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Josephine: Fragmentos de um crime revela nova atriz infantil

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Depois de testemunhar acidentalmente um crime violento, Josephine, uma menina de 8 anos, procura formas de se sentir segura, enquanto os adultos ao seu redor são incapazes de consolá-la. Após o ocorrido, ela age em busca de recuperar o controle de sua segurança, enquanto os adultos não conseguem dialogar com as sequelas de seu trauma. Ela é a única testemunha ocular de um crime horrendo no Golden Gate Park, em São Francisco.

Após vivenciar esse trauma, Josephine começa a apresentar comportamentos violentos como uma forma de se proteger. Seus pais, Damien e Claire passam por dificuldades para ajudá-la a compreender o que viu e recuperar a sensação de segurança. A situação provoca uma ruptura de ideais entre o casal, que precisam lidar com os próprios medos ao buscar justiça pelo crime. Ao mesmo tempo, Josephine precisa enfrentar o processo judicial e as consequências de ter testemunhado uma experiência tão perturbadora.

Mason Reeves estreia nos cinemas com uma personagem difícil, com cores sombrias. A novata traz naturalidade à cena junto a câmera na mão, trazendo a realidade brutal que confunde a cabecinha de uma criança. A pequena atriz se apossa da dores da personagem em atuação grandiosa. Ela, certamente, é um dos pontos altos do projeto. A jovem atriz consegue exteriorizar sentimentos mesmo com poucas palavras, construindo um retrato complexo de uma criança cujo repertório emocional ainda não lhe permite compreender a dimensão daquilo que testemunhou. 

Exibido sob a perspectiva do olhar infantil, o longa traz enquadramentos fechados e trêmulos com tom claustrofóbico e escolhas estéticas concebidas para diminuir a zona de conforto do espectador. A madura direção de Beth de Araújo é coerente nesse enredo perturbador.

Aliás, o filme conta com uma trama simples inspirado numa experiência vivida pela própria cineasta Beth de Araújo, também aos oito anos. A diretora estava com o pai no mesmo parque retratado no filme quando os dois interromperam uma agressão sexual. Décadas depois, ela decide transformar sua memória de infância no ponto de partida da história explorada neste projeto.

Josephine: Fragmentos de um crime aborda o estado de alerta e o medo paralisante no cotidiano de uma pessoa que vivenciou uma experiência traumática. No caso, por ser uma criança ainda é mais difícil nomear essas dores e sentimentos. O cérebro e a personalidade ainda estão em formação, os ideais maternos e paternos são relevantes para a sua formação como ser humano. O diagnostico psicanalítico é extremamente necessário nesses casos, podendo desencadear traços, que muitas vezes, não existiriam naquele frágil comportamento que ainda aprende entre certo e errado, mentira e verdade.

No meio disso, o pai protagonizado por Channing Tatum, tem traços fortes de masculinidade, com dificuldades de lidar com a situação. Bem-intencionado, mas despreparado, ele precisa confrontar suas próprias limitações e seu medo. Tatum traz perplexidade na dor do personagem, em um pai, cujos bons e maus instintos coexistem, enquanto a confiança em si próprio e em suas convicções desmorona na proporção inversa à da filha. Enquanto isso, a mãe, interpretada por Gemma Chan, também se mostre incapaz de compreender plenamente as necessidades emocionais de Josephine, porém demonstra maior sensibilidade ao lidar com a filha.

Josephine: Fragmentos de um crime é um filme perturbador, com o intuito de inquietar o espectador. Faz a gente questionar a forma como educamos nossos filhos diante da realidade que vivemos. O filme diagnostica o comportamento infantil de forma sensível e delicada, sem trazer estereótipos.

Josephine: Fragmentos de um crime teve première mundial em janeiro, no Festival de Sundance, dentro da competição U.S. Dramatic. Ao final da edição, recebeu os dois principais reconhecimentos da seção: o U.S. Grand Jury Prize: Dramatic, concedido pelo júri, e o Audience Award: U.S. Dramatic, escolhido pelo público.

*Filme visto durante o Festival do Rio 2026

Alê Shcolnik
Alê Shcolnikhttps://www.rotacult.com.br
Editora de conteúdo e fundadora do site, jornalista, publicitária, fotografa e crítica de cinema (membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro). Amante das Artes, aprendiz na arte de expor a vida como ela é. Cultura e tattoos nunca são demais!

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