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Hit para Dois, uma comedia romântica espirituosa

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Alguém disse ou escreveu certa vez que a música é a forma mais próxima e mais fácil de nos conectarmos com Deus. Os religiosos provavelmente discordarão e dirão que esse papel pertence à oração, à conversa direta com o Divino. Eu não sei quem está certo. Aliás, também não sou exatamente uma pessoa da música. Sou muito mais dos filmes, dos livros e dos programas esportivos. Mas existe alguém que realmente não aprecie uma boa música? Mesmo quem não passa o dia todo ouvindo canções acaba sendo tocado por elas em algum momento. E talvez seja justamente por entender esse poder que o irlandês John Carney, diretor e roteirista (aqui em conjunto com Peter McDonald) de Hit Para Dois, construiu toda a sua carreira ao redor da música.

Para quem não associa imediatamente o nome à filmografia, Carney é o diretor e roteirista de obras como Apenas uma Vez (2007), Mesmo Se Nada Der Certo (2013) e Sing Street: Música e Sonho (2016). Filmes diferentes entre si, mas unidos por um mesmo elemento: a música como força motriz das histórias e das emoções dos personagens. Em seu novo trabalho, Hit Para Dois, essa característica aparece mais uma vez. Não há aqui uma comédia romântica nos moldes de seus filmes anteriores, mas existe a mesma sensibilidade, o mesmo carinho pelos personagens e a mesma crença de que a música pode transformar vidas.

A trama de Hit Para Dois acompanha Rick, personagem vivido por Paul Rudd. Quando jovem, ele sonhava em se tornar uma estrela do Rock, mas a vida aconteceu. Casou com uma jovem irlandesa, dessa união nasceu outra jovem irlandesa, os boletos começaram a chegar e, desta forma, acabou encontrando estabilidade como cantor de uma banda de casamentos, algo que aqui no Brasil compararíamos a um cantor de churrascaria. Só que, durante uma apresentação em um castelo na Irlanda, ele conhece Danny Wilson, interpretado por Nick Jonas, (sim, ele mesmo, o integrante da boy band Jonas Brothers).

Astro internacional da música e melhor amigo do noivo, Danny acaba subindo ao palco para uma participação improvisada. A química entre os dois é imediata. Era muito claro que eles se entenderiam, afinal, a música corre na veia de ambos. Mais tarde, após o casório, entre conversas, bebidas e violões, eles acabam passando a noite compondo músicas juntos. Só que Rick e Danny pertencem a mundos completamente diferentes. Um teve seus sonhos interrompidos pela realidade; o outro vive exatamente o sonho que o primeiro abandonou.

Meses depois, Rick escuta em um shopping uma música que conhece muito bem. Não apenas conhece: ele acredita ter sido o verdadeiro autor da canção. O problema é que Danny a transformou em um enorme sucesso mundial e Rick não possui nenhuma prova concreta de sua participação na composição. A partir daí, o filme se transforma em uma jornada de perseverança. Enquanto familiares, amigos e colegas duvidam de sua história, Rick segue tentando provar que não está louco. E é justamente nessa busca obstinada que o roteiro de Hit Para Dois encontra sua força. Em nenhum momento o personagem perde a esperança, e isso acaba contaminando também o espectador.

John Carney acerta mais uma vez. Admito que fui ao cinema sem saber praticamente nada sobre o filme e sequer tinha percebido que ele era o diretor do projeto. Antes da sessão, cheguei a comentar com uma amiga que provavelmente assistiria a mais um filme genérico. Felizmente, estava completamente enganado. Hit Para Dois é daqueles filmes que abraçam o espectador. É, certamente, uma obra que faz companhia. Funciona quando estamos felizes, funciona quando estamos tristes e funciona especialmente quando precisamos acreditar que as coisas ainda podem dar certo. Há uma sinceridade muito bonita em tudo o que acontece na tela.

Além disso, o longa-metragem é extremamente competente em seus aspectos técnicos. A direção é segura, o roteiro é coeso e bem amarrado, as atuações funcionam muito bem e a narrativa flui de forma natural do início ao fim. Paul Rudd entrega mais uma atuação carismática, enquanto Nick Jonas surpreende interpretando uma versão ficcionalizada de alguém muito próximo daquilo que ele próprio representa no mundo real: uma estrela musical surgida em uma boy band. E, antes que eu me esqueça, a relação de Rick com o seu melhor amigo, Sandy, vivido pelo próprio co-roteirista Peter McDonald, me fez lembrar bastante a de Hugh Grant e Rhys Ifans em Um Lugar Chamado Notting Hill (1999). 

O resultado final é tão redondo que fiquei me perguntando se não havia deixado passar algum problema. Pensei durante horas sobre o que tinha assistido e simplesmente não encontrei grandes falhas. Talvez elas existam e eu não as tenha visto. Ou talvez John Carney tenha realmente conseguido realizar mais uma obra especial. E talvez, quem sabe, a música realmente seja uma das formas mais bonitas de nos conectarmos com Deus. Os religiosos, como escrevi anteriormente, provavelmente discordarão, mas aí já é um problema filosófico e não fílmico. Agora, independentemente da resposta para essa questão, uma coisa eu posso afirmar: Hit Para Dois merece ser visto. Eu recomendo fortemente.

Desliguem os celulares e excelente diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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