Em 1819, manifestantes que protestavam pacificamente na Praça St. Peter, no Reino Unido, por reformas no parlamento, a fim de mais direitos e dignidade para as classes trabalhadoras, foram brutalmente atacadas pela cavalaria britânica, resultando em várias mortes, inclusive de Idosos, mulheres e bebês. Apesar de ser, oficialmente, denominado “O Massacre de Manchester”, o episódio também ficou conhecido como Massacre de Peterloo, em referência a Batalha de Waterloo, ocorrida no ano anterior, na qual os ingleses venceram as tropas de Napoleão, ou seja, desde o título, o cineasta Mike Leigh – acostumado a retratar as lutas das classes trabalhadoras – já enche a produção de ironia, o que, de certa forma, aplica-se a outros elementos do filme.

              Começando pelo retorno de dois soldados após a última das batalhas napoleônicas. O primeiro, pobre, segue um longo caminho a pé, emocional e psicologicamente abalado, e encontra uma realidade dura de infindáveis horas de trabalho e falta de comida em casa. Já o segundo, um aristocrata, é recebido com honras e títulos. A partir disso, o longa passa a trabalhar os gritantes contrastes entre as duas classes que povoam a trama, sem estabelecer uma figura principal – aqui, o protagonismo é da coletividade, na qual cada um tem uma função representativa no enredo, movido por constantes discursos de cada um dos lados, configurando uma extensa batalha verborrágica.

              Por meio disso, o roteiro também demonstra as diferenças entre os dois grupos, o que quer mudanças e o que quer manter seus privilégios; enquanto o primeiro faz discursos mais simples e diretos – e consideravelmente mais eficazes -, o segundo utiliza parte de seu esforço para escolher as palavras certas e mais rebuscadas, buscando demonstrar uma suposta superioridade pela lógica intelectualóide. Em ambos os casos, o efeito desejado é alcançado, porém, considerando as duas horas e meia de duração e o tempo que esses discursos ocupam na projeção, surge uma sensação de repetição a partir do segundo ato – parece que, em alguns momentos, o filme corre atrás do próprio rabo.

              Talvez, esta seja uma escolha deliberada do cineasta – uma vez que todos sabem como a história acaba, ele estica a narrativa o máximo possível para aumentar a tensão para o clímax. Isso fica mais evidente no fim do terceiro ato, quando a manifestação na praça St. Peter, de fato, começa. O diretor dedica cerca de dez minutos só para a chegada das pessoas ao local, depois, mais dez minutos para que os líderes subam ao palanque e se organizem, em seguida, mais um longo discurso reiterando tudo que já havia sido dito, enquanto alterna a atenção do espectador com as confabulações dos aristocratas que assistem a tudo, alguns indignados, outros não.

              Assim, “Peterloo” é um drama histórico interessante acerca de fatos que podem, facilmente, ser relacionados ao contexto atual e diversas partes do mundo – talvez, até por isso o tom satírico com o qual a classe alta é retratada, beirando o patético, como uma personificação da avareza, da vaidade e da luxúria -, no entanto, a produção peca ao espremer até a última gota de seu tema, tornando-se repetitivo e um pouco cansativo. Por outro lado, o longa acerta em cheio nos aspectos técnicos – o design de produção impecável que ajuda a contar a história, assim como a cinematografia e o desenho de som -, em especial durante o massacre propriamente dito, onde não há a glamourização da violência explícita e sádica da cavalaria, não há trilha sonora grandiosa e não há eufemismo. Desta forma, “Peterloo” é um filme que merece ser visto – em especial, por conta de sua temática -, mas requer uma dose de paciência e estômago.

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