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No Limite da Justiça aborda o crime de ódio no Mississipi dos anos 1960

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Entrei para assistir No Limite da Justiça do meu jeito preferido: sem saber nada do que ia assistir. Sem sinopse, sem trailer, sem referências além do cartaz na entrada. Isso geralmente promove excelentes experiências, e dessa vez isso foi potencializado pelo que a própria obra promove. Apesar do título em português genérico, ele também é acertado em seu tom e tentativa de investigar um outro tempo de (in)compreensão do mundo. A maior surpresa, no entanto, tem a ver com a condução a respeito do que é contado; filmes sobre a luta contra o racismo em tempos de horror sobram nas prateleiras. Mas o encantamento que o filme promove está sobretudo nas imagens que são promovidas pela estreia; elas provocam nossos sentidos em busca de uma saída para a sofisticação apresentada diante das possibilidades que poderiam sugerir engessamento. 

Elegance Bratton é um nome novo na indústria. Muitos curtas e apenas um longa, o recente A Inspeção (que, infelizmente, não chegou aos cinemas daqui), que mostrou seu talento para conduzir histórias onde o melodrama é substituído na condução estética, mas que ainda apresenta suas diretrizes narrativas, por baixo das engrenagens. Mas se a argamassa contendo os eventos reais que o filme precisa obedecer sugerem uma estética cômoda de alguma maneira, Bratton volta a mostrar porque chamou atenção em sua estreia. Com os créditos vindo apenas no encerramento da produção, a expectativa em torno de descobrir quem concebeu tamanha energia é inevitável. No Limite da Justiça não condensa o que tem de febril em seu ânimo, mas tenta carregar o espectador para junto dessas imagens que performam frenesi. 

É a câmera hipnótica de Bratton quem configura o que o espectador virá a sentir gradualmente, nos envolvendo em uma atmosfera de pesadelo crescente e cada vez mais próximo, de maneira tátil. É possível sentir o cheiro do sangue que exala das feridas que os personagens provocam, porque estamos próximos demais e os sentidos acabam envolvidos no jogo de sensações. Estamos no calor dos eventos que o filme sugere, sempre em um ponto de vista muito atravessado; é uma lente que observa sorrateiramente uma festa através do jardim de uma casa, de maneira invasora. Estamos invadindo os espaços junto com os personagens, por trás de um tiroteio, durante uma perseguição exasperante, em incêndios bruxuleantes de resultados trágicos. Está tudo ao alcance do toque, tendo também aroma e sabor.

Bratton carrega também para dentro de No Limite da Justiça um certo exercício de imprevisibilidade, tanto estética quanto narrativa. Não tem a ver necessariamente com a condução dos fatos, mas com a maneira inesperada com o qual as coisas se sucedem, em um olhar quase surpreendente para o que se filma. Um exemplo disso são as constantes perseguições, que nunca terminam como se imagina, indo de uma briga no meio da estrada, até o desaparecimento em um beco. Não há tal ideia de amarração coerente, porque seus protagonistas agem em um esquema de rompantes, o que talvez acabe vestindo também o próprio filme. Ainda que a época explorada sejam os anos 60, tem uma inspiração ali em títulos como Operação França Bullitt, em diálogo com o nervosismo que a Nova Hollywood empregou formatou como definidor de costumes.

Essa manutenção do rigor dessas imagens, de conseguir essa explosão visual que converse com uma tensão palpável do tempo, das circunstâncias e da gravidade do que é mostrado, também contribui com a adição de um elenco que se coloca de maneira a vivenciar por todo o corpo essas motivações. Capitaneados por Yahya Abdul-Mateen II (grande ator de filmes como Os 7 de Chicago) e um Mark Wahlberg que parecia esquecido do ator que era desde O VencedorNo Limite da Justiça é uma experiência que não se imaginava. E isso não quer dizer que suas tessituras narrativas não impressionem – ou, em linguagem batido, importem – mas que seu diretor está interessado em contar sua história da maneira mais indomável quanto possível. Isso significa algo como o embate entre os protagonistas após uma briga dentro de um carro, que escala para fora do mesmo e termina com um close de Wahlberg absolutamente imerso no que acabou de realizar. Nervoso, compenetrado e seguindo protocolos de naturalismo que saltam da tela, e que não são comuns em produções desse porte. 

Esse momento é também capturada para Abdul-Mateen em seu plano final, onde muitos contextos estão em comunicação: emoção, ódio, sensação de impunidade unida a algo tão grave quanto o “olho por olho, dente por dente”. É raro vermos algo tão profundo saído de uma produção que, aparentemente, busca comunicação com o público de maneira direta, e pouco além. No meio da massa hollywoodiana, vez por outra salta algo como a visão de mundo e de cinema de uma figura ímpar como Elegance Bratton, que conta histórias onde a virulência não se encerra no que é feito, e sim se embrenha no vortex do espectador pela pujança do que é alcançado. São momentos como os que No Limite da Justiça proporciona, que nos fazem ir além das linhas naturais de uma sessão de cinema, para observar a vontade clara de um realizador em transcender sua duração. 

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