ceuÀs vezes experienciamos coisas em nossas vidas como se outra pessoa as estivesse vivendo e fossemos meros expectadores, observando sem sentir, sem entender. Um desprender-se que se assemelha a uma despersonalização, como se víssemos de longe algo que acontece com outra pessoa que, não nós mesmos, há um distanciamento de si próprio. Quando até os sentidos estão dilacerados, assim, em recortes, em pedaços, em ausência, em dor nos deparamos com o estupro de Diana (Carolina Dieckman). Ao expectador só resta o olhar e o silêncio que parecem mimetizar os acontecimentos na tela, e assim somos apresentados a Mario (Leonardo Sbaraglia). Mário e o medo. Ele tem medo de tudo, desses que paralisa, tanto que não consegue reagir ao se deparar com a cena da violência sofrida por Diana. E quando por fim consegue decidir por se mover e, embora, tente em vão alcançar os agressores, seu medo o impede de fazer o que para muitos seria a única atitude possível, reagir. A imagem de Mário segurando o vaso de cactos, sem se permitir emitir nenhum som, para não ser descoberto, mesmo quando os espinhos adentram de forma dolorosa sua pele, conversa diretamente com as questões do personagem na trama. “tenho espinhos porque tenho medo”.

A relação entre Mario e Diana se descortina por trás desse medo, que tem raízes profundas na relação dos dois. Diana possui um olhar capaz de enxergá-lo como nenhuma outra pessoa e essa condição que tanto o fascina acaba fazendo com que ele se sinta frágil diante dela. Mario, roteirista, cria para si um personagem que lhe serve de refúgio e fortaleza contra a fragilidade que sente perante Diana e sua habilidade para ver além das máscaras e dos personagens criados por ele. Essa fragilidade que o denuncia diante dos olhos dela faz com que ele busque nela falhas que alimentem sua segurança. Percebemos então que os problemas entre eles antecedem em muito o momento em questão. Todas essas nuances do relacionamento vão saindo das sombras a medida que o céu vai se transformando e a história ganhando novas camadas em um roteiro que faz uso da metalinguagem de maneira muito competente e é repleto de dicotomias e detalhes muito bem construídos e inseridos na narrativa que fazem do roteiro uma obra-prima.

Leonardo Sbaraglia impressiona pela capacidade de atuar muitas vezes somente com os olhos. Um personagem complexo que sofre transformações profundas ao longo da trama e pode-se perceber, praticamente tudo, através do seu olhar. Do inseguro e medroso Mario escondido no jardim ao homem que dedica suas horas a reparar a ausência inicial. Oprimido por essa memória, por essa consciência perdida no tempo, Mário vai se transformando em si mesmo, a medida que tenta desconstruir o personagem que lhe serve de escudo, numa transição que beira a loucura, iniciada pela paranoia gerada pela incapacidade de entender o porquê de Diana não falar sobre o que aconteceu.

Simone de Beauvoir diz em “O segundo sexo” que toda opressão é um estado de guerra. Essa citação se materializa na história a medida que Mario começa a tentar fazer Diana falar usando de uma espécie de terror psicológico. Fica claro então que a violência sofrida por Diana não acaba quando os estupradores vão embora, mas começa a ser sentida de muitas outras maneiras: a lembrança, o pânico, os pesadelos, a presença de certos detalhes que vamos descobrindo a medida que o enredo se desenvolve.

Segurando todo o peso da personagem, Carolina Dieckman está muito bem e sua atuação é pontual, minimalista na medida certa. Diana existe e resiste por dentro e por fora, e ao olharmos é como se não fizesse nada que pudéssemos ver, mas é como se sobreviver fosse o que mantivesse o universo inteiro e intacto.

Minha única ressalva é a uma fala de Carolina Dieckman, um voice over, em que ela dialoga no imaginário dela com Mario, se questionando sobre alguns acontecimentos da trama. Nesse momento a fala é utilizada para explicar e deixar claras algumas questões que já tinham perpassado pelo filme e dado a entender tudo que precisava ser entendido. Um momento completamente desnecessário. O silêncio tão bem explorado ao longo do filme é cortado pela infeliz necessidade que muitas vezes existe no cinema de se explicar tudo. O desfecho teria acontecido de maneira muito mais interessante, mantendo, inclusive parte do suspense, sem esse momento.

Há um contraste grande entre o realismo da primeira cena e todo o desenrolar do filme. A bruta e clara imagem do início dá lugar ao caos do imaginário, em que o silêncio não é negativo, não é ausência, é o espaço além da representação das palavras em que o inconsciente se revela, em sintomas, em sentido, em ameaça. Essa incômoda insistência do silêncio e do que não é verbalizado cresce juntamente com a tensão a medida que o filme ganha outras formas e os olhares interpretantes dos personagens vão ganhando sombras e junto com a belíssima fotografia se completam na criação de um clima que beira o suspense hitchcokiano.

O filme não é leve em nenhum momento, mas há uma intensificação no peso da história que tende para o suspense. Alias, esse clima de suspense se dá como a formação de uma tempestade em um dia de céu aberto, algumas nuvens vão chegando e depois outras e vão se aglomerando e quando damos conta, o dia se fez noite. Além de um roteiro muito bem construído um outro importante elemento na construção do clima do filme é a trilha que se usa das intervenções sonoras, muitas vezes imperceptíveis no dia-a-dia. Começam naturalmente e vão crescendo e se tornam quase palpáveis em alguns momentos chave, como na incrível cena da vitrine em que o barulho do motor do carro, a fotografia, os olhares, tanto da câmera quanto de Mario, a linguagem corporal de Diana, todos esses elementos se reúnem em um momento de tirar o fôlego; seja pela tensão construída ou pela magistralidade da cena em si. O suspense psicológico é um estilo muito familiar a Marcos Dutra (Quando eu era vivo) e que muito lhe agrada, já tendo em seu trabalho algumas crônicas familiares e sociais com toques de terror, mas é em “O silêncio do Céu” que o diretor chega ao ápice, em um filme com direção excepcional.

Em um país onde uma em cada três pessoas acredita que o estupro é responsabilidade da mulher, seja por seu comportamento, roupa ou o que quer que seja, um filme que aborda esse tema já seria relevante por si só. O Silêncio do céu vai muito além e trata não só os traços físicos, mas, principalmente, emocionais e psicológicos que acompanham a pessoa depois do ocorrido. E, apesar de não focar na vítima exclusivamente, desenvolvendo muito mais o impacto na dinâmica da vida, não só dela, mas da família, de maneira geral e das relações que a cercam, o filme aborda fatos importantes da realidade do estupro no país e no mundo que não devem ser esquecidos: a maioria dos casos se dá em ambientes familiares, na maioria dos casos agressor é conhecido da vítima e apenas 10% dos casos de estupro vão além do silêncio, ou seja pela tensão construída ou pela magistralidade da cena em si. O suspense psicológico é um estilo muito familiar a Marcos Dutra (Quando eu era vivo) e que muito lhe agrada, já tendo em seu trabalho algumas crônicas familiares e sociais com toques de terror, mas é em “O silêncio do Céu” que o diretor chega ao ápice, em um filme com direção excepcional.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here