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“Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil, ganha nova montagem, no Teatro Poeira

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Sucesso da dramaturgia nacional, a peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil, ganhou uma nova montagem dirigida por Eric Lenate em codireção com Vitor Julian. No palco, Lenate divide a cena com  Fernando Billi. O espetáculo, que ainda tem direção de produção de Mauricio Inafre estreou em São Paulo, agora segue para a capital carioca no Teatro Poeira.

Montada pela primeira vez em 2002, sob a direção de Ariela Goldmann, a peça fez um enorme sucesso de crítica e de público e recebeu os prêmios Shell e APCA daquele ano. O texto também foi traduzido para diversos idiomas e ganhou montagens em Portugal, Itália, Argentina, Porto Rico, Uruguai, Chile e México. Além disso, foi adaptado para o cinema no longa-metragem “Em Tempos de Paz” (2009), dirigido por Daniel Filho e estrelado por Tony Ramos e Dan Stulbach. 

A peça é uma fábula de época, que se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), já no final da Segunda Guerra Mundial, e narra a história de Clausewitz, um refugiado polonês que chega ao Brasil disposto a esquecer os horrores que viveu em sua terra natal. Ao se apresentar à Alfândega, em abril de 1945, carregando apenas a roupa do corpo e o sonho de começar uma nova vida como agricultor, ele é barrado por Segismundo, um funcionário da imigração e ex-torturador da polícia política varguista. 

Clausewitz chega sem nenhum pertence, sem apresentar nas mãos qualquer marca típica da vida de agricultor e, o mais estranho, falando português fluentemente.  Segismundo suspeita que o imigrante polonês seja um nazista disfarçado tentando entrar no país e inicia um duro interrogatório. A tensão culmina em um ultimato: Clausewitz tem 10 minutos para cumprir uma tarefa inusitada ou voltará no mesmo cargueiro que o trouxe. Começa então um intenso embate entre os dois homens que, irmanados em suas derrotas pessoais, procuram a emoção que poderá ou não resgatar suas humanidades. 

Na nova encenação, Fernando Billi assume o papel do interrogador Segismundo e Lenate, do imigrante polonês Clausewitz. O espetáculo teve sua estreia nacional na 17ª FITA – Festa Internacional de Teatro de Angra, em agosto de 2025, na qual venceu o Prêmio FITA 2025 de Melhor Cenário (Eric Lenate). A montagem também recebeu indicações nas categorias melhor espetáculo, melhor direção, melhor ator (Eric Lenate), melhor trilha sonora (L. P. Daniel) e melhor iluminação (Aline Sayuri e Eric Lenate). O espetáculo ainda foi indicado ao Prêmio APCA 2025 de melhor ator (Eric Lenate).

A relevância do texto – “Novas Diretrizes em Tempos de Paz” expõe de forma incisiva alguns dilemas provenientes da tentativa de compreensão do horror. Ao longo do embate entre os personagens vemos refletidas duas experiências históricas marcadas pela sistemática violação de direitos humanos: a 2ª Guerra Mundial e o regime autoritário do Estado Novo brasileiro. 

A obra propicia uma reflexão sobre as articulações entre os perversos mecanismos de subjugação do ser humano utilizados na Segunda Guerra e a experiência histórica dos países periféricos, neste caso o Brasil, convocando estratégias de rememoração que preservam e atualizam as agruras e impasses do período. 

As nuances “infinitas” em torno da historiografia do Holocausto valem também, em grande medida, para o contexto de formação da sociedade brasileira. A delicada aproximação que a obra de Bosco estabelece entre a guerra na Europa e o regime de Getúlio Vargas confronta o mito de país pacífico e acolhedor – expresso pela ingenuidade de Clausewitz ao projetar sobre o Brasil o lugar mítico de sua redenção – sem, com isso, flexibilizar ou diminuir o sentido extremo da guerra. 

Essa tensão é potencializada na medida em que, por um lado, os países latino americanos convivem em sua história com catástrofes de elevada magnitude, cujos efeitos terríveis na história do Ocidente ainda não encontram um “esforço de memória” condizente com sua dimensão.  

Ao colocar em cena um torturador brasileiro e um refugiado da guerra europeu, Bosco  desloca para a ótica brasileira e contemporânea várias questões ligadas à tarefa de  lembrar a barbárie, propiciando uma reflexão sobre os gestos do algoz e da vítima do  fascismo europeu e sua incorporação parcial na estrutura política do Estado Novo, da  dificuldade de representar o horror extremo e convertê-lo em testemunho dotado de  sentido compartilhável, bem como o papel (im)possível da arte no mundo que emerge  da barbárie. 

Serviço Temporada: 30 de abril a 28 de junho / De quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h / Local Teatro Poeira – R. São João Batista, 104 – Botafogo Ingressos: Vendas online em Sympla Classificação: 14 anos 

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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