cancao-de-voltaUm dia, Eduardo (João Miguel) chega em casa e descobre que Julia (Marina Person), sua mulher, tentou cometer suicídio. Ela deixou o marido e dois filhos sem dizer adeus. Depois de um tempo, ela volta pra casa. Ele tenta de tudo para mantê-la bem, mas a impossibilidade de conhecê-la completamente o aflige. A sombra do suicídio e o inevitável fantasma de uma nova oportunidade paira sobre suas cabeças. Eduardo insiste em compreender a mulher, mas o crescente ciúme e a inesperada descoberta do seu passado o tortura. Ele não percebe que, na maior parte do tempo, a busca por controle se torna uma obsessão.

Eduardo (bem longe de ser a melhor atuação de João Miguel) é um apresentador de programa sobre literatura, no qual entrevista escritores (o que quase me lembra o Georges Laurent de Caché). Eduardo é um homem que tem por profissão propor questionamentos, fazer perguntas e, em casa, encontra, cada vez menos, respostas satisfatórias.

No primeiro longa de ficção de Gustavo Rosa de Moura, se destaca a desconstrução de um parceiro aparentemente equilibrado que parecia contrabalancear as perturbações de Julia. Com um clima de tensão crescente, a fotografia barroca realça o tom dos extremos – claro/escuro, masculino/feminino, eu/outro – fazendo realçar também, com poucos pudores, aquilo que se pode chamar a loucura de cada um. No entanto, uma “loucura” ainda tratada como tabu pode parecer menos grave quando Eduardo se desespera e tenta ajudar Julia: não é a si próprio que ele quer salvar, salvando-a?

É preciso dizer ainda que de típico esse casal não tem nada: um casal de classe média alta numa São Paulo excessivamente escura e barulhenta, um casal culto, do mundo da arte, ou, pelo menos, alternative cult. O apartamento é o cenário principal e, nele, além de uma desestruturada “família margarina”, os quartos, as portas fechadas e outros elementos como as várias caixas de Julia representam o lugar inalcançável dos segredos.

Creio que Gustavo Rosa de Moura não teria conseguido um bom resultado sem a reveladora atuação de Marina Person, que escapa com brilho de leituras redutoras capazes de ver nela uma frágil refém da sua condição ou destruidora de lares (que me fez lembrar, por exemplo, do italiano Estamos bem mesmo sem você). A Julia de Marina é, a um só tempo, minimalista e explosiva.

Canção da Volta não é exatamente o retrato de um maníaco por controle que não aceita a condição natural de acesso total ao outro, mas o negativo (como numa foto) de um homem que se vê impotente diante da depressão da mulher e que, em momentos extremos, tem atitudes abusivas, que vão da invasão de objetos pessoais à agressão física. Apesar de o diretor escolher, a priori, uma perspectiva, a de Eduardo, e isso parecer, em alguns momentos, prejudicar a visão mais ampla que se poderia ter do filme, na verdade, ele joga com visões pré-concebidas: quem, afinal, é o louco da casa? Eduardo entra numa espiral destrutiva, Julia volta a dançar. Mais do que fazer de conta que não saiu, como diz a música eternizada na voz de Dolores Duran, é preciso botar tudo na balança, como diz “Mora na filosofia”, durante um final aberto, e talvez libertador.

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