Até onde vai a capacidade de um fã por um ídolo? O documentário de Paulo César Toledo e Abigail Spinde acompanha um grupo de fãs da cantora Beyoncé que, na esperança de conseguir os melhores lugares para assistir ao show e ver sua musa o mais próximo possível, decide montar um acampamento na frente do estádio do Morumbi. Esse tipo de prática não é incomum entre os mais diversos tipos de fãs. O que chama atenção à esse grupo específico é o tempo. O acampamento que reúne um grupo, segundo eles, de aproximadamente 32 pessoas divididas em uma série de barracas, nas quais se revesam em turnos, passando os dias e as noites, se forma dois meses antes do show. O filme acompanha o grupo ao longo desse tempo e retrata o dia-a-dia desses jovens acompanhando o desenrolar desses muitos momentos que precedem o grande dia.

Quem já acampou ou viajou com um grande grupo, onde nem todos se conheciam, sabe o quão fácil é de se criar um vínculo de intimidade com essas pessoas e em muito pouco tempo se desenvolver uma rotina em que existe uma conexão, forjada pela convivência que faz com que essas pessoas sejam durante aquele tempo como se fossem a nossa família. É como fazer amigos de infância instantaneamente. Nesse cenário somos apresentados a esses jovens fãs e por mais absurda que a ideia de acampar na porta de um show, ainda mais por 2 meses, possa parecer, a medida que o filme se desenrola e vamos conhecendo um pouco mais os indivíduos e as histórias por trás de suas trajetórias, somos capazes de entender muita coisa do que os une e do que os leva até ali. Mais do que um retrato individual, o filme fala sobre uma unidade, mas como nicho, como um grupo que se identifica e divide muitas das mesmas questões.

São jovens em sua avassaladora maioria homossexuais, fato que é questionado pelo próprio grupo em um dos muitos diálogo divertidos e surpreendentes que perpassam pelo filme ” Porque a maioria dos fãs da Beyonce é tudo viado?”, mas que a própria narrativa do documentário responde, a medida que entra na intimidade e nas questões dos integrantes do grupo. A família, a sociedade, o medo, o preconceito, a sexualidade. Ser homossexual no nosso país, definitivamente não é fácil e todas essas questões, que são abordadas em algum momento no filme, tem que ser encaradas por essas pessoas desde muito cedo e, em sua grande maioria, da maneira mais difícil, envolvendo muito sofrimento e solidão. A música, segundo um dos jovens do grupo, é um espaço de liberdade. Ser fã da Beyoncé, dançar, ouvir as músicas, pra ele era o lugar da aceitação em que ele podia ser ele mesmo, trancado no quarto sozinho e escondido podia colocar pra fora tudo que estava confinado publicamente. É possível ter um vislumbre das dificuldades enfrentadas por eles quando em um momento ao longo do tempo em que ficaram acampados são obrigados a coexistir com um jogo de futebol, repleto de homens em sua maioria heteros. O futebol tem uma tradição de violência muito grande nos estados paulistanos, por si só, acrescente a isso os enormes números da violência homofóbica do país. A decisão de se afastar, os olhares temerários, o medo nítido deixam claro que apesar do clima de risadas constantes, dos tons exagerados e bem humorados, a vida não é nada fácil.

São muitas questões citadas, como o preconceito que existe dentro do próprio grupo principalmente o racial. A dificuldade de lidar com a família, como as interações dentro de casa as vezes são superficiais e repletas de mágoas e histórias difíceis de abandono e aceitação.O filme é como uma grande colcha retalhos há muitos bons momentos e conversas interessantes e é possível perceber que uma vasta quantidade de material foi captado. Mas falta algo que costure essas ideias de forma mais clara. O filme peca exatamente pelo excesso de temáticas, que apesar de ricas e cheias de possibilidades, acabam não chegando a lugar nenhum, pois são pouco exploradas, o que deixa tudo meio que perdido. O filme não segue uma linha narrativa que seja produtiva em termos de conteúdo e acaba desperdiçando ótimas oportunidades de explorar mais profundamente alguns assuntos. O documentário aborda questões pesadas fazendo uso do próprio olhar homossexual. Eles são os protagonistas, então é através do seu linguajar específico, que os identifica como grupo, da “liberdade” quando juntos de se expressar corporalmente, através da dança, da maneira que se relacionam entre si, com o conforto que temos entre os que consideramos iguais. É assim que a narrativa se desenvolve, deixando o filme leve e divertido na maior parte do tempo. Esse é o grande acerto do documentário, dar aos que não pertencem a esse universo essa possibilidade de estar onde normalmente não estaríamos, é como espiar pela janela do vizinho, ou ser aquela mosquinha que temos vontade de ser às vezes para poder saber o que acontece nos mundos que vão além do nosso. E, para os que pertencem a chance de ter um espaço de representatividade e reconhecimento.

Em cartaz na Mostra: Première Brasil: Competição longa documentário.

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