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Toy Story 5: A chatice ficou no passado e Jessie herda os holofotes

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Quando o mundo se bandeou para a Pixar, os Looney Tunes já haviam assassinado a lógica cartesiana, alegando legítima defesa, a ponto de desafiarem as convenções moralistas noventistas (as poucas em vigência), em prol de uma animação anárquica. Dela vieram pérolas como “Laboratório de Dexter”, “A Vaca e o Frango” e “Os Padrinhos Mágicos”. Perto dessa galera, o Gary Cooper de látex Woody e o Sam Shepard de resina Buzz Lightyear eram dois chatos de galocha. E seguiram manés por anos a fio, apesar de terem alfabetizado audiovisualmente meia Terra.

O subúrbio do Rio de Janeiro descobriu os dois em janeiro de 1996, quando o Cine Olaria, com seus oitocentos e tantos lugares, apresentou a Zona Norte à saga de ruptura entre dois bonecos que disputavam a atenção plena de seu dono, Andy. Muita água rolou para a então produtora Pixar e para a distribuidora titânica Disney desde então.

Muitos filmes nasceram dali, uns piores, como “Vida de Inseto”, outros muito melhores, como “Monstros S.A.” e “Ratatouille”. E, no passar das Eras, Woody e Buzz amadureceram à sua maneira, sobrevivendo às mudanças de comportamento do público e às transformações da própria indústria.

Inveja sempre foi a palavra que sedimentou as dramaturgias, nem sempre palatáveis, de Toy Story. A franquia nasceu em 1995 com o projeto de transformar a computação gráfica numa ferramenta de formação de olhar e de sentimentos para crianças — inclusive as grandes, de 18 anos para cima — que assistiam ao fim de um milénio sob o signo de um “ctrl + alt + del” prospectivo.

Kevin Costner de borracha, o xerife Woody, a quem Marco Ribeiro empresta a voz há mais de três décadas, odiou Buzz Lightyear de imediato. A razão era simples: a estrutura encouraçada do patrulheiro espacial havia roubado o coração de Andy, seu dono.

Entre quiproquós, os dois cavaram uma trincheira de tréguas e transformaram rivalidade em amizade. Mas a fortuna gerada pelo filme original, que arrecadou mais de US$ 400 milhões mundialmente, criou uma necessidade industrial de novas almas invejosas.

Esse processo culminou com o surgimento de Lotso em Toy Story 3, o mais perverso antagonista da saga. O urso roxo transformou o abandono numa estética própria e cristalizou uma ideia recorrente da série: para seguir em frente é preciso aprender a perder. Além disso, a franquia construiu-se sobre despedidas, substituições e renúncias. A Pixar, certamente, acabou por transformar muitos dos seus roteiros em verdadeiras sessões de terapia animada, embaladas para consumo familiar.

O desaparecimento do Amigo Imaginário em DivertidaMente permanece como um dos momentos emocionalmente mais devastadores da filmografia do estúdio. Sob a bandeira do amadurecimento, a empresa consolidou uma fórmula narrativa que normaliza a dor como rito inevitável de passagem.

Mas Toy Story 5 surge disposto a inverter parte dessa lógica. Estima-se que os quatro filmes anteriores tenham arrecadado cerca de US$ 3 mil milhões nas bilheteiras mundiais, mas poucos alcançaram o equilíbrio entre adrenalina e ternura encontrado nesta nova aventura.

A direção leva a assinatura de Andrew Stanton, realizador de “Procurando Nemo” e “WALL-E”. Ao seu lado está McKenna Harris, responsável pela curta-metragem “Oi, Alberto”, numa parceria que demonstra grande sintonia narrativa.

A história funciona como uma alegoria sobre inteligência artificial e dependência tecnológica. O novo objeto de desejo chama-se Lilypad, um tablet inteligente interpretado por Greta Lee, que monopoliza a atenção da pequena Bonnie e coloca em xeque a relevância dos brinquedos tradicionais. Não por acaso, a Pixar resumiu toda a proposta do projeto num slogan simples: “Toy Meets Tech”. A tecnologia deixa de ser ferramenta e transforma-se em concorrente direta de Woody, Buzz e companhia.

Bonnie desenvolve uma ligação intensa com o dispositivo eletrónico. Enquanto isso, Jessie assume o protagonismo emocional da trama e passa a liderar a comunidade de brinquedos do quarto. A personagem, originalmente dublada por Joan Cusack, ganha ainda mais força nesta nova etapa da franquia. Sua frustração ao perceber-se descartável diante de uma novidade digital torna-se o motor dramático da narrativa.

Depois do afastamento de Woody, Jessie herdou responsabilidades e afetos. É justamente ela quem sente primeiro o impacto da rejeição e da obsolescência.

Entre as novidades do elenco surge Amigo Rolinho, figura interpretada por Conan O’Brien. A personagem revela-se uma das adições mais inspiradas do universo da série e torna-se peça fundamental na reconstrução emocional de Jessie.

Na versão brasileira, Rafael Infante encontra o tom exato para equilibrar humor e humanidade. O resultado é uma dramédia surpreendentemente madura, construída em torno da possibilidade de laços que resistem ao tempo e às mudanças.

Pela primeira vez, a franquia troca o discurso da despedida pela ideia da permanência. É uma mudança de perspectiva significativa para um universo acostumado a transformar rupturas em lições de vida. Essa transformação estende-se também à dimensão visual. A direção de arte aposta em cores vibrantes e em sequências de delírio que abandonam parcialmente o hiper-realismo digital para experimentar formas mais livres e expressivas.

Na frente da dublagem, Guilherme Briggs continua a fazer prodígios com Buzz Lightyear. O ator encontra novas nuances para um personagem que, depois de tantos anos, ainda consegue revelar facetas inesperadas. Entre elas está uma dimensão romântica que aproxima Buzz de Jessie. A relação desenvolve-se com leveza e sem as amarras que frequentemente limitam as demonstrações de afeto em grandes produções familiares.

Ao final, Toy Story 5 encontra uma forma inteligente de revisitar os temas que fizeram da série um fenómeno global. Em vez de insistir apenas na perda, escolhe falar sobre permanência, reencontro e resistência afetiva. Fato é, a decisão renova a franquia sem romper com a sua identidade. E devolve a Woody, Buzz e Jessie algo que parecia perdido há muito tempo: a capacidade de surpreender.

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