Nos últimos anos, o mundo vem acompanhando um rápido e surpreendente crescimento do cinema colombiano, o qual tem apresentado títulos que configuram entre os melhores da América Latina, e dois dos nomes responsáveis por isso são Cristina Gallego e Ciro Guerra, cineastas que, em 2015, arrebataram público e crítica com o premiado O Abraço da Serpente, que mostrava a interação entre o xamã Karamakate e dois exploradores europeus, indicando que a dupla de diretores gosta e sabe muito bem trabalhar o tema de identidade cultural.

  Agora, Gallego e Guerra chegam aos cinemas com mais um sucesso de crítica, o longa Pássaros de Verão, que, durante o Festival de Cannes deste ano, foi apontado como O Poderoso Chefão colombiano. A trama se passa nos anos 70, quando uma família de nativos Wayuu se vê em meio a crescente e efervescente produção e venda de maconha para os Estados Unidos. Tudo começa quando o jovem Rapayet (José Acosta) se interessa por Zaida (Natalia Reyes), mas como o rapaz não é membro daquela comunidade, úrsula (Carmiña Martínez), mãe da moça, impõe uma série de tarefas quase impossíveis a serem cumpridas por ele para que a mulher conceda a mão da filha.

 No entanto, Moises (Jhon Narváez), colega de Rapayet, descobre que os estadunidenses que integram o Corpo da Paz na região estão à procura de maconha, e, para atender à crescente demanda, inicia um negócio com os trabalhadores agrícolas e cargueiros da área. Então, apesar de tentar resistir aos impulsos da ganância, a cultura e as vidas dos membros desta família são postas em perigo por causa de uma guerra entre os clãs. Com isso, o longa se destaca por sua narrativa dividida em cinco partes que mostram a troca gradual dos valores ancestrais pelos dólares que prometem trazer prosperidade àquela área tão pobre.

 Assim, talvez o maior mérito do do longa seja a complexidade  e engenhosidade com a qual a esta trama é apresentada, desde o título – a própria Gallego declarou que os pássaros podem representar tanto os animais da cultura Wayuu quanto os aviões estadunidenses que iam buscar a maconha com cada vez mais frequência. E essa criatividade se estende para outros aspectos da produção, como os movimentos de câmera da direção que significam muito mais do que as cenas mostradas – um exemplo disso são as construções de luxo que passam a ocupar uma zona cujos habitantes passavam fome até pouco tempo antes -, a cinematografia impecável e a trilha sonora progressiva que casa com a escalada das disputas do crime.

   Desta forma, Gallego e Guerra conseguem discutir diversos assuntos como mistura e abandono cultural, o esforço pela manutenção das tradições e as alterações sofridas  por elas, o que afeta a identidade nacional de um povo ao longo do tempo, além de servir como um preâmbulo para o auge do narcotráfico nos anos 80 – liderado por Pablo Escobar -, tema que angariou muito interesse nos últimos anos. E tudo isso apresentando uma trama engajante que prende a atenção do público, sendo, portanto, não apenas o melhor filme sul-americano, mas um dos melhores filmes do ano.

 

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