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Melissa Vettore encena “Prima Facie”, em italiano

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Radicada na Suíça há oito anos, a atriz brasileira Melissa Vettore vem conquistando a crítica italiana com sua atuação no monólogo da autora australiana Suzie Miller. Com mais de 30 anos de experiência como artista, atuando na televisão, cinema e principalmente no teatro. Sua bagagem inclui vários países, enfrentando sempre desafios e recitando em cinco línguas diferentes. Agora, Melissa Vettore encara mais uma empreitada: estrelar na versão italiana do monólogo “Prima Facie”. Aliás, Prima Facie é uma expressão latina que significa a primeira vista. No contexto jurídico se refere a um evento considerado verdadeiro com base na primeira impressão.

Escrita pela australiana Suzie Miller, a peça já foi traduzida em 20 idiomas e apresentada em 38 países, inclusive no Brasil, interpretada por Débora Falabella, sob a direção de Yara de Novaes. Na Itália, o diretor suíço Daniele Finzi Pasca e Melissa Vettore compraram os direitos da peça. Confira abaixo entrevista com Melissa Vettore.

Como foi seu processo de construção e desconstrução da personagem? Você teve contato com a Debora Falabella, Yara Novaes e Suzie Miller?

    MV: Meu processo de construção foi primeiro entrando na língua italiana, como não é minha primeira língua, pedi o texto em inglês também para poder entre vários idiomas, me aproximar daquelas palavras. Um ator quando interpreta em outra língua, precisa encontrar elos afetivos, em palavras que as vezes não se traduzem emocionalmente, então meu trabalho de construção inicial foi mergulhar nessas sonoridades e fazê-las ressoar como se estivesse falando com intimidade como faria em português, ou seja na minha língua materna.

    Melissa Vettore

    A desconstrução pessoal, foi para encontrar o corpo de uma advogada feroz, com uma jovialidade que me lembro de ter tido aos 30 anos, quando é a primeira vez que o mundo profissional aparece claro. A ambição bonita que existe na vontade de ‘vencer’, de construir um espaço. Essa é uma característica de Tessa, e é só depois da queda, que ela consegue enxergar algo que a ‘cegava’, pela ‘paixão’ que ela nutria pelo sistema jurídico. 

    Melissa Vettore conta que a personagem vai se desconstruindo, se humanizando e tirando a lei do lugar ‘inatingível’ em que foi colocada, e resumindo-a a uma pergunta simples: “A lei não é um processo orgânico, construído por nós, sob a luz das nossas experiências? Então TEM que mudar! Porque a verdade é que 1 em cada 3 mulheres sofre uma violência sexual.”

    Ela completa, “Eu admiro a Yara e nos conhecemos. A encontrei em uma festa quando estava em São Paulo e nos abraçamos quando contei que faria a versão italiana, ela me convidou para assistir a Débora e disse uma coisa muito bonita. Ela me falou: somos ‘Tessas’, somos todas irmãs. Isso ficou no meu coração”. A ideia de que entre as 48 atrizes que interpretam ou interpretaram Tessa no mundo, uma certamente influencia a outra de alguma forma.

    Suzie Miller veio nos assistir em Roma, na estreia nacional de Prima Facie na Itália. Ela é uma pessoa extraordinária, engajada na causa, nos contou como esse texto foi escrito rapidamente, já que ela tinha tanta experiência no assunto. Ficou muito encantada com a direção do Daniele, e a linguagem poética da Compagnia Finzi Pasca, e comentou que estava surpresa ao ver como eu me transformava da advogada a vítima. Desde então permanecemos em contato.

    O que a versão em italiano do traz de diferente seja na linguagem ou na estética? 

    MV: Cada versão traz uma particularidade, são 48 versões diferentes, traduzido em 20 línguas. Fico curiosa para ver a versão chinesa ou turca, são tantas. A nossa traz a marca da linguagem poética do diretor, e meu marido, Daniele Finzi Pasca. 

    Daniele é um ‘clown’, dirigiu dois shows para o Cirque du Soleil (Corteo e Luzia), então ele lê o ‘teatro de prosa’ – como chamamos em italiano – a partir de uma certa fisicalidade. Nos encontramos muito bem nesse aspecto, porque sempre me dediquei muito ao trabalho corporal, então acabei dando corpo aos diferentes personagens que aparecem na narração, não só Tessa. 

    Em geral as montagens fazem uma cenografia na primeira parte e outra na segunda parte da peça. Nossa montagem tem bastante impacto cenográfico e de iluminação, uma marca do diretor, que traz leveza ao texto, jogando com aspectos que surpreendem o espectador. Então construímos uma cena diferente para as 18 cenas do texto. 

    Por exemplo, caem coisas do teto dando um aspecto surreal, como processo que infinitamente se acumulam. Tem também a presença de um objeto cênico acrobático que foi uma criação do cenógrafo Matteo Verlicchi. Daniele queria para a cena da violência sexual, algo metafórico que desse a sensação de vertigem, que começasse divertido e acabasse gerando medo e impotência. Se tornou uma cena muito impactante, onde eu sou girada a uma certa velocidade nesse objeto, manipulado por um técnico. O resultado é que muitos homens dizem entender pela primeira vez, como uma mulher se sente em um momento de violência. 

    Gostaria de saber como foi a sua primeira reação ao ler o texto?

    MV: A primeira coisa que me seduziu no texto foi o ritmo, uma musicalidade que faz com que mesmo 95 páginas, fluam de um modo preciso e ritmado. Admiro a arquitetura do texto, Suzie Miller constrói uma contradição enorme, a partir da primeira parte onde Tessa exibe o orgulho de estar vencendo como advogada (mesmo que defendendo homens acusados por violência sexual) e depois da violência que ela é vítima na segunda parte, ela revela questões éticas em relação a tudo que fazia como advogada entes disso. 

    Também senti pânico!! Eu faço a versão italiana, que diferente do inglês, mantêm frases mais muito longas e com palavras do mundo jurídico, difíceis de pronunciar. Então compreendi que além do trabalho que normalmente temos que fazer como atores, eu teria que trabalhar dobrado para dominar minha pronúncia.

    O texto fala da violência de gênero, trazendo debates globais sobre a necessidade de um sistema jurídico mais sensível às vítimas de crimes sexuais. Você acha que “Prima Facie” abriu portas para falarmos de injustiças?

    MV: “Prima Facie” se transformou em um fenômeno global, capaz de mudar as leis em alguns países, e de forma geral de sensibilizar muitos grupos. Poderia dar alguns exemplos como na Irlanda do Norte, onde os juízes para se formar, devem ler o texto de Prima Facie. 

    Na Suiça italiana, onde a Compagnia em que trabalho está sediada, por exemplo, após a nossa estreia nasceu um Grupo Multidisciplinar de Sensibilização Contra a Violência de Gênero, inspirado no espetáculo, com representantes de vários âmbitos da sociedade, como autoridades, universidade, medicina, polícia. A ideia é ajudar a ‘mover a engrenagem’, porque mesmo existindo tantos programas em cada área, os números de violência contra a mulher, continuam muito altos na Suiça (imagina!!). Então esse grupo pretende fazer com que eles se comuniquem melhor entre si. Acho que no Brasil, estão propondo algo semelhante. 

    Também quando estreamos em Milão, participamos de uma coisa incrível que foi o ‘Manifesto dos Homens’, uma ação conjunta da Compagnia Finzi Pasca, com a prefeitura de Milão, com o Teatro Franco Parenti, e a revista F. Os homens depois do espetáculo faziam fila para assinar o manifesto que convida os homens jovens a uma educação afetiva, e propões que os homens que falem entre si sobre: o corpo da mulher, consenso, rejeição, para que sejam um novo modelo masculino.

    Esse ‘Manifesto dos Homens’ nós estamos girando a Itália e Suiça italiana, é engraçado, porque antes de eu entrar em cena, tem sempre algum convidado em cada cidade, prefeito, assessor de cultura, ou jornalista, que pede para abrir o espetáculo, e fazer uma pequeno discurso, dando a importância merecida ao tema. 

    Também foram organizados debates com vários especialistas do tema, dando visibilidade também as Associações de Mulheres que se ocupam de fornecer acolhimento e informação, a mulheres que sofreram violência, sobre igualdade de gênero, e também consciência das diversas formas de violência: sexual, física, psicológica e financeira. Impressionante como após o espetáculo, vários centros em Lugano (na Suiça italiana) e programas de televisão, nos informaram que dobraram o número de ligações de mulheres recebidas. 

    Pela representatividade de Simone de Beauvoir  e seu idealismo e sua filosofia podemos acreditar que  Beauvoir faz parte da construção do monologo?

    MV: Me lembro bem de quando completei 11 anos e minha mãe colocou um cartaz no meu quarto que dizia: “Não se nasce mulher, torna-se mulher” – foi a primeira vez que ouvi falar de Simone de Beauvoir. Não sei se aos 11 anos entendi o que a frase queria dizer, mas cresci procurando essa resposta. 

    Minha mãe é uma mulher que me ensina muitas coisas, e a melhor tradução que encontrei para isso que penso que ela queria me dizer, foi ‘a capacidade de escolher, e não ser definida ou escolhida pelo olhar masculino’. Não é um conceito fácil, mas é a chave do processo de libertação de uma mulher dentro da sociedade em que vivemos. 

    Agradeço essa ‘chave’ que minha mãe me deu e perpetuo esse conceito entre as novas gerações, para que não se perca. E isso vem das antigas feministas, autonomia da escolha gera liberdade, então acredito que sim, Simone Beauvoir , e minha mãe!, estão presentes nesse monólogo e em todos os avanços aos quais ainda devemos ainda lutar. 

    Alê Shcolnik
    Alê Shcolnikhttps://www.rotacult.com.br
    Editora de conteúdo e fundadora do site, jornalista, publicitária, fotografa e crítica de cinema (membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro). Amante das Artes, aprendiz na arte de expor a vida como ela é. Cultura e tattoos nunca são demais!

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