Parece realmente que o que estamos presenciando, sejam obras que nasceram do espanto com a realidade humana, onde a ética e o caráter definem o destino, e os serial killers possuem rostos encontrados em qualquer esquina do mundo real. Com uma pegada Black Mirror’, a situação hipotética que nos testa em Esta é a sua morte, é basicamente a de um reality show que se satisfaz com o suicídio alheio. Josh Duhamel é Adam Rogers, um apresentador de reality shows, caricato, muito bem apessoado, com toda a postura clássica que vemos em quem detém a retórica, aparece de terno e com o sorriso no rosto pra família tradicional que o assiste. A trama do filme é iniciada após um crime cometido ao vivo, por uma participante de um reality show completamente aterrorizada por não ter sido escolhida, e de arma na mão. Após o breve (brevíssimo) tempo de luto, e suas devidas repercussões, a ideia ambiciosa de Ilana katz (Famke Janssen) é comum: se valer uma situação de crise para ganhar notoriedade.

Em torno de um suicídio ao vivo e sem censura, as imagens circulantes pela internet e canais de TV, levaram à conclusão de que o melhor seria criar um reality show, onde o show seria o suicídio. O programa vai ao ar com a aposta de obter a maior audiência da televisão, então perante reações de aplausos, parabenizações, aumento do índice de espectadores e dos participantes, o show de horrores está montado num espetáculo televisivo para a classe média sentada no sofá de casa, que assiste com desejo as mortes. Ao encontrarem uma brecha na lei, sem se importarem com seus empregos futuros, e muito menos com a história dos participantes que trocam suas vidas por doações em dinheiro, Adam consegue se convencer de que está fazendo algo bom para a sociedade.

Com uma pegada de crítica social, e uma alfinetada à falta de empatia humana, o filme não possui uma tensão do início ao fim, nem um suspense que evolui. O ponto forte está justamente na relação das reações, onde a banalização da vida humana em prol de entretenimento não é tratado como drama, justamente pela naturalização dessas relações, algo que é sintomático nos dias atuais, e por isso o tema vem à tona de diferentes formas. O caos, instaurado pela presença de um show bizarro de suicídios, não existe, é legitimado pela justiça, reforçado pelos que ganham, e aplaudido de pé pela plateia. Se há terror, é o terror de uma sociedade completamente possível, se já não existente. Se há suspense, há o suspense na expectativa de até onde vai essa ambição.

Giancarlo Esposito (O Gus de Breaking Bad) vive Mason, um homem com problemas financeiros e familiares. Além de conhecer e ter trabalhado na rede de televisão onde passa o reality show, ele encara a própria condição moral da busca pelo dinheiro apesar de tudo, em busca de emprego, se vendo diante do mundo, sem muita perspectiva, onde empatia quase nenhuma existe.

Sendo muito mais realista e possível, não encontramos no meio do programa Esta é a sua morte um “Jig Saw’’ oculto, que sequestra e com princípios próprios. A decisão de participar, e poder ganhar doações de uma sociedade que não ajuda, cabe a cada participante. Pessoas que já não têm perspectiva nenhuma, veem uma possibilidade de ajudar seus conhecidos que permanecerão vivos, enquanto que os donos do programa vão apenas enriquecendo. É interessante perceber, que enquanto Adam Rogers é o cara responsável por apresentar os suicídios, por outro lado sua Irmã Karine (Sarah Wayne Callies) é médica, salva vidas todos os dias, e é confrontada com essa realidade apresentada por um irmão de sangue, que não liga nem um pouco para as relações humanas, e olhada de forma estranha pelos que sabem de seu parentesco.

A mídia, no entanto, por mais que estranhe o aparecimento do programa, logo esquece, e tudo fica “normalizado’’. James Franco, em sua breve aparição como um entrevistador de TV, confronta Adam sobre suas intenções, assim como toda a sociedade, que se choca com o fato, mas logo aceita as falsas intenções de “ajuda’’ que o programa possibilita, e assiste como entretenimento.

Se a vida humana foi trocada, na real foi vendida por um entretenimento barato às custas das vidas alheias. O aparecimento de temas como este, se há necessidade em apresentar filmes deste tipo, talvez seja interessante perceber como que o vilão dos filmes de terror vai se tornando muito mais invisível, e presente ao nosso redor.

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