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Sexo e Destino: Márcio Trigo dirige novo filme espírita nacional

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No momento em que somos bombardeados pela notícia de que a novela A Viagem (1994) ganhará uma versão cinematográfica, oferecendo uma nova visão da história de Alexandre, Diná, Otávio Jordão e Doutor Alberto para novas gerações, mais um filme espírita chega aos cinemas brasileiros. Aliás, este é um filão bastante explorado no cinema nacional dos últimos anos. Sexo e Destino, dirigido por Márcio Trigo, é baseado em um best-seller do espírito André Luiz, psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira, que começa como um drama amoroso relativamente simples.

Marina (Letícia Agustin) e sua irmã Marita (Carol Macedo) apaixonam-se pelo mesmo homem, Gilberto (Bruno Gissoni). Gilberto, inicialmente, é o namorado de Marita. Só que ele nunca a amou de verdade. A certeza vem quando conhece Marina, que, por sua vez, se encanta e corresponde sem saber que ele é o namorado de sua irmã. O choque provocado pela descoberta da traição parece apontar para um melodrama centrado nesse triângulo amoroso, mas o filme rapidamente abandona esse conflito inicial para seguir por outros caminhos.

A história passa então a se apoiar nas famílias daqueles personagens e em seus dramas particulares. Marina e Marita são filhas de Cláudio (Antônio Fragoso) e Márcia (Raquel Rizzo), um casal consumido pelo desgaste do tempo, pelo alcoolismo e pela falta de afeto. Já Gilberto é filho de Nemésio (Tato Gabus Mendes) e Beatriz (Totia Meireles), uma mulher em estado terminal cuidada justamente por Marina, enfermeira da família. Tudo soa, do princípio ao fim, bastante rocambolesco e muito piegas.

É nesse ambiente que surgem alguns dos conflitos mais relevantes da narrativa de Sexo e Destino, especialmente o assédio constante de Nemésio sobre a jovem. O problema é que, apesar da quantidade de personagens e conflitos, o longa-metragem nunca consegue organizar dramaticamente todas essas linhas narrativas de forma satisfatória.

Existe uma velha máxima no cinema que diz que um roteiro escrito por muitas mãos costuma ser um roteiro fadado ao fracasso. Evidentemente, toda regra possui exceções. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2015), vencedor do Oscar de Filme e Roteiro Original, foi escrito por quatro roteiristas e funciona brilhantemente. Em Sexo e Destino, infelizmente, isso não acontece. São seis roteiristas construindo uma trama, como eu já escrevi, rocambolesca e marcada por problemas graves de desenvolvimento.

Um dos principais defeitos está justamente na transformação dos personagens. A doutrina espírita — assim como o cristianismo, de maneira geral — acredita na regeneração moral do indivíduo, na possibilidade de arrependimento e evolução espiritual. O problema é que, em Sexo e Destino, essas mudanças acontecem de forma abrupta demais. Personagens extremamente mesquinhos tornam-se pessoas melhores quase da noite para o dia, sem que o roteiro construa adequadamente esse processo. Assim, 1h50 de duração claramente não é suficiente para desenvolver tantos dramas, conflitos e arcos de forma simultânea e satisfatória.

As atuações de Sexo e Destino também pouco ajudam. E, quando personagens frágeis encontram interpretações pouco convincentes, o resultado, inevitavelmente, desaba. O elenco reúne nomes experientes e conhecidos, como Tato Gabus Mendes, Totia Meireles, Antônio Fragoso e Rafael Cardoso — este, o melhor em cena, mas abandonado lá pelas tantas pelo texto para ser resgatado só mais tarde —, porém o centro emocional da história reside em Bruno Gissoni e Letícia Agustin.

Bruno é um ator competente, mas aqui parece não encontrar o tom do personagem em nenhum momento. Já Letícia, que eu não conhecia até assistir ao filme, infelizmente causa uma impressão ruim. Sua Marina não possui carisma, não convence emocionalmente e tampouco estabelece uma química minimamente sólida com Gilberto. Soma-se a isso uma direção extremamente convencional de Márcio Trigo, incapaz de dar personalidade ao longa-metragem. A sensação constante é a de um diretor operando o tempo todo no piloto automático.

Talvez o momento que melhor sintetize os problemas do filme esteja em seu terço final, quando Sexo e Destino decide mergulhar de vez na doutrina espírita e apresentar as vidas passadas daqueles personagens. O longa retorna ao Brasil Colônia, ao Rio de Janeiro do século XVIII. A intenção é claríssima: explicar espiritualmente os sofrimentos, os comportamentos e as relações daquelas pessoas no presente, partindo da crença espírita de que a alma reencarna sucessivas vezes em busca de evolução moral.

Em teoria, este é um elemento dramaticamente poderoso. Na prática, porém, o recurso surge tarde demais, é desenvolvido às pressas e acaba ampliando ainda mais a sensação de desorganização narrativa. Sexo e Destino até possui temas interessantes e um material filosófico rico em mãos, mas falha justamente no mais importante: transformar tudo isso em cinema vivo, envolvente e dramaticamente consistente. Agora, é torcer para que a nova versão de A Viagem seja melhor e não macule o clássico televisivo.

Desliguem os celulares.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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