“Preste muita atenção à tudo que você vir e ouvir, não importa o quanto pareça incomum”

Inspirado no universo da ancestralidade japonesa, repleto de elementos místicos e tradição, assim como a cultura do país, Kubo é um filme que requer muita atenção aos detalhes.

Os contos infantis que permeiam a nossa vida, sejam eles dos irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Charles perrault, em sua grande maioria, tem origem na tradição oral. Essas histórias foram eternizadas nas linhas escritas por esses autores mas datam de muito antes. São de um tempo em que as memórias, tradições e até as diretrizes de comportamento dos povos eram mantidas e passadas para as outras gerações oralmente, através de relatos e lendas. Nessas histórias, muitas vezes, a linha entre a narrativa infantil e o horror era muito tênue, principalmente pela necessidade de alertar para o perigo. Entre outras coisas, o filme aborda lindamente a importância da memória e das tradições e faz isso como nas lendas da ancestralidade, com toques sombrios beirando o terror, para que o “ouvinte” não se esqueça de sua importância.

Em uma linda cena de abertura em que num mar tempestuoso no Japão do século XVII, Kameyo sofre para chegar a praia com Kubo ainda bebê, logo percebemos que ele só possui um olho. A praia fica próxima a uma aldeia onde eles acabam morando. Há uma passagem de tempo e Kubo, agora um menino, mora em uma caverna com sua mãe, que parece nunca ter se recuperado do que quer que os tenha levado àquele destino. A mãe de Kubo passa os dias em estado catatônico enquanto o menino arruma algum sustento contando histórias no vilarejo utilizando papéis numa simbólica inversão. Os papéis não moldam a história, a história molda os papéis que ganham vida magicamente em forma de origamis com as narrações e música do rapaz. Kubo volta pra casa ao anoitecer e encontra sua mãe que com o cair da noite parece minimamente recuperada e agora é ela quem conta as histórias. Histórias sobre o passado e sobre seu pai, mesmo guerreiro que ele retrata em suas narrativas, mantendo viva a memória do grande samurai que morreu para salvá-los de seu avô que pegou um de seus olhos.

A memória da mãe é confusa e frágil e o menino toma muito mais conta dela do que ela dele, e a única coisa que ela pede a ele é que esse não fique fora a noite. Ao dormir suas memorias se materializam em magia dando indícios de que algum segredo mágico está enterrado nas lembranças dela. A história ganha rumos sombrios quando ao tentar se aproximar do pai, participando de um ritual que celebra os que se foram, Kubo se frustra por não obter respostas e acaba ficando fora depois do anoitecer. Ele é perseguido por suas tias, que são uma espécie de bruxas, que querem captura-lo para pegar o seu olho. A mãe de Kubo, uma poderosa feiticeira tenta protegê-lo, mas não resiste, deixando-o sob os cuidados de um amuleto de macaco, que ganha vida. Assim se inicia a Jornada de Kubo em busca da sobrevivência, e da armadura de seu pai, que pode ajuda-lo a derrotar seu avô e suas tias. A jornada é cheia de surpresas e o encontro com um besouro, supostamente um guerreiro amaldiçoado, que garante belíssimos e divertidos momentos ao longa. A relação e os diálogos de Kubo com a macaca são fofos e engraçados adicionando uma leveza e ternura a história que tem algumas nuances bem sombrias. A ausência de recordações volta a aparecer no personagem do besouro que desde que foi amaldiçoado não conseguem lembrar quem é, mais uma vez trazendo ao filme a importância da memória.

O filme é riquíssimo pelo roteiro repleto de símbolismos e significados, que falam sobre memórias e do poder que temos sobre a nossa própria história e a possibilidade de criarmos e construir lembranças e decidir o caminho que vamos seguir. Um filme que fala sobre tradição, a família, sobre enxergar as coisas que são verdadeiramente importantes e as pessoas em nossas vidas. Visualmente riquíssimo, a animação feita peloo estúdio Laika, responsável pelos excelentes Coraline e Boxtrols entre outros, chega a níveis impressionantes com esse novo Longa de animação em Stop-motion. Utilizando bonecos e cenários construídos minuciosamente a mão com muitas particularidades e pormenores, Travis knight assume pela primeira vez a direção e com um excelente time de técnicos e animadores cria um filme com visual estonteante. Kubo tem tantas nuances narrativas e visuais que impressiona. É uma obra de arte e, definitivamente, o melhor filme de animação do ano até o momento, e até ocupando, facilmente, um lugar entre os melhores filmes do ano.

Em cartaz na Mostra Panorama do Cinema Mundial.

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