max é o melhor amigo do casal. Os três vão para uma cabana no interior onde a mãe de Bruna (voz over de Camila Morgado), uma cientista, costumava ficar quando precisava pensar, refletir ou ter alguma ideia. Bruna acaba de passar pelo trauma da morte da mãe e precisa se recuperar, contando com o apoio do namorado e do melhor amigo. Chegando lá, porém, eles descobrem que a tal poltrona é uma máquina do tempo e decidem experimentar a bichana que estava quietinha em um canto. Os três viajam, cada um por sua vez e várias vezes, e começam a descobrir as consequências dessas experiências. Afinal, segundo a teoria, interferir no passado pode modificar o presente. E não é só isso: viajar para o futuro, sabendo o que vai acontecer, também pode condicionar nossas decisões a partir do momento presente. O resultado é uma confusão danada entre os três, difícil de explicar em poucas linhas.

Um filme com essa estrutura, sustentado por apenas três atores, depende muito das atuações e do roteiro. Podemos falar da direção de arte de Daniela Aldrovandi, que é boa, embora nada espetacular ou particularmente criativa, e da fotografia de Rodrigo Prata, que alterna closes dos atores com enquadramentos mais abertos e distantes. Mas são o texto e o trabalho do trio que seguram a produção. Nesse sentido, é preciso elogiar Carol Macedo, João Fenerich e Felipe Hintze, que dão conta do recado. Como disse anteriormente, demorei a me envolver com o filme, em parte por causa das minhas experiências anteriores com produções brasileiras sobre viagem no tempo. Tinha receio de que, por ser um filme de baixo orçamento, ele repetisse a experiência negativa que tive com um dos dois títulos mencionados. Tudo bem, vou dizer: não gosto nada de Branco Sai, Preto Fica, que me desculpe o diretor Adirley Queirós.

Mas Consequências Paralelas foi me ganhando e conquistou minha simpatia principalmente no desfecho. Afinal, quando falamos de viagens no tempo, consequências paralelas, possibilidades e realidades alternativas criadas pelas mudanças que fazemos, estamos diante de um universo de finais possíveis. Havia inúmeras alternativas para encerrar essa história, e considero que Gabriel França e CD Vallada escolheram o melhor desfecho possível. Pelo menos, foi aquele que mais me satisfez e que fez mais sentido diante de todos os desdobramentos da narrativa. O filme tem 80 minutos, e a impressão que fica é a de que talvez tenha nascido como um curta-metragem e alguém tenha sugerido aos diretores que o transformassem em longa. Ainda assim, não ficou tão longo assim, e a duração me parece precisa. Esticar a história significaria correr o risco de encher linguiça. Consequências Paralelas é um filme que foi me conquistando aos poucos e que encontrou no final o caminho para me convencer.

Desliguem os celulares e boa diversão.

*Filme visto durante o Festival do Rio 2026

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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