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Máquina do Tempo é um filme simples e bastante inventivo

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Eu não costumo começar uma crítica desta maneira, mas só hoje vou abrir uma exceção, pois preciso avisar quem está, neste exato momento, me lendo: Máquina do Tempo, no original, Lola, um título bem mais interessante, como vocês logo verão, é um filme simples, porém, bastante inventivo. Dificilmente, ele não estará na minha lista dos melhores do ano. Talvez, inclusive, ele já esteja e eu tenha escrito isso porque, de alguma forma, recebi uma informação proveniente direto do futuro… Não sei, não tenho certeza, uma vez que esta história de conhecer o por vir ainda é confusa demais para mim. Admito que preciso pedir a ajuda das Irmãs Hanbury para entender melhor. Ou, então, recorrer ao cineasta britânico Andrew Legge, o cérebro por trás desta criativa produção. 

O longa-metragem de 79 minutos ressuscita a técnica cinematográfica de found footage, que ficou famosa com o sucesso de A Bruxa de Blair, em 1999, sendo usada até a exaustão e o público enjoar. Nessa maneira de filmar, que para funcionar precisa contar com a suspensão da descrença por parte dos espectadores, o produto final, supostamente, é feito a partir de gravações caseiras, rolos de filmes ou VHS’s. Ou seja, assistimos o que alguém gravou com o intuito de mostrar para outra pessoa. Assim, somos informados que uma gravação, datada do ano de 1941, foi encontrada no porão de uma velha casa de campo, em Sussex, na Grã-Bretanha, 70 anos depois, em 2021. No vídeo, uma mulher loira se dirige a outra, que ela identifica apenas como Thom, e diz que deseja lhe contar como a história pode ser feita e desfeita. 

Com o transcorrer do filme, descobrimos as suas identidades: a autora da gravação é Martha Hanbury (Stefanie Martini), também conhecida pelo apelido de Mars; já a mulher a quem o vídeo é destinado, Thom, chama-se Thomasina Hanbury (Emma Appleton). Elas foram duas irmãs britânicas, que viveram na casa onde a gravação foi encontrada, ao que tudo indica, sozinhas, uma vez que os pais já eram falecidos. Na mesma narração que introduz o filme, Mars atenta para a genialidade de Thom, lembrando que o pai sempre dizia para irmã não se deixar cegar pelo próprio brilho. Essa inteligência é a chave para compreendermos a revelação que vem a seguir. Thom criou uma espécie de máquina do tempo que foi batizada com o nome da mãe delas: Lola. 

Tendo como ponto de partida o princípio de que as ondas de rádio nunca morrem e de que podemos receber notícias do passado, Lola foi criada com o objetivo de receber notícias do futuro. A máquina não transporta ninguém de lá para cá, como em outras obras de ficção científica, mas permite que os seus usuários saibam com antecedência o que acontecerá e assim possam se previnir. Um outro aspecto que, lá pelas tantas, fica claro em Máquina do Tempo, é o fato do aparelho não mostrar o micro, as ocorrências cotidianas, apenas o macro, os acontecimentos globais. Graças à Lola, Mars e Thom conheceram e se encantaram por Bob Dylan, David Bowie e Stanley Kubrick. E também devido à ela foram feministas antes de qualquer outra mulher. Só que a máquina poderia e deveria ter um uso ainda melhor. 

Com a Segunda Guerra em curso, as irmãs perceberam que poderiam utilizar Lola para mudar o destino da batalha. Sabendo de antemão onde ocorreriam os ataques nazistas, esses poderiam ser frustados e vidas poupadas. É aí que a trama dá sua guinada definitiva. Enquanto usavam a máquina somente para fins culturais, elas não interferiam no curso da história e, desta forma, não provocavam o que se convencionou chamar de “efeito borboleta”: a alteração das variáveis que, somadas, proporcionariam, no futuro, o surgimento de dezenas de coisas, inclusive, por exemplo, da carreira de Bob Dylan, músico que fala de liberdade e direitos civis, entre outros temas. Aqui, como em qualquer ficção científica com temática sobre viagens no tempo, não tinha como não conjecturar o quão terríveis podem ser as consequências quando o homem descobre uma maneira de interferir no espaço-tempo. 

Quando escrevi anteriormente que Máquina do Tempo é um filme simples, porém, muito inventivo, isso fica claro na azeitada mescla de gravações caseiras, na dramaturgia, feitas por Mars, com imagens de arquivo. Ao longo da obra, nossos olhos cruzam com os de Franklin Roosevelt, John Kennedy, Sir Winston Churchill, Adolf Hitler, bem como com os do líder facista britânico Sir Oswald Mosley, isso sem falar, claro, dos supracitados Bob Dylan e David Bowie. Com a supervisão de Legge, esta fascinante costura tem o dedo da diretora de fotografia Oona Menges, a verdadeira autora das tais gravações, para as quais utilizou película preto e branco, além de câmeras e lentes autênticas da época, como as clássicas Bolex e Arriflex de 16mm; e do montador Colin Campbell. A edição é dotada de uma fluidez tão natural que a produção, curta até mesmo para os atuais padrões cinematográficos, parece ainda menor e isso não desperta a sensação de que ficou faltando alguma coisa. 

Por último, produções como estas, às vezes, tendem a priorizar a forma em detrimento do conteúdo, entregando, assim, arremedos de tramas com persongens unidimensionais. Esse não é o caso de Máquina do Tempo. Centrado nas duas irmãs, o roteiro, escrito pelo diretor em conjunto com Angeli Macfarlane, delimita muito bem suas personalidades. Mars é doce, sonhadora e romântica. Durante a história, há tempo inclusive para acompanharmos o seu envolvimento com o Sebastian Halloway (Rory Byrne), um oficial britânico que descobre a existência de Lola e passa a ajudar as irmãs. Já Thom é genial, reservada e idealista. É dela o insight de usar a máquina em prol dos esforços de guerra e talvez seja a sua vida a mais impactada pela interferência no espaço-tempo. Qualquer produção que dedique este grau de atenção aos seus personagens, não negligencia o conteúdo em função da forma. 

Desliguem os celulares e ótima diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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