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Segredo Obscuro: Max Minghella faz releitura de A Morte Lhe Cai Bem

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Atrasado dois anos em sua estreia, Segredo Obscuro tem tudo para usarem A Substância como “inspiração”, mas a verdade é que eles são do mesmo ano de produção, e talvez isso tenha feito o atraso dessa estreia de hoje. Mas o horror corporal (ou o ‘body horror’, como é conhecido) é uma realidade há décadas, e apenas parece estar em um momento de crescimento na indústria. David Cronenberg mesmo utiliza dele há mais de 40 anos, sempre de maneira bem sucedida, até chegar a uma vitória recente em Cannes, Titane, uma Palma de Ouro tanto celebrada quanto contestada. Em comum, a maior parte dos filmes atuais refletem sobre a relação entre o corpo da mulher e o que é constantemente feito a ele, por elas mesmas ou pela sociedade. 

Esse é o segundo longa como diretor de Max Minghella, um jovem ator que ensaia um futuro como cineasta após assistir o pai, Anthony Minghella (vencedor do Oscar por O Paciente Inglês), ter uma carreira brilhante. Aqui, o ator que em breve estará em Cara de Barro investiga o feitiço que a estética causa a auto estima de uma mulher que vive a realidade hollywoodiana. Sim, eu sei que parece a descrição do roteiro de Coralie Fargeat, mas a porta de entrada tem outra saída, e outro trato de ambição. Na verdade, o filme mais parece uma releitura séria de A Morte Lhe Cai Bem, comédia de sucesso com Meryl Streep e Goldie Hawn literalmente tentando uma matar a outra para ficar mais bonita. 

Até onde vale a pena ir para estar em um lugar nunca alcançado antes? Samantha Lake é uma atriz que vive das glórias de uma sŕie cult que nunca a levou a lugar algum. Ao deparar-se com a influenciadora Zoe Shannon e sua promessa informal da longevidade, Lake não quer aceitar. Mas é aí que Segredo Obscuro se mostra de olhar delicado: é o seu meio social que a joga na direção de um circo perigoso, onde a mídia e o julgamento são os reais vetores para um olhar estigmatizante sobre si mesmo. É ainda mais curioso observar que o filme – e o tratamento que o filme representa – parecem apenas redirecionar um extrato de auto estima que está em queda na atualidade, vide nosso reflexo perfeito e inalcançável. 

O passeio que Segredo Obscuro investe, no entanto, é ainda mais prazeroso por se tratar de um universo aproximado ao que o espectador está acostumado hoje. O acelerador é gradativamente acionado na direção do ‘trash’, e os sinais estão em cima da mesa, sem pegar ninguém de surpresa. O reconhecimento posterior dessa ideia nos faz perceber que as setas estavam armadas, e que também mostram uma informal homenagem do espírito de baixíssimo orçamento de outrora, e que geram também situações indecifráveis, e muitas vezes envolvendo o ‘gore’. Aqui, a textura grotesca não alcança sua completude, porque Minghella parece mais interessado em sugerir do que mostrar diretamente, o que não impede o filme de apontar para essa radicalidade do corpo. 

Nos trabalhos de Kate Hudson e Elisabeth Moss, duas belas atrizes, não se encontra nenhum outro dado que não os arquétipos: a mulher cujo excesso de poder intoxicou, e a que não consegue ser corrompida mesmo diante de suas ausências habituais, o reconhecimento e o crescimento. Isso porque Segredo Obscuro mas é um instrumento de gênero de cinema do que está interessado em fornecer espaço para além da autoria de seu realizador. O que vem à tona então é essa sessão homenagem (proposital ou não) a filmes B, como A Mosca da Cabeça Branca. O resultado não surte efeito imediato, mas quando o filme entende que depende desse elementos para causar sua independência, o brilho então vem. 

Segredo Obscuro também mostra, assim como em A Substância, as inverdades produzidas por uma sociedade etarista, principalmente aquela residente em Hollywood. Aqui, o cinema de horror se manifesta de maneira mais sorrateira, quase como um trabalho de investigação, igualmente típico de fitas B de décadas atrás. Minghella não consegue o equilíbrio necessário para fazer essa mistura de ideias funcionar sempre, mas é um filme cuja curiosidade está impressa em sua matriz. Uma produção barata, que reflete tanto de tantos cinemas já feitos, mas que hoje não é mais padronizada, e que por isso só já aguça nosso ímpeto de ainda precisar de propostas que não sigam o padrão vigente. 

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