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Ponto Sem Retorno: Ridley Scott convida o espectador a observar cada detalhe

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Quando vamos ao cinema, quando assistimos a um filme, o cartaz e o título costumam gerar uma expectativa. É natural. A gente lê a sinopse, vê as imagens, entende que determinado filme pertence a determinado gênero e começa a imaginar aquilo que vai encontrar na sala escura. O problema é quando o filme resolve não corresponder ao que esperávamos. Essa quebra de expectativa pode ser extremamente benéfica ou pode atrapalhar toda a experiência cinematográfica. É preciso estar com a mente aberta. Foi exatamente isso que aconteceu comigo recentemente ao assistir a Chopin: Uma Sonata em Paris. E acontece novamente com Ponto Sem Retorno, o mais novo filme do grande Ridley Scott. Quando vemos o cartaz e lemos a sinopse, somos apresentados a um mundo pós-apocalíptico em que uma pequena parcela da humanidade sobreviveu a uma pandemia. As pessoas vivem isoladas em pequenas comunidades, tentando sobreviver enquanto o perigo está sempre à espreita. Só que as primeiras cenas deste filmaço — já vou adiantar que é um filmaço — são completamente diferentes do que eu imaginava.

São cenas contemplativas, com planos abertos, em que a câmera não tem pressa de chegar a lugar nenhum. Ela amplia o campo de visão e convida o espectador a observar cada detalhe. Um avião decola, sobrevoa um mundo verdejante e selvagem e, pouco a pouco, somos apresentados a Hig, interpretado por Jacob Elordi, um mecânico que vive em uma pequena base de aviões ao lado de Bangley, vivido por Josh Brolin, um ex-fuzileiro naval. Eles têm tudo o que precisam: mantimentos, armas e até energia elétrica. De tempos em tempos, ele pega o avião e vai até Denver, a metrópole mais próxima, em busca de mais suprimentos. Só que, em uma dessas viagens, capta uma transmissão de rádio. Bangley recomenda que ele não se meta nisso, mas Hig é curioso. Eu sou curioso, então entendo perfeitamente. E essa curiosidade, agravada pelo fato de ter perdido a esposa e viver apenas com o cachorro Jasper, fala mais alto e o faz ir atrás.

Quando o avião apresenta um problema, Hig acaba encontrando Pops, interpretado por Guy Pearce, e sua filha Cima, vivida por Margaret Qualley. Eles também vivem isolados, em uma fazenda, tentando sobreviver com os recursos que conseguiram preservar. A conexão entre Hig e Cima é imediata: ela também perdeu o seu companheiro. E, a partir desse encontro, a história começa a tomar caminhos que algumas vezes correspondem àquilo que esperávamos e outras vezes nos surpreendem completamente. Eles terão de enfrentar grupos de sobreviventes que parecem ter sido transformados pela pandemia, pessoas que vivem de maneira quase animalesca, saqueando e atacando quem aparece pelo caminho. Só que há uma outra surpresa. Ponto Sem Retorno tem uma alma de western, de um faroeste antigo. E aqui eu vou me apropriar do insight de um amigo: Hig é um cavaleiro solitário. A diferença é que ele não monta um cavalo, pilota um avião.

E essa comparação com o Western não para aí. Uma das tribos nômades se veste e age como os indígenas dos antigos filmes de faroeste. Eles atacam, perseguem e querem tomar aquilo que encontram pelo caminho. Há também outro grupo que parece formado por zumbis, embora não sejam zumbis. São pessoas que agem com a fúria e a pouca inteligência que estamos acostumados a encontrar nos filmes de mortos-vivos. Portanto, temos um filme pós-apocalíptico que tem um quê de western, um quê de filme de zumbi, mas que oficialmente não é nada disso. E Ridley Scott faz tudo isso de uma maneira belíssima. Ponto Sem Retorno dura 1h59 e começa devagar. Essa lentidão não me incomodou nem um pouco, embora talvez incomode parte do grande público. O importante é que o filme vai ganhando forma, vai acelerando e, quando percebemos, estamos completamente presos à cadeira.

E aí vem uma das grandes cenas do filme, envolvendo a excelente Allison Janney. Não vou falar praticamente nada sobre ela porque a graça está justamente na surpresa. Tudo nasce, mais uma vez, da curiosidade de Hig. Quando ele consegue descobrir a origem daquela transmissão de rádio e chega ao local acompanhado de Cima e Pops, eles — e nós, espectadores — têm uma surpresa enorme. É uma das melhores cenas que vi no cinema neste ano e, em alguns momentos, chega a flertar com o surrealismo. Allison Janney aparece pouco, mas, como quase sempre, entrega uma grande atuação. E o restante do elenco também está muito bem: Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley e Guy Pearce formam um conjunto bastante homogêneo, com atuações maiores ou menores, mas todas muito boas. A fotografia já impressiona nas primeiras tomadas abertas e permanece belíssima durante todo o filme. A montagem funciona perfeitamente e a direção do velho mestre Ridley Scott é segura, como se poderia esperar.

Só faço uma observação final sobre o título. Em inglês, Ponto Sem Retorno se chama The Dog Stars. Já em Portugal, país famoso por alguns títulos muito peculiares, recebeu o seguinte nome: Na Companhia das Estrelas. Dito isso, vocês precisam assistir ao filme para entender o porquê de os dois nomes lá de fora fazerem mais sentido e serem melhores do que Ponto Sem Retorno. Contudo, isso é apenas um detalhe. Aliás, o que importa é que Ridley Scott fez uma obra belíssima, diferente do que a expectativa inicial poderia sugerir e capaz de misturar pós-apocalipse, Western, suspense, sobrevivência e até um pouco de surrealismo sem perder a mão.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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