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‘O Beijo no Asfalto’ renova um marco teatral ao fazer dele um filme noir

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Com tintas expressionistas, capazes de revelar camadas represadas há 65 anos nos diálogos de Nelson Rodrigues (1912-1980), e em suas rubricas, a montagem de 2026 de “O Beijo no Asfalto” é de uma engenhosidade saborosa em sua encenação. A nova montagem é um trabalho quase semiótico o do diretor Marco André Nunes na escavação dos signos rodriguianos. De cara, vemos a contribuição de mostrar que uma trama calcada na má interpretação da empatia foi precursora na discussão da “cultura do cancelamento”, um dos mais hediondos crimes (embora disfarçado de justiçamento) que o século XXI consagrou.  Saiba mais sobre a peça!

Para além desse “flagrante” histórico, a forma como Nunes encena, em comunhão com o (instigante) desenho de luz de Renato Machado e a cenografia (avessa a obviedades) de Aurora dos Campos, expõe a natureza noir de Nelson. Embora o termo costume ser associado aos policiais americanos dos anos 1940 (na prosa e no cinema), as origens desse filão policial são mais antigas do que Hollywood. O noir não nasceu como gênero. Nasceu visão de mundo.

"O Beijo no Asfalto"

Aliás, é possível rastrear seus primeiros sinais já nas tragédias gregas. Em Sófocles, em Ésquilo e em Eurípides já estavam presentes personagens esmagados por forças que não compreendiam plenamente, vítimas de paixões destrutivas, erros morais, destinos inevitáveis e sobretudo a ambiguidade, que podia cair na conta da vaidade dos deuses ou oráculos e podia ser atribuída a mortais de verve heroica. 

Existe devir mais Mickey Rourke, em “Coração Satânico” (horror noir de Alan Parker), do que a de Édipo, perseguindo uma verdade que acabará por destruí-lo? A sina do Senhor de Tebas, o Humphrey Bogart dos gregos que derrotou a Esfinge na lábia, possui mais afinidades com os futuros detetives do noir do que muitos investigadores modernos.

“O Beijo no Asfalto” foi foi encomendada por Fernanda Montenegro para o histórico Teatro dos Sete.

A literatura do século XIX aprofundou essa herança. O romance gótico trouxe atmosferas de decadência, medo e fatalidade. Edgar Allan Poe acrescentou o fascínio pelo crime e pela psicologia do criminoso. Mais tarde, autores como Émile Zola, Fiódor Dostoiévski e (numa certa medida) Eça de Queiroz (com “O Mandarim” e “O Crime do Padre Amaro”) mergulharam em universos onde culpa, obsessão e degradação moral se tornavam motores dramáticos. O eixo de todos: a dualidade de caráter. Esse é o pavimento da Comédia Humana rodriguiana, de “A Mulher Sem Pecado” (1941) até “A Serpente” (1978). 

Mas o nascimento efetivo do noir moderno ocorreu nas páginas da chamada literatura hard-boiled americana. Durante a Grande Depressão, a partir de 1929, escritores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain abandonaram os mistérios elegantes do romance policial clássico para retratar cidades corrompidas, investigadores desencantados e personagens aprisionados em dilemas morais sem solução. Foi essa matéria-prima literária que alimentou Hollywood e, na sequência, séries de TV, de “Os Intocáveis” (com Robert Stack) a “True Detective”, da HBO Max.

O teatro lambuzou-se do noir com “Chaga de Fogo” (“Dective Story”), de Sidney Kingsley, e no patrimônio ficcional de Nelson. Do pré “Twin Peaks” que “Valsa n°6” (1951) é, na autopsia de um assassinato, até a sanha defloradora do Ladrão Boliviano de “Toda Nudez Será Castigada” (1965), a atmosfera do nosso mais celebrado dramaturgo é a da torpeza que segue o desejo.

O Arandir de “O Beijo no Asfalto” (1960) cai numa ciranda torpe ao expandir a fome de um jornalista de ética xexelenta, Amado Ribeiro, por escândalo. Para vender exemplares de “A Última Hora”, esse abutre da mídia transforma um gesto empático e caridoso do rapaz (dar a um atropelado moribundo seu último prazer: uma bitoca) num atentado sexual à moral. Daí, a vida do sujeito vai pelo ralo, uma vez que ele é cancelado. Cancelar alguém é tirar do indivíduo o direito a emprego, o direito à dignidade, o direito à paz. 

O enfoque que Nunes dá a essa podridão em metástase assume, certamente, um estilo de filme noir, entre Fritz Lang e John Huston. Não por acaso, seu Amado Ribeiro, na estonteante interpretação de André Mattos, vira um Peter Lorre, da mesma forma como o delegado Cunha, na atuação de Ernani Moraes, parece o Sterling Hayden de “O Grande Golpe” (1956). Aprígio, sogro de Arandir, vivido por um Edson Celulari em estado de graça, gravita entre o Edward G. Robinson de “O Homem Que Nunca Pecou” (1932) e o James Gandolfini de “O Homem Que Não Estava Lá” (2001), dos Coen. É elegância e culpa numa subjetividade só, onde sua erupção em cena é devastadora.     

Já o Arandir de um Eduardo Sterblitch parecido com o William Hurt de “Corpos Ardentes” (1981) é cercado por mulheres que amam com ardor o sonho de uma felicidade burguesa: Selminha (Luísa Arraes, em firme desempenho) e sua irmã Dália (Nina Tomsic, numa combinação sábia de ingenuidade e lascívia). Além disso, destaca-se ainda a figura da viúva, confiada uma Laura de Castro em modo Lauren Bacall, que toca, canta e amplia o mistério de uma releitura impecável de um marco de nossos palcos. 

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