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Honestino: Aurélio Michiles mistura documentário e ficção em filme sobre o estudante de Geologia da UnB e militante político

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Vocês talvez nunca tenham ouvido falar dele. E eu não os censuro por isso. Honestino Guimarães, que dá nome ao documentário Honestino, é nome de uma ponte em Brasília, batiza o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) e, para aqueles que conviveram mais de perto com ele, como o diretor Aurélio Michiles, tornou-se um símbolo da resistência à ditadura militar. O fato de muita gente nunca ter ouvido falar em Honestino não diminui de jeito algum sua importância. Pelo contrário. Talvez seja justamente essa uma das razões que tornam este filme necessário.

Misturando documentário e ficção, Aurélio Michiles conta principalmente os últimos anos da vida de Honestino Guimarães, estudante de Geologia da UnB e militante político que desapareceu em 1973, aos 26 anos, para nunca mais ser visto. Nascido no interior de Goiás, mudou-se ainda jovem para Brasília quando a família acompanhou o crescimento da nova capital. Foi ali que construiu sua trajetória política, sempre por meio da militância estudantil, das palavras e das manifestações, e nunca das armas. Mais tarde, já afastado da luta direta por causa da perseguição da ditadura e preocupado com a segurança da mulher e da filha, preparava-se para deixar o país, como tantos outros brasileiros fizeram naquele período. Não teve tempo.

Em Honestino, o olhar de Aurélio Michiles é inevitavelmente carinhoso. E não poderia ser diferente. O diretor conviveu com o protagonista e deixa isso transparecer durante todo o filme. Esse afeto aparece também nos depoimentos reunidos ao longo da narrativa. A filha Juliana, que guarda poucas lembranças do pai, a ex-esposa e diversos antigos companheiros de faculdade e de militância ajudam a reconstruir a trajetória de um homem que desapareceu durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira. São testemunhos que dão peso ao filme e ajudam a entender quem era Honestino para além da figura política.

Aurélio Michiles, no entanto, poderia ter seguido um caminho um tanto quanto mais convencional, como tantos documentaristas fazem ao recorrer apenas a imagens de arquivo e entrevistas. Não haveria problema algum nisso. Seria uma opção legítima e bastante utilizada em filmes sobre a ditadura, tradição que teve no saudoso Silvio Tendler, autor de Jango (1984), um de seus maiores representantes. Mas o diretor preferiu ousar. Para isso, convocou Bruno Gagliasso. 

O ator, que em Marighella (2021) interpretou um personagem inspirado no delegado e torturador Sérgio Paranhos Fleury, demonstra toda a sua capacidade de viver personagens completamente diferentes dentro do mesmo universo histórico. Em Honestino, ele entra em ação nas sequências dramatizadas, e essa escolha se mostra bastante acertada. A câmera acompanha um homem sempre tenso, desconfiado, vivendo sob constante ameaça. Curiosamente, os depoimentos descrevem o protagonista como uma pessoa alegre, sedutora e apaixonada pela vida. O filme opta por mostrar justamente a fase em que essa leveza já havia sido substituída pela necessidade de sobreviver.

No fim das contas, é, certamente, um filme importante. Não apenas por contar a história de um personagem pouco conhecido do grande público, mas porque ajuda a manter viva a memória de um período que ainda hoje desperta debates e interpretações diferentes. Quem viveu aqueles 21 anos da ditadura guarda suas próprias lembranças. Uns sofreram na pele, outros acompanharam tudo de mais longe. Já quem nasceu depois precisa conhecer essa história para entender o país em que vive e para lembrar que a democracia nunca deve ser tratada como algo garantido para sempre.

Talvez por isso eu diga que Honestino é, acima de tudo, uma obra honesta. Perdoem o trocadilho, foi impossível fugir dele. Contudo, o filme talvez pudesse emocionar mais. Em alguns momentos, senti falta de um impacto emocional maior. Tenho a impressão de que essa emoção atinge em cheio aqueles que conheceram Honestino ou conviveram com ele. Para quem, como eu, não viveu essa história de perto, o impacto acaba sendo mais histórico do que sentimental. Ainda assim, trata-se de um filme necessário, que cumpre bem o papel de preservar a memória de um período que jamais deve ser esquecido.

Desliguem os celulares e boa diversão. 

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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