Um arco e uma flecha. De um lado uma pessoa segura o arco, na outra ponta, outra pessoa segura a flecha. Os objetos possuem o peso de seus corpos, a flecha está direcionada para o coração de um deles. A necessidade de se manter o equilíbrio para que nenhum dos dois seja ferido. A dimensão de que o sustentar o outro, que parece simples nos primeiros instantes, vai ganhando outro peso e se tornando cada vez mais difícil com o passar do tempo.

A instigante obra de Marina Abramovic, Rest Energy, inspirou Julia Murat na construção da história dessas duas pessoas, desse relacionamento. Uma performance que pode ser lida como uma intensa simbologia ao amor. Esse colocar de força e confiança no outro, que vai segurar em suas mãos, assim como você, o poder de ferir.

Esse equilíbrio que mantém o movimento ou o não movimento, que são os relacionamentos ou aquilo que buscamos neles. Esse pêndulo que faz da vida a dois uma espécie de jogo, em que tentamos nos equilibrar, entre espaço e tempo, passado, presente, futuro, o concreto e o abstrato, a intimidade e a privacidade, o emocional e o físico.
Uma linha divide o espaço. Assim somos apresentados ao casal, nesse começo de relacionamento em que vão morar juntos. Essa mudança é marcada, desde o início, pela delimitação do que é do outro. E esse espaço acaba sendo um terceiro protagonista.

2 artistas. A escultura e a dança, flertando um com o outro, mas sem se misturarem fisicamente. No filme, Roteiro, dança e esculturas, conversam entre si e se influenciam, ainda que aparentemente de forma discreta. É possível perceber, à medida que o filme avança, como essas artes vão se influenciando. As esculturas concretas, pesadas e de materiais duros e rígidos que se apoiam e se equilibram vão dando lugar a materiais mais leves e com maior senso de movimento. A dança que absorve os elementos da dinâmica do casal, dessa briga de forças entre dois corpos ocupando o mesmo espaço.

A direção é muito precisa e cuidadosa ao colocar em cada quadro, em cada sequência, elementos carregados de simbolismos que transmitem essa ideia de equilíbrio, de pêndulo. Um roteiro e uma direção muito eficientes que privilegiam a construção da história pela composição da imagem e do movimento.

Um filme de poucos diálogos, mas sempre carregados de muitos significados. O silêncio tem papel fundamental ao contar essa história e está contrapondo diretamente com a escolha por quadros muito próximos, carregados de intimidade física. A intensidade do prazer, do toque, na hora que esses corpos que essas vidas colidem, mas a frieza do silêncio e da ausência, em que fica nítida a falta de intimidade emocional e distanciamento pelo qual passam. A proximidade que é claustrofóbica se contraponto com a grandeza do espaço e do silencio.

O cinema se faz muito nessa noção de dar resposta e explicar, mas pendular, acertadamente, não nos diz muita coisa. A sensação que temos é que sabemos deles tanto quanto eles sabem um do outro. O que acessamos como público é o mesmo que os personagens acessam. Uma narrativa que fala muito através dessas ausências e deixa essa sensação de abismo e busca por completar esses vazios. Ainda que mergulhados em intimidades e proximidade físicas, muitas vezes nada sabemos do outro.

Pendular é um belíssimo filme, cheio de linguagens diferentes, carregando mensagens nos detalhes. Cada cena é rica na sua construção e precisa nas mensagens que transmitem. Um filme de arte, desses que conversa, diferentemente, com cada pessoa e suas referências, desses que tem tantos símbolos que dificilmente serão absorvidos todos de uma vez, desses que carregamos e remoemos tempo após termos saído da sala do cinema e nos faz pensar nos nossos afetos e como nos relacionamos com a intimidade e com esses nossos silêncios.

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