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Filme sobre Kardec faz um panorama sobre o Espiritismo

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Ao fazer uma biografia, há alguns caminhos que o autor/diretor pode seguir – existe a estrutura tradicional de ascensão, queda e Redenção, muito comum quando se trata de grandes estrelas; pode-se também destacar os feitos do biografado, em caso de figuras históricas, por exemplo; mas a questão é que uma biografia deve sempre ser um estudo de personagem, afinal: quem era aquela pessoa além da imagem que a deixou famosa? Esta é a pergunta que o longa Kardec tenta responder, ou não.

O longa, dirigido por Wagner de Assis, conta a história de Hipolyte Leon Denizard Rivail – interpretado por Leonardo Medeiros –, um acadêmico francês cético cuja história só começou mesmo aos 50 anos, quando, sob o pseudônimo de Allan Kardec, iniciou a decodificação da doutrina espírita com a publicação da obra “O Livro dos Espíritos”. Aliás, esta é uma história que estava demorando para ser contada, uma vez que ficou de fora do auge das produções kardecistas do começo da década, o qual contou com títulos de sucesso como “Chico Xavier” e “Nosso Lar”.

Assim, a trama começa com um plano que chega a atenção do espectador – um plongée que mostra uma mesa se erguer do chão enquanto as pessoas ao redor dela exibem diversos tipos de reação. Em seguida, a narrativa volta um pouco no tempo, para a época em que Kardec dava aula para crianças – utilizando fundamentos filosóficos e sociológicos – uma escola que começa a sofrer interferência da Igreja Católica devido a uma decisão do governante francês, fato que desagrada o professor a ponto de ele optar pela aposentadoria, limitando-se a dar aulas particulares em casa.

Com isso, Kardec tem mais tempo para prestar mais atenção na nova coqueluche da capital francesa: As Mesas Girantes. À princípio, o homem se mostra absolutamente cético, porém, após muita insistência de dois de seus amigos acadêmicos que estavam estudando o caso, ele concorda em usar as bases da investigação científica para desmentir ou confirmar o fenômeno que vinha lotando shows em toda a Paris de 1852. Basicamente, esta é a trama principal do longa, que ainda permeia outros temas – nem sempre de forma eficaz.

Talvez, o principal problema do roteiro é o excesso de exposição para explicar os preceitos e crenças do espiritismo presentes em cena – de fato, espectadores que não tem conhecimento sobre a doutrina poderiam entender algumas cenas de forma equivocada, no entanto, por vezes, o texto exagera no didatismo. Além disso, ainda há um subdesenvolvimento das personagens coadjuvantes, até mesmo as mais relevantes para a trama, como o General (Christian Baltauss, que já trabalhou com Buñuel e Truffaut), morador de rua que vive nos arredores da casa de Kardec.

Também existem algumas outras personagens que até possuem um desenvolvimento, mas o processo demorou tanto para acontecer que se tornou apressado – é o caso das irmãs Caroline (Jullia Svacinna) e Julie (Letícia Braga), jovens médiuns que ajudaram Kardec desde o começo e, após a publicação do “Livro dos Espíritos” e do repúdio da Igreja, sofrem uma espécie de Caça às Bruxas. Por outro lado, há boas personagens além do protagonista, como o Padre Boutin (Genésio de Barros), que é a personificação do Clero e pode ser visto como o principal antagonista.

Outro caso é Amélie Gabrielle (Sandra Corveloni), esposa de Kardec, que consegue ter um desenvolvimento – mesmo que pequeno – além do papel de “A Esposa” – a personagem é a principal parceira e apoiadora do marido e assume uma posição ativa em alguns momentos. Além disso, Sandra e Leonardo têm muita química em cena – apesar de, em algumas cenas, eles parecerem muito mais parceiros de trabalho do que um casal. Mas, mesmo assim, a dupla funciona muito bem – um exemplo disso é a cena do jantar em que os dois se comunicam apenas batendo os talheres na louça, em alusão à comunicação com os espíritos.
O elenco ainda conta com outros nomes conhecidos, como Julia Konrad, Guida Vianna e Louise D’Tuani interpretando as médiuns Ruth-Celine, Madame de Plainemaison e Ermance Dufaux, respectivamente, além de Dalton Vigh e Guilherme Piva, nos papéis de Sr. Dufaux e Didier, que ajudaram o professor de forma prática. Todos estão operantes em suas personagens, mas sem grande desenvolvimento e isso se deve ao roteiro – escrito pelo próprio Wagner de Assis em parceria com L.G. Bayão – que não se aprofunda muito na temática, preferindo apresentar um panorama.

Com isso, alguns pontos da trama – principalmente no segundo ato – parecem um pouco apressados, sem ligar os acontecimentos – o filme se passa ao longo da década de 1850 – como poderia, dando a impressão de que se trata apenas de um apanhado de fatos que levaram à criação do Kardecismo. Como consequência, quem se sai melhor com o material dado é Leonardo Medeiros, que está irretocável no arco da personagem, que começa como um acadêmico cético é termina como a figura que dá nome à uma doutrina religiosa – de longe, a melhor escolha para o papel, mesmo com o excesso de frases de efeito do texto.

No entanto, apesar das falhas visíveis, o filme está longe de ser ruim – para quem tem interesse em conhecer mais sobre o espiritismo, este é um bom começo. A produção ainda apresenta um excelente design de produção que reproduz a Paris da segunda metade do século XIX – a partir do segundo ato, o CGI se torna um pouco artificial (e estes momentos poderiam ter sido evitados não fosse por alguns vícios da linguagem televisiva), mas isso não chega a atrapalhar a experiência do público, uma vez que os planos abertos e panorâmicos são muito bem realizados. Assim, “Kardec” é uma ida ao cinema válida e até divertida – seja pela temática, seja pelos momentos cômicos eficientes –, mesmo que não se aprofunde muito no tema e apresente uma linha narrativa um pouco irregular, o que passa a sensação de que trama e temáticas não foram muito bem distribuídas nos 110 minutos do filme.

 

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