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Gonzaguinha: Suzanna Lira constrói retrato de um personagem peculiar da música brasileira

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Gonzaguinha, o novo documentário da cineasta Susanna Lira, investe principalmente naquela fórmula de usar imagens de arquivo e narração em off. Por incrível que pareça, não há nenhum depoimento atual. Não há uma pessoa que tenha conhecido Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior falando sobre o músico, que faleceu precocemente, aos 45 anos, vitimado por um acidente de carro em 1991. Uma receita batida que visa construir um mosaico e, surpreendentemente, funciona muito bem. Apesar de ser filho do nordestino Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Gonzaguinha é retratado como um típico malandro carioca. Nascido no Morro de São Carlos, no Estácio, na Zona Central do Rio de Janeiro, ele é aquela figura que desce o morro para ganhar a vida. E isso é alimentado pelo próprio discurso do personagem-título, que fala que, na rua, as pessoas precisam aprender a se virar, a sobreviver, sempre dando um jeito. Não, isso não é apologia a cometer pequenos delitos ou a praticar ilegalidades. Claro que não. É aquela coisa do jeitinho brasileiro, como escrevi anteriormente, do malandro carioca: faço o que for preciso, dentro da lei, para ganhar a vida.

Diferentemente de outros malandros, Gonzaguinha tinha um dom. Ele não era filho de quem era à toa. A música estava no seu sangue. E estava no seu sangue por parte de pai, por parte de mãe, Odaléa, uma cantora de boate que não pôde criá-lo, e também por parte de seu padrinho, Henrique Xavier. Ainda pequeno, Gonzaguinha foi entregue pela mãe aos compadres Dona Dita e Seu Henrique. Foram eles os verdadeiros pais do protagonista. Henrique era músico, dava aulas de violão e incentivou o filho adotivo a seguir essa carreira. Uma das coisas mais interessantes do documentário é que, ao longo de seus 78 minutos, a obra é toda pontuada por músicas, e a diretora teve a preocupação de colocar as datas de cada canção. O Que Será, de 1974, Como o Dia Nascerá, de 1978, Recado, de 1979, Achados e Perdidos, de 1980, Eu Queria Apenas que Você Soubesse, de 1981 e por aí vai. Escrevi as músicas em ordem cronológica, mas no filme elas não estão dispostas assim. De qualquer forma, mesmo não seguindo uma ordem cronológica e linear rigorosa, elas servem para pontuar os diversos momentos da carreira do protagonista, que não só foi um grande músico, mas também uma figura peculiar.

Chamam a atenção em Gonzaguinha duas cenas que abordam passagens interessantes da carreira do músico. Uma delas é quando ele reencontra o pai nos palcos e cantam juntos. Esse é o momento em que os dois ensaiam uma reaproximação. E aí o interessante é que Luiz Gonzaga se ressentia um pouco do filho por ele não ser um músico do mesmo estilo. Gonzaguinha, então, diz: “Bom, se você quisesse que eu fosse como você, que você tivesse me criado, coisa que não aconteceu.” Já na outra passagem, uma censora do regime militar chamada Marina implica com a palavra “Maracanã” presente na música Geraldinos e Arquibaldos, de 1978. Estupefato, o protagonista pergunta para ela: “Mas como assim a palavra Maracanã é um problema?” Ela responde que sim, que era um problema. E ele devolve: “Você já foi ao Maracanã alguma vez na sua vida?” Ela retruca: “Não, nunca fui.” Aí estava o problema. E antes que a censora falasse mais alguma coisa, Gonzaguinha vira e diz: “Olha só, eu censuro a minha própria música. Chega, acabou, deixa aqui. Eu censuro essa música.” É óbvio que depois a canção acabou sendo liberada e se tornou um dos sucessos do cantor.

Por fim, eu queria dizer que Gonzaguinha não é composto só de imagens de arquivo formando um mosaico, como destaquei no início da crítica. O ator André Dale aparece interpretando o personagem-título em uma reprodução de uma entrevista ao jornal Pasquim, em que o músico foi sabatinado por dois jornalistas do veículo. A dramatização dessa sabatina é muito boa e é inclusive por meio dela que temos acesso às duas passagens descritas acima, com o pai e a censora. A interpretação do ator é tão crível que qualquer um que já tenha visto Gonzaguinha alguma vez na vida, na tela ou em imagens de arquivo — e a gente vê várias delas aqui — percebe que Dale está a cara do músico. Dá até para confundir, gerando um bug no nosso sistema.

Gonzaguinha, de Susanna Lira, é uma das ótimas estreias da semana. Um documentário que, mesmo escolhendo uma fórmula aparentemente simples, consegue construir um retrato muito interessante de um personagem peculiar da música brasileira. Longe de ser um problema, a ausência de depoimentos atuais acaba sendo um trunfo por prescindir das habituais muletas desse gênero fílmico. As imagens de arquivo, a narração e, principalmente, as próprias palavras de Gonzaguinha constroem esse mosaico e permitem que o próprio personagem conte a sua história. Já a interpretação de André Dale é um plus valioso. E quando um documentário consegue fazer tudo isso de maneira tão eficiente, a simplicidade da fórmula deixa de ser uma mera limitação e passa a ser uma das suas maiores qualidades. Eu certamente recomendo para vocês.

Desliguem os celulares e ótima diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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