Em cartaz no Teatro I do CCBB, Rio 2065, faz uma retrato fictício do Rio em 2065, com a linguagem irreverente, bem-humorada e contemporânea que caracteriza a companhia. Na história, a cidade de 2065 foi quase toda vendida para os estrangeiros, mas permanece como destino turístico de entretenimento e carnaval. . A peça é uma comédia rasgada que faz referência à linguagem do besteirol e filmes b, mas com um viés crítico que brinca com a ficção científica e dialoga com o século XVI.

Confira abaixo nossa conversa com Ivan Sugahara, diretor da peça.

A peça traz um retrato fictício do Rio em 2065, durante o processo de criação você usou referências cinematográficas? Quais foram?
Ivan Sugahara – Principalmente filmes de ficção científica, mas de naturezas distintas já anunciando a mistura de estilos que caracteriza o espetáculo. Usamos desde blockbusters pops como “Guerra nas Estrelas” e cults distópicos como “Blade Runner” até filmes B como “Barbarella”. Mas a referência cinematográfica se dá também com a teatralização de procedimentos audiovisuais para a construção da linguagem da encenação.

“Rio 2065” tem um texto bem-humorado sobre o futuro. A peça é uma crítica social sobre estereótipos? A montagem é uma crônica da nossa história e da atualidade?
Ivan Sugahara – A montagem coloca em cena um retrato fictício do Rio de Janeiro em 2065. Buscamos aliar a crônica do nosso tempo com todas as possibilidades poéticas e críticas que surgem quando refletimos sobre o futuro. Trata-se, todavia, de uma ficção científica que fracassa porque aqui as formas do passado não se apagam facilmente. Porque a nossa cultura frequentemente resiste às invenções tecnológicas, às convenções e exigências de cada época. A sensação de estarmos à frente, atrás, ou em descompasso com o resto do mundo é, assim, uma das atmosferas da peça. Estamos no tempo cotidiano de uma cidade praieira, construída sobre a beleza e criatividade cultural dos seus habitantes, que subverte as pressões de futuros utópicos – tão recorrente nas narrativas de ficção científica. Um futuro onde coabitam traços de diferentes momentos da história da nossa cidade, da época colonial, da Belle Époque, dos dias de hoje e de 2065. Um Rio de Janeiro teatral que aponta tanto para o futuro quanto para o passado.

A peça tem 7 atores e 30 personagens, sendo que os ensaios levaram cerca de dois meses. Como foram trabalhadas estas diferenças em tão pouco tempo de ensaio?
Ivan Sugahara – É um espetáculo de grupo, o que faz toda a diferença. Então não foram apenas dois meses de ensaio. Foram vinte anos e dois meses. No trabalho em companhia, cada nova montagem dá continuidade à pesquisa realizada na peça anterior e em todas as demais que a precederam. Por mais que haja diferenças drásticas entre as poéticas dos espetáculos, há uma troca entre nós, um entendimento e um jeito de trabalhar que vai se aprofundando cada vez mais. Nessa montagem, tivemos três atores convidados que, ao contracenaram com os atores da companhia, logo se encaixaram em nosso processo de ensaio. No entanto, é claro, que para além desse jogo que desenvolvemos em nossa trajetória, também trabalhamos exaustivamente nesses dois meses.

Você mistura comédia com ficção científica. Em algum momento houve dificuldades em articular o texto e a construção cênica?
Ivan Sugahara – Antes de tudo, a peça é uma comédia. Contudo, trata-se de uma comédia que segue a tradição antropofágica de se apropriar de linguagens artísticas diversas e abrasileirá-las. O texto mistura ficção científica, sátira política, filme noir e grand-guignol. Na encenação, procurei colocar em cena esse caldeirão de referências divertido, criando uma poética que remete às chanchadas e ao movimento tropicalista. Foi uma construção cênica bastante trabalhosa e complexa, mas extremamente gratificante e rica. Há um intenso uso de luz, música, sonoplastia, vídeo, além de inúmeras mudanças de cenário e trocas de figurino. Muita coisa acontece em cena, em consonância com a nova realidade de excessos que temos diante de nós.

“Rio 2065” aponta tanto para o futuro quanto para o passado, com apropriação de uma linguagem inovadora para o público. O texto encontra espaços para a reflexão sobre anseios e temores do futuro?
Ivan Sugahara – O texto apresenta uma série de ramificações dramáticas. Há diversos núcleos de personagens que vão se interligando e formando o mapa cênico de uma cidade imprevisível e efervescente. Mudanças vertiginosas de personagens e conflitos acontecem numa espiral progressiva até o fim, quando se estabelece uma imagem apocalíptica simbólica. E junto a ela, o sentimento de rapidez e fragilidade da contemporaneidade, uma sensação quase tragicômica de não conseguirmos controlar a vida. Mas também procuramos encontrar espaços para o que existe de poético e estranho nesse futuro imaginário. Um amanhã absurdo que pode ser muitas coisas e que segue carregando o peso do passado.

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