A Marvel, como força cultural, não nasceu com seu universo cinematográfico. A identificação que o público veio a ter com seus personagens transcende por quase todos os meios de comunicação, não só as HQs como as lendárias animações dos X-Men e Homem Aranha. Dito isso, quando o MCU ( Universo Cinematográfico da Marvel) surgiu em 2008, com o primeiro Homem de Ferro, foi de uma jogada genial privilegiar personagens que ou tinham caído para escanteio ( Homem de Ferro) nas HQs ou não tiveram a chance de ganhar uma série animada.

A jornada iniciada por Tony Stark ( Robert Downey Jr) nesse primeiro filme foi o primeiro degrau, da primeira fase, do que seria a formação futura dos Vingadores. Não a toa, todos os filmes dessa primeira fase foram de caráter introdutório, com exceção do Hulk que vinha de uma obra anterior dirigida por Ang Lee em 2003. O foco após o primeiro Vingadores passou a ser de consolidar esses personagens, ao passo que novos foram introduzidos, em um mundo que já não podia, se é que poderia antes, ser mais identificável com a realidade. Todas as sequências de Homem de Ferro, Thor e Capitão América procuraram expandir o universo pessoal de cada um, de maneira que isso influenciasse no futuro.

Ao chegar em Guerra Civil, que não é exatamente um ponto de virada de fase como Vingadores, todas as consequências de vivências pessoais dos heróis desemboca ali de maneira tímida mas que, ao passar desse filme, gerará grandes consequências. Por exemplo, não há mais S.H.I.E.L.D para proteger os Vingadores do governo, Stark entende que cada vez mais suas limitações como homem estão influenciando em sua postura como herói, Thor está ocupado demais limpando os estragos dos ataques dos Elfos Negros e etc.

Dito tudo isso para realçar que Guerra Infinita é sim um capítulo final, mesmo que sua sequência tenha sido confirmada, tudo o que ocorrerá no filme será uma definição desses dez anos de MCU. A sinopse que segue Thanos em sua cruzada pessoal para reunir as joias do infinito tem sua origem na Saga do Infinito, uma minissérie escrita por Jim Starlin nos anos 90 e transforma o titã louco no deus do Universo Marvel é apropriada para realçar certos aspectos da mortalidade de cada protagonista.

Há começar com a trindade do MCU ( Capitão, Homem de Ferro e Thor), em  Guerra Infinita eles chegam no ápice de suas condições como líderes e ao mesmo tempo mais quebrados do que jamais estiveram. Thor viu seu pai morrer e seu mundo, Asgard, ser destruída no Ragnarok. Steve Rogers passou pela desilusão de perceber que o país que ele defendera na Segunda Guerra e a agência pelo qual ele lutava serem comprometidos pela Hydra. Tony Stark ainda se ressente com Steve pelos os acontecimentos ocorridos em “ Guerra Civil”, soma-se a ainda a mágoa de ter que lidar com o fato de que os Vingadores não mais existiam.

Chris Hemsworth ( Thor), Robert Downey Jr ( Homem de Ferro) e Chris Evans ( Capitão América) entregam atuações que são o oposto de tudo que eles trabalharam nos primeiros filmes. Hemsworth ganhou timing cômico mas perdeu a jovialidade, Downey Jr mantém o ar cômico mas suas ações são mais enérgicas devido a urgência dos acontecimentos e Evans carrega um ar soturno de vigilante sombrio, muito diferente do soldado brilhante de outrora. Tudo isso comprova que os atores conhecem o material que tem em mãos o suficiente para mudar suas atuações em 360º graus.

Os diretores Anthony e Joe Russo ganham destaque por serem verdadeiros camaleões em se adaptar aos diferentes tipos de histórias de diferentes grupos. Por exemplo, o modelo narrativo descontraído e exagerado proposto por James Gunn nos últimos filmes dos “ Guardiões da Galáxia” não poderia ser usado em algo relacionado ao Capitão América por exemplo. Os irmãos Russo mostram que sabem respeitar a ambientação construída para cada herói no decorrer desses anos e não dificilmente enganará o espectador, mesmo que por um segundo, em fazê-lo acreditar que está vendo um filme solo de um dos personagens.

Ao mesmo tempo que os irmãos Russo mostram domínio sobre todos os universos pessoais construídos no decorrer desses anos o excesso de personagens que essa variedade de cenários apresenta acaba por privilegiar alguns e ofuscar outros. Thor/ Guardiões/ Dr. Estranho/ Homem de Ferro/Visão são os elementos que movem a trama e que possuem mais tempo de tela, ao passo que núcleos como Capitão América/ Viúva Negra/ Pantera Negra acabam tendo pouco tempo para terem um papel efetivo maior, se reservando apenas a participar das cenas de batalha.

No entanto, nada disso passa perto do que foi proposto para o desenvolvimento de Thanos (Josh Brolin), o grande vilão preparado por dez anos. A dupla de roteiristas Christopher Markus e Stephen McFelly botou para escanteio a motivação de Thanos que se resumia a impressionar a morte com seu poder e assim ganhar seu amor e desenvolveram algo completamente novo, aonde o titã ainda é obsessivo em alcançar seus objetivos mas que agora eles se traduzem em alcançar o equilíbrio do universo e evitar uma catástrofe de eugenia em cada planeta que ele ataca.

Por mais que seja difícil de ver, o Thanos nas HQs e sua versão em Guerra Infinita conquistam o leitor/espectador por transmitir a ideia de que ele não possui em si um livre arbítrio, ele é um prisioneiro de sua própria obsessão, de sua missão. O filme tem como foco, e um foco alcançado com sucesso, em transmitir que ele não é o mal encarnado mas sim um ser que acredita ser o único disposto a ver e a fazer algo para salvar a vida, mesmo que para isso tenha que matar metade dela. Sua relação com Gamora ( Zoe Saldana) também soa genuína, a constante repulsa da personagem por seu pai enfatiza o amor dele por ela e não será difícil comprar essa mensagem.

Ao passo que o público possa vir a se sensibilizar com a jornada do vilão, as cenas em que ele vai para combate mostram o quão brutal, implacável e invencível ele é. Thanos é rápido, genial, resistente, forte e, com as joias, invencível. As cenas de ação guiadas pela câmera paciente dos irmãos Russo fazem sempre questão de demonstrar que o titã louco está em um nível muito superior aos heróis, os combates podem até vir soar como sem esperança pois os personagens sabem que pouco podem fazer frente a tal força.

Por fim, Guerra Infinita é a conclusão de uma só história que vem sendo escrita ao longo de dez anos e que foi dividida em vários capítulos. O filme tenta pontuar o tempo todo que não é apenas mais uma obra da casa das ideias e o tempo todo tenta passar o ar de fim para o espectador, seja na atmosfera de apocalipse, uma ultima olhada em cenários conhecidos, no amadurecimento de seus personagens ou na figura de um vilão invencível.
Se o excesso de personagens pode ser considerado um pesadelo para qualquer roteiro, o mesmo não pode ser dito do carisma deles. Algo que os irmãos Russo também compreendem e usam para dar mais peso a cenas dramáticas e até mesmo mortes. A lógica de que em um capítulo final, como nos filmes Slasher, ninguém está a salvo é elevada ao máximo aqui. São muitos personagens, todos amados e a narrativa deixa claro que nem todos chegarão ao final.

Eis que a hecatombe nuclear preparada desde o primeiro Homem de Ferro, reforçada pelo surgimento de Thanos nas cenas pós créditos do primeiro Vingadores e elevada à outro nível com o aprofundamento das joias do infinito encontra sua conclusão em um final chocante e de certa forma até esperado mas que pegará a todos de surpresa. Ponto para a produção que em seu momento derradeiro arriscou um final polêmico e que abre vertentes para o futuro. Sabe-se que haverá vida mas agora o desafio do MCU é trabalhar com essa vida pós a hecatombe chamada Thanos e iniciar uma nova e digna jornada a partir das cinzas.

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