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Coyote vs. Acme faz paródia de filmes de tribunal

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Os bastidores de Coyote vs Acme são tão divertidos (ou seria melhor dizer atribulados?) quanto o próprio filme. Já com a produção pronta, a Warner Bros. desistiu da comercialização do mesmo; os motivos, não assumidos, provavelmente envolvem a falta de confiança na rentabilidade do mesmo. Não é a primeira vez que a empresa faz isso, ano passado Looney Tunes: O Dia em que a Terra Explodiu já tinha sido uma dispensa do estúdio. Parece existir uma movimentação sistemática para tirar a turma do Pernalonga e seus amigos dos braços do conglomerado, e as animações clássicas parecem que estão saindo do streaming deles também. No fim das contas, o movimento é recebido como um tiro no pé: o novo filme vem sendo merecidamente bem recebido por onde passa, e o prestígio de ter um grande material em mãos oriunda de uma franquia adorada, deveria falar muito mais alto. 

Há quase 40 anos atrás, os cinemas foram assolados pelo sucesso enorme de Uma Cilada para Roger Rabbit, filme que criou personagens icônicos e os uniu a históricos já existentes em uma aventura de suspense cômico que unia live-action e animação em um filme delicioso. Coyote vs Acme é um projeto que bebe em fonte similar, e tem como capitão da empreitada James Gunn, o novo poderoso da divisão de cinema da DC. Ele assina produção e argumento, e o filme é dirigido pelo promissor Dave Green, que aqui invade muitos terrenos para essa paródia de filmes de tribunal ladeada por humanos e cartoons, que sem ninguém perceber, vai enredando o espectador por uma trilha melodramática bem sucedida, sem perder o molho original acrescido. 

Do ponto de vista cinematográfico, Coyote vs Acme pega uma janela de estreias que o desfavorece enquanto potencial rentável, ainda que seja mais uma bela peça de cinema, aliás é isso é o que importa aqui. Assim como O Fim da Rua, o filme escrito por Samy Burch (vejam só, a mesma roteirista de Segredos de um Escândalo; o nome dela é versatilidade!) apoia em uma corrente da nostalgia que não é apenas uma lembrança de um tempo, de obras do passado; ele reacende uma infância que ainda reside escondida em cada indivíduo. Diferente do longa de aventura de David Robert Mitchell, no entanto, estamos aqui falando de uma produção que ganha pontos extras se uma dose de cinefilia for acessada. A tradição do filme de tribunal enquanto gênero remete aos anos 1950, quando os clássicos Testemunha de Acusação 12 Homens e uma Sentença mostraram ao espectador que tensão poderia ser construída durante um processo. 

A origem da nostalgia é, certamente, uma sensação nítida de não estarmos mais no tempo de hoje, mas levado para uma infância específica, aquela que cresceu nos anos 80 e assistia essa programação nos programas infantis da manhã. Para isso, o filme não apenas pega carona no ritmo e no desvario dessas animações, mas principalmente no humor característico do absurdo que esses episódios abrigavam cujas eternas perseguições entre o protagonista e seu nêmesis, o papa-léguas, mantém até hoje. Em determinado momento, o filme começa a se desdobrar e apresentar cada vez mais novos lados, enriquecendo a experiência por um lado, e por outro ficando cada vez com mais ambições e propostas. Isso mostra um lado da produção a identificar um peso desnecessário no todo, sem perder qualidades mas deixando Coyote vs Acme com excessos. 

As homenagens aos nomes da história dos Looney Tunes emocionam e divertem, tais como o Gaguinho, Piu-Piu (em personagem definidor), Frangolino, Patolino, e, óbvio que o coelho mais famoso do mundo não ficou de fora. Mas Coyote vs Acme é bastante auto-consciente de seu material, da qualidade do que está contando, e tenta acomodar em sua narrativa um grupo de outros tons que serão explorados em segundo momento, como uma abertura bem-vinda a um certo tipo de ‘buddy movie’, em duas frentes diferentes, ambas protagonizadas pelo coiote. O que se mostra surpreendentemente acertado, e carrega para o título um tom melancólico no ponto exato, que serve para nos fazer envolver pelas surpreendentes ações da metade para o fim. 

No elenco humano, Will Forte e John Cena realizam exatamente o que se espera deles, o mocinho perdedor e o vilão abastado, respectivamente. Mas pela segunda vez no mês, P.J. Byrne catalisa os olhos para si quando está em cena. Também no elenco de O Fim da Rua, ele mais uma vez veste a roupa de um vilão cômico cujo fim não é nada glorioso, em um tom delicioso de deboche e simpatia que faz com que nosso ódio seja impedido pelo banho de carisma que ele apresenta. Tem muito azeite na proximidade entre os dois mundos, e o fato de que as animações centrais não podem falar mostram que a mensagem final é ainda mais clara – e clássica. Todo indivíduo precisa de uma figura que forme par consigo, e não estou falando de uma junção romântico-carnal, mas de um reflexo que se encontre no outro. Coyote vs Acme coloca as rivalidades como um protótipo necessário para a continuidade do sentido, ao mostrar que precisamos enxergar o outro também ao olharmos para nós mesmos. 

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