Há cinco anos circulando pelo Brasil, “Deixa Clarear, musical sobre Clara Nunes” foi escolhido para reabrir o Teatro Clara Nunes, fundado pela própria Clara, em maio de 1977.

Primeira cantora brasileira a construir e a inaugurar o seu próprio teatro, a mineira – filha de Ogum com Iansã – Clara Francisca Gonçalves, que o país aprendera a amar com o nome de Clara Nunes, teve sua biografia, “Clara Nunes – Guerreira da Utopia”, escrita pelo jornalista Vagner Fernandes. A artista que foi homenageada pela Portela em 2012 virou tema de musical, com razões mais que óbvias, seu legado deve ser contado e homenageado, por todo Brasil.

O musical “Deixa clarear” estreou nos 30 anos de sua morte, em 2013, e permanece em cartaz por quase meia década sem patrocínio. O sucesso é tão grande que motivou o lançamento de um DVD, com selo da Biscoito Fino, que inclui depoimentos de amigos e familiares da cantora (1942-1983) gravados em sua terra natal: Caetanópolis.

Qual é a importância de interpretar Clara Nunes na sua carreira?
Clara Santhana – É muito grande! É um grande desafio, com certeza, uma grande responsabilidade, mas é fundamental. A Clara foi e é uma personalidade incrível, um ícone da música brasileira. Foi uma grande mulher, que bateu recorde de venda de discos no Brasil, numa época que mulher não vendia discos. Ela foi um marco para música brasileira, uma guerreira. Ela representou muito bem a nossa cultura afro-brasileira, a nossa cultura genuína, de raiz. A Clara é uma figura eterna!

São cinco anos de peça, e agora a vigésima terceira temporada no Teatro Clara Nunes, fundado por ela. Isso tem uma importância muito grande.
Clara Santhana – A gente sente muito a presença dela. É tudo muito casado, né. O teatro ainda conta com pessoas que trabalharam com ela aqui, é gostoso demais.

Clara foi uma pessoa que se preocupou em investir em algo para outros artistas, inclusive, ela fala isso em algumas entrevistas. O espaço foi um teatro que ela mesma investiu, no auge da carreira dela. Ela estreou aqui com o espetáculo “O canto das três raças” .

Clara conseguiu ser a grande cantora que ela queria ser, ela veio de uma cultura muito humilde. Ela conseguiu ter sucesso, inclusive financeiro, e com isso, ela quis investir no teatro.  Ela sempre soube das dificuldades da profissão.

E como foi o processo de construção e de pesquisa para você incorporar a Clara como personagem?
Clara Santhana – Na verdade a peça é um projeto meu, idealizado por mim, então a partir do momento que eu decidi fazer esse espetáculo eu fui muito fundo na pesquisa, que foi em torno de um ano. Antes disso, eu já pesquisava, mas não era algo tão profundo, era mais aleatório.  Quando adentrei de vez no material, fui até cidade da Clara Nunes, que é em Caetanópolis, onde visitei o memorial dela, vi os figurinos e conversei com a Dindinha, irmã da Clara que foi como uma mãe para ela. Fui também até a quadra da Portela, entrevistei a Tia Surica e alguns compositores da Velha Guarda. Além, de claro, assistir muitos vídeos dela e ler a biografia, obviamente. Eu fiz o máximo que eu pude para defender essa personagem que me é tão cara.

O interessante da peça é que em nenhum momento você incorpora Clara Nunes, como biografia com trocas de figurino. É uma homenagem para ela e sobre ela.
Clara Santhana – É uma homenagem mesmo que a gente quis fazer. A ideia não era que eu imitasse a Clara, até por que a gente sabe que a Clara é única, né. Não era a nossa intenção, mas sim, uma grande reverencia a Clara Nunes e trazer elementos que lembrassem muito ela. A gente manifesta coisas que ela gostava que estejam muito afinadas com o pensamento dela.

A cultura americana é cada vez mais reverenciada na sociedade brasileira. A obra de Clara Nunes, assim como a de Carmen Miranda e Emilinha Borba tem uma importância muito grande na nossa cultura, você acha que deveria fazer parte da grade educacional desde cedo?
Clara Santhana – Eu acredito que sim. É necessário. Deveria entrar numa parte artística, de cultura, e de história mesmo, até por que são figuras que fazem parte também da politica, muitos deles são envolvidos com movimentos sociais, a própria Clara era muito ligada ao povo, tinha uma consciência muito grande, uma postura politica bem clara no que ela cantava. Então, eu acho que é fundamental. E são figuras que são muito encantadoras, é fácil de trabalhar isso com as crianças.

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