- Publicidade -

Edifício Bonfim explora o universo fantástico e de terror

Publicado em:

Filmes de terror remetem a muitas coisas, em sua construção. A uma ideia de medo, essencialmente, um componente essencial para garantir a boa forma do que está em produção, e da relação entre obra e espectador. E esse medo geralmente estará atrelado a elementos externos – fantasmas, pesadelos, animais ferozes, o Mal encarnado, a própria morte. Talvez todas essas figuras, e algumas outras de surpresa, estejam a bordo de Edifício Bonfim, que estreia essa semana nas telas grandes do país. Porque o filme abre uma caixa e mistura elementos em suas três histórias, que acabam se encontrando na gênese do horror enquanto gênero de cinema, e que o fazem fascinante para longe do que ele acaba apresentando, de suas qualidades narrativas e estéticas. 

Em tese, Edifício Bonfim nem se configura como um filme de gênero, e o público que acessar a obra no escuro, será ainda mais surpreendido – e provavelmente terá ainda mais motivos para comemorar, como quem aqui escreve. Porque tal jogo não é aberto de cara pelo filme, que nos apresenta uma reunião de condomínio onde os presentes da reunião serão os protagonistas de cada um dos episódios que o filme apresenta. Isso é pouco natural em apresentação, e torna a apresentação dessa experiência como algo divertido, além de abrir um leque de personalidades que o próprio filme trata de comentar, ou distorcer. Estão todos ali, e irão em sequência apresentar suas narrativas em diferentes códigos do horror, outra camada que o filme não deixa escapar, de homenagem em homenagem, de leitura em leitura. 

Lígia Walper e seu filho, Tomás, assinam a direção de Edifício Bonfim, uma das produções mais curiosas do cinema brasileiro recente. Primeiro, porque filmes de terror ainda são novidades na nossa cinematografia; segundo porque mãe e filho assinarem uma mesma produção é igualmente raro; terceiro porque trata-se de uma produção do Sul do país, que não é das regiões que mais costumam estrear novos títulos, de qualquer gênero. Tabajara Ruas, companheiro de uma e pai do outro, é um dos pilares do cinema gaúcho, por trás de obras como Netto Perde Sua Alma, e aqui atua como produtor. O encontro entre essas leituras tão diferentes de cinema, mostram um caminho que pulsa dentro de uma ala ainda pouco habitada do nosso audiovisual, mas cuja exploração é visivelmente crescente. 

As intenções exploradas – todas de inquietação visível, dedicação certeira e uma sede de curiosidade exemplar – apagam os problemas que o filme apresenta. O excesso de comunicação auditiva, é um deles; o enxerto de um cancioneiro quase ininterrupto no filme, abafa as qualidades das composições criadas especialmente para o projeto, e não deixa também que o trabalho de som seja valorizado. Além disso, existe uma equalização desencontrada entre os diálogos e as ações de fato, mas que deixam a produção em menor competência do que poderíamos esperar. Para um filme que tem visível prazer em sua ambição sonora, as decisões finais mais atrapalham que ajudam o conjunto. 

A própria encenação parece quase televisiva, já a fotografia parece retirada de alguma novela antiga, dos anos 2000. Falo antiga, porque hoje as novelas meio que se apresentam com textura e relevo imagético. Edifício Bonfim não tem uma textura de luz condizente com a qualidade de suas ideias, que são inspiradoras. Assim como existe uma crescente no acabamento dos roteiros, cujo primeiro conto dá lugar a um melhor, e o terceiro é o mais embasbacante dos três. Mas ainda que suas curvas de trama homenageiem produções que vão desde Hellraiser [REC], o filme não se enleva além do que é possível porque a realização não está à altura do que a vontade de contar tais histórias. 

O saldo, apesar de tudo, é estranhamente positivo. Porque percebemos que só um projeto que exala curiosidade, coragem e paixão poderia motivar as nossas iguais sensações para tentar sempre avançar no que estamos vendo, e querendo estar sempre diante do próximo passo. Edifício Bonfim, com seus altos e baixos, entre expectativas e realidades, é uma produção que se acompanha com interesse do início ao fim, porque algo está sendo construído ali e essa não é uma construção básica. Ainda que a sofisticação não tenha necessariamente aparecido, o que está em pauta também é uma garantia de futuro para histórias de gênero sendo tratadas com respeito, e isso está visivelmente aqui. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -