Lewis Carroll é o escritor responsável por obras como “Alice no País das Maravilhas”, que é a base dramatúrgica da peça-performance “Alice – debaixo da terra mora minha mente soterrada”. Outras referências são a obra “Alice Através do Espelho” e os relatos sobre Lewis Carroll, além de sua relação específica com a personagem Alice, sobre os quais o grupo BAK Artes Performativas estrutura uma compilação de movimentos e vivências cenicamente ímpares, que levam o espectador a uma imersão no taciturno e naquilo que é poeticamente distópico, ou disruptivo.

A performance complexa que é composta de fragmentos e uma sequência espacial e sensorialmente interessantes, permite-nos discutir temas como a violência, o medo, a infância conturbada, a relação imbricada com familiares e mundo exterior, e um toque de imaginário fantástico, ou, de fantasia imaginária. A composição do espetáculo acumula as urgências do desespero de uma jovem. É uma jovem assustada pelo universo ao redor? Atormentada por circunstâncias indescritíveis, associadas à não aceitação das coisas como elas são, à insatisfação com o que se coloca? Parece que tudo, para essa personagem, toma contornos de penúria e incompreensão.

Sem dúvidas, o espetáculo oferece uma experiência sensorial e a dinâmica dos flashs e dos quadros, verdadeiros extratos pictóricos dentro da exibição quase depressiva, assemblam um conjunto imagético-cinético de difícil comparação com o que há por aí na cena teatral carioca. Os sons, as imagens auxiliam a dramaturgia, que não consiste exatamente em narrativa ou drama convencional, mas em coleção de fragmentos que nos contam algo sobre aquela menina para quem o mundo não parece ser fácil de explicar. Há o lúdico, mas este curiosamente conduz o público a um lugar sombrio, de face tenebrosa, e diferente da imagem idealizada e geral que temos da infância.

A adolescente, que vive com mãe, pai, irmão e madrinha, é tratada com excesso zelo. Impera a preocupação sobre o “mundo lá fora” que seria perigoso demais para pessoas como ela.

Alice desperta de um pesadelo com sua família gritando para que ela vá à escola. A partir de então se colocam impedimentos, nós psíquicos, que a fazem questionar-se sobre quem é, o que e que está a sua volta. São conflitos também relacionados à transição da puberdade, à rigidez e às vezes agressão da chegada à vida adulta, que bate à porta, e pode ser traumática, pode dar certa náusea existencial.

“Ao longo do seu dia, um homem some e aparece em seu caminho diversas vezes, ora oferecendo presentes e cuidados, ora querendo fotografá-la. Alice não aceita, pois não gosta do que vê quando se olha no espelho”. Possivelmente é descrita uma adolescente que se vê gorda, feia, não gosta da cor da sua pele e nem do próprio cabelo, de forma que em realidade ela tem distúrbios de auto-imagem. É feita uma alusão a Lewis Carroll, pseudônimo utilizado por Charles Lutwidge Dodgson, o autor de Alice no País das Maravilhas, ao convidar Alice para o chá. Sua mãe quer trazê-la para o mundo real, mas ele parece ter a cabeça enterrada em problemas inventados e não parece disposta a sair daquela condição de auto-conflito.

A morte de seu gato invisível, a aversão ao coelho, um estupro levam-na a querer fugir, fugir do mundo real, fugir da inexorabilidade do destruição dos sonhos inocentes. Ela se defronta com seus fantasmas, sem saber se está e onde é o seu País das Maravilhas.

O recurso à arma de fogo é potente e forte, chega a espantar pelo contra-senso de uma menina delicada empunhar um revolver e não saber o que fazer com ele.

Chama atenção, ao menos a pretensão, de ser um espetáculo quase dançado, ou, ao menos, onde a dimensão corpórea dos atores assume um papel preponderante na fala cênica. O espetáculo está em cartaz no Teatro Carlos Gomes e já passou por temporada na Escócia e no México.

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