“Pós Hamlet” é um um pequeno monólogo em que a desconstrução do texto original, quase litúrgico, e a inserção de pensamentos, atos falhos, conversações com o mundo exterior e a realidade carioca, são as tônicas. O ator, que em sua atuação, passa a impressão de descaso, relaxamento e descuido, com a cena e com a apresentação, na verdade acaba surpreendendo o público com momentos de muita emoção, mesmo com um texto quase declamado. É bom de assistir um artista talentoso que consegue prender a atenção do espectador, mesmo se esforçando pouco, e quase desdenhando do próprio texto.

A peça apresenta um monólogo simples, não há pirotecnias, mas poderia tornar-se uma verdadeira ode às memórias, ao dilema do filho com o pai, da loucura, da desconfiança, da dúvida em ser que o bardo de Stratford upon Avon transpôs na figura do príncipe dinamarquês e que agora é transportado para o contexto carioca e contemporâneo. Explora-se a não linearidade, a utilização de excertos, de quebras de quarto muro, de sensibilização por meio do lúdico e do infantil. A dança do ator em cena pode ser melhor desenhada e o espetáculo tem tudo para deslanchar com mais alguns acertos, com mais tempo de maturação.

Na tendência da era das superações de tendências, dos pós – pós moderno, pós dramático, pós verídico, a montagem logra sucesso em dar uma nova face ao dilema do jovem homem em perdição, desfazendo as formas tradicionais a que estamos acostumados no teatrão, e supera a narrativa pessimista, dialogando com o clássico.

foto: Rafael Machado

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