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Nosso Segredo celebra o amor familiar à sombra do racismo e do luto

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Diante da consagração que alcançou na última Berlinale, em fevereiro, somada à pertinência na forma de lidar com as opressões históricas ao povo preto do Brasil, Nosso Segredo era um ganhador nato para o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado de 2026. E fez jus à sua natureza, chegando ao circuito em 27 de agosto trazendo muitos holofotes e elogios da Serra Gaúcha ao se estabelecer, entre (muitas) outras coisas como uma celebração de amor. Não por acaso, entras muitas vozes postulantes negras que podem endossar sua vitalidade (de bell hooks a Stuart Hall), um bardo preto do Rio Grande do Sul talvez seja a escolha mais precisa.   
Compositor de “Nervos de Aço”, Lupicínio Rodrigues (1914-1974) escreveu uma estrofe que se mescla à perfeição com a busca sentimental da atriz (e agora diretora) Grace Passô em seu longa-metragem de estreia como realizadora:

“Eu sofri demais quando partiste

Passei tantas horas triste

Que nem quero lembrar este dia

Mas de uma coisa pode ter certeza

Que em teu lugar aqui na minha mesa

Tua cadeira ainda está vazia”

Que se desloque a personagem central de Lupicínio, explicada noutros versos (“Tu és a filha pródiga que volta”), e entre em seu lugar um pai morto. Produzido pelo diretor Ricardo Alves Jr., Nosso Segredo devassa o racismo ao fortalecer as conexões possíveis (e as mais doídas) entre integrantes de uma família devastada pela perda do patriarca. Igualmente devastador é a forma como o mais jovem integrante daquele clã, o menino de seis anos Tutu (Efraim Santos), reage à possível presença espectral que se “encostou” naquele lar, para protege-lo. A proteção é forte, sobretudo, contra gente branca.   

Grace Passô trata desse conflito ligado ao preconceito sem saídas óbvias, sem palestrar, encontrando um veio orgânico para flagrar o ódio. Numa das sequências mais tocantes, o filho jovem adulto de uma família em luto pela perda do patriarca lamenta a forma preconceituosa como foi tratado num hospital. Ao cair de uma escada, enquanto grafitava uma parede, o rapaz é hostilizado pela atendente, que o trata como se ele fosse uma presença recorrente ali na emergência, confundindo-o com muitos outros moços que, por serem negros, aos olhos intolerantes dela, parecem todos a mesma pessoa. E uma pessoa marginal.     

Grace faz essa denúncia com delicadeza. A delicadeza que é possível a uma população com tantas cicatrizes, alvo de exclusões desde a escravidão. Uma das atrizes de maior prestígio do teatro e do cinema brasileiro no século XXI, famosa pela trajetória nacional da peça “Vaga Carne”, a também dramaturga Grace conta com a trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) para esculpir, com sinestesia, um elogio à conexão parental afetuosa. 

Flana por um campo simbólico lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de “Amores Surdos”, texto teatral de autoria da própria Grace. A partir dele, a artista gerou um inventário de cicatrizes, com um pé na fábula, acolhido com o grito de “Bravo!” em Gramado.

A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular ao enredo que mistura finitude, recomeço e perenidade. Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, caçulinha Tutu guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.

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