Em agosto de 1715, Luís XIV – o rei absolutista da França e Navarra, também conhecido como rei-sol – começa a sentir fortes dores numa perna. Apesar de continuar a exercer as funções de governante, o seu estado de saúde agrava-se rapidamente. Cada dia mais fraco, vê-se rodeado por membros da corte e médicos, que se esforçam por encontrar um meio de curá-lo. Depois de semanas agonizantes, acaba por morrer. Termina assim um reinado de 72 anos, um dos mais longos da monarquia europeia. Com a morte do rei-sol, é o seu bisneto Luís XV, de apenas cinco anos, quem herda a coroa francesa.

Com uma fotografia barroca, dirigido pelo catalão Albert Serra (História da minha morte), estrelado por Jean-Pierre Léaud (ator fetiche da nouvelle vague, homenageado com a Palma de Honra na edição de 2016 do Festival de Cannes), A morte de Luis XIV é uma co-produção entre França, Alemanha e Portugal. Além de fazer parte de uma carreira de criação audiovisual para o circuito da arte, o quinto longa de Albert Serra é um réquiem sobre a durabilidade paradoxalmente num filme sobre a morte. Este trabalho conceitual nasceu como potencial instalação com elementos performáticos para o Centro Georges Pompidou (Paris) que não se concretizou por questões logísticas e acabou se transformando num filme que gera o mesmo tipo de perguntas provocadoras.

Por que Jean-Pierre Léaud interpreta Luís XIV (em agonia)? Que relação pode haver entre Antoine Doinel (personagem criado por François Truffaut, que aparece em cinco dos seus longas, sempre interpretado por Léaud) e Luís XIV? Dentre tantas outras, a minha: o que significa ao público brasileiro, hoje, assistir ao crepúsculo do rei-sol – um velho decrépito de peruca que, enquanto assiste impotente ao rápido avanço da sua gangrena, pede água, mas só bebe se for em copo de cristal, ao mesmo tempo em que é bajulado por um séquito mais preocupado em confabular e agregar culpa a um certo médico cujo remédio milagroso não curou o rei?

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