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Feito Pipa: Allan Deberton faz retrato singelo e delicado sobre a conexão humana

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O cinema de Allan Deberton nos encanta há mais de uma década, quando curtas como Doce de Côco encantaram as plateias de festivais. Sua estreia na direção de longas, o premiado Pacarrete, um dos mais interessantes filmes da década passada, mostrou uma parte mínima do cineasta que ele buscaria ser. Alimentando uma voz autoral ao mesmo tempo em que cultiva a vontade de comunicação popular que vem crescendo a cada novo projeto, um título como Feito Pipa encanta por esse nobre hibridismo. O diretor não quer abrir mão de muitas verdades que em algum outro autor poderia encontrar resistência; com ele, as necessidades se acoplam e montam um quadro de delicadeza e respeito pelo que se filma, essa sendo a visão primordial de sua filmografia. 

Existe uma profunda admiração de Deberton para com os personagens que filma, e o julgamento que eventualmente ele filma acaba sendo um ponto de análise do olhar alheio, e não da obra per se. Assim como em seus títulos anteriores, Feito Pipa nos carrega para uma jornada de autoconhecimento de alguém que apenas quer ser feliz, mas que esbarra no jugo alheio e que em nada deveria estar disposto a debate. Todos nós temos um pouco de Gugu; eu mesmo, fui exatamente como ele em muitos aspectos – infelizmente, nunca consegui aprender a jogar futebol, esporte no qual nosso protagonista é craque. Mas além das suas escolhas próprias e que montam uma personalidade muito rica, Gugu é questionado justamente por não ser compreendido e aparentar contradição em suas decisões. 

Ora, porque um menino consegue ser um craque com a bola nos pés, mas também ser vaidoso, afeminado e se agarrar a uma quantidade de brilho maior do que consegue suportar? Simplesmente porque isso tudo é escolha exclusiva de Gugu, e isso deveria ser suficiente para qualquer outro ser humano, respeitar o alheio e suas prioridades. Mas o protagonista de Feito Pipa, assim como o seu autor, não se interessa pelo fácil, ou modesto. Gugu quer tudo que lhe for permitido, e o que não for também; Deberton é um cineasta cuja característica comunicativa o libera para avançar suas lentes para dentro de um estudo de personagem infanto-juvenil que rejeita o comodismo, em si e na sociedade. Como bom revolucionário, sua aventura maior é quebrar paradigmas e mover a discussão para um lado novo. 

O cineasta que filmou um musical queer com O Melhor Amigo é encantado por quem criou, e filma Gugu, sua avó Dilma, e mesmo seu pai e o pretendente da avó com iguais interesses, com o desejo de nos carregar para dentro da complexidade que se apresenta. Apesar da leveza diante de temas sérios como o bullying, a alienação parental e as dificuldades práticas da terceira idade, Feito Pipa não escolhe filtrar sua narrativa dos óbvios problemas por trás da beleza da fotografia de Luciana Baseggio (a mulher do momento). Ele apenas os trata com a mesma doçura com que os problemas são abordados, e precisam ser solucionados de uma forma outra – existe o pragmatismo e existe o sonho. A que lado atender?

Como é habitual em sua obra, Deberton acoplou ao seu filme um quarteto poderoso de feitos. A revelação Yuri Gomes revela muitas camadas na nuances de seu Gugu e Carlos Francisco surpreende como um sopro de luz no filme. A performance contida de Lázaro Ramos chama a atenção para sua versatilidade, porque o ator geralmente é associado a grandes elementos cênicos (esquecem de O Homem que Copiava); aqui, Ramos emprega toda a sua experiência a um homem machista que nunca pode ser resumido somente a isso. A beleza que une todas essas peças, no entanto, atende pelo nome de Teca Pereira, que aos 74 anos encontra o papel de uma vida. Como a avó de Gugu, a atriz puxa todos os olhares para si, enquanto desfila pela tela uma figura que recusa a fragilidade apregoada a terceira idade. E por isso mesmo, um de seus atos seja tão verdadeiro e dilacerante. 

Feito Pipa é o nosso representante ao Oscar 2027 na vaga de filme internacional, e refresca nossas escolhas, após Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Mas o que é real é a vontade da obra concebida por Deberton em manter-se vivo dentro da singeleza pela qual lutou. O sonho de um menino, que aprende a sossegar seus sonhos diante da empatia que precisa cultivar. Como se abríssemos um portal rumo ao afeto, o filme nos convida para essa conexão humana a personagens cheios de vida, e que só lhes interessa a comunicação propriamente. Em um mundo celebrado pela individualidade do silêncio, o filme de Allan Deberton nos permite expor nossas verdades e pagar o preço de ser feliz apesar delas, e/ou agarrado a elas. 

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