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Minha Melhor Amiga: Ingrid Guimarães e Mônica Martelli levam sua amizade para os cinemas

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Os anos passam, os milhões de espectadores são computados, e nada diminui o ranço/má vontade da crítica especializada brasileira para com a comédia popular nacional. Particularmente, analiso filmes protagonizados por Leandro Hassum e Maurício Manfrini com igual rigor (e, creio, discernimento) que os dirigidos por André Novais Oliveira ou Kleber Mendonça Filho. Isso me fez, ao longo dos anos, criar uma relação não apenas cordial, como respeitosa e até mesmo carinhosa, com a filmografia de Susana Garcia. Ela é a cineasta que mais levou público ao cinema nos últimos anos, e creio que já esteja na rota de se tornar a maior da História. Filmes como Minha Irmã & EuMinha Mãe é uma Peça 3 e principalmente Minha Vida em Marte nos colocam em lugares que coadunam a diversão desbragada com um sendo genuíno de afeto, uma sensibilidade espontânea para o encontro. 

Minha Melhor Amiga continua a saga dos ‘minhas’ de Garcia, e seus esforços aqui parecem ainda mais comunicáveis com um caráter abrangente de identificação pessoal. Todos os seus filmes tratam de parcerias estabelecidas não apenas com o público, mas entre os elementos de cena; inadvertidamente, é a amizade e os laços ancestrais que unem os seres que irão calibrar suas narrativas. Esse, em particular, não é um projeto qualquer, mas um pedido do público à suas estrelas centrais, Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, em desejar ter também para si uma amizade tão forte e tão intensa quanto as redes sociais de ambas descreveram. O resultado em tela é um híbrido curioso, porque elas reproduzem muitas histórias que acompanhamos pelo Instagram, resultado das viagens que testemunhamos entre elas e suas filhas verdadeiras. 

Podendo parecer exagerado, em termos de conceito, não é muito diferente do olhar que os cineastas iranianos aplicaram em sua cinematografia dos anos 90 para cá, quando as curiosidades (Close-Up) e horrores (A Maçã) foram reproduzidos nas telas, sistematicamente, entre os personagens que os viveram. Em Minha Melhor Amiga, no entanto, há também o vetor ficcional que permite que também possamos descobrir Clara e Julia, não coincidentemente o nome de batismo de suas filhas na vida real. Esse é mais um dado que entrelaça cinema, realidade, afeto construído durante os últimos 30 anos para parecer refrescante na tela, humor e emoção, como é a estrutura tradicional de Garcia. Uma cineasta que descobriu uma fórmula certeira ao lado de seus parceiros mais frequentes (ao lado de Mônica e Ingrid, o eterno Paulo Gustavo) para arrastar o público a um turbilhão de reconhecimento e reflexão, que provoca e diverte enquanto arma seu campo de sedução. 

Na receita está um elemento que cada vez mais é peça fundamental de sua obra, os valores de produção – e por trás disso existe uma ideia de resistência. Porque o Cinema de (somente) aparência descartável não pode agregar grandes valores em seu orçamento, se no Brasil é exatamente ele o responsável por fazer retornar os grandes lucros, a despeito das exceções Ainda Estou Aqui O Agente SecretoMinha Melhor Amiga não tem vergonha de esbanjar seus valores de produção, e assim entregar um filme esteticamente atraente para o espectador médio, embora sim, aqui e ali soe demasiadamente asseado. No entanto, também foi esse mesmo orçamento que permite um filme rodado mais de 50% no exterior, especificamente Portugal e Espanha, e tudo isso soe legítimo, de construção narrativa naturalizada.

Apesar do capricho, é com o que constroem Clara e Julia/Ingrid e Mônica, que o filme acaba afetando quem assiste mais frontalmente. Ainda que exista um jogo de roteiro bastante tradicional (ou seja, acontece sim uma briga no segundo ato, que vai servir para reforçar o amor que uma sente pela outra), Minha Melhor Amiga conta com a cumplicidade de quem assiste, e ela vem fácil se o público se deixar levar. Muito mais focado na relação entre duas mulheres de 50 anos que estão descobrindo forças e fraquezas, e tentando equalizar suas potências íntimas, o que deveria (ou poderia?) ter sido investido na história entre quatro personagens é deslocado para apenas as suas protagonistas, deixando os tipos adolescentes a cargo da narrativa de suas mães. Nada que forneça material contrário às suas aplicações, apenas o relevo das personagens mais jovens e mesmo seus conflitos só fazerem sentido para atender às demandas narrativas das duas amigas. 

Isso tudo e uma já esperada homenagem a Paulo Gustavo (e a garantia de Susana de que todos os seus filmes o homenagearão) carregam para dentro de Minha Melhor Amiga uma sensação agridoce coletiva, que promove a felicidade plena de encontros primordiais mas também observa a passagem do tempo sem ranhura. A gangorra que funciona entre as atrizes também revela suas qualidades, e eleva ainda mais os predicados infinitos de Martelli, que carrega espontaneidade, alguma parvalhice verbal e um coração absurdamente grande, explícito na tela. Tudo que está em Martelli ou é acessado por ela, contém ainda mais veracidade emocional e sua capacidade de nos fazer convencer do que ela está sentindo e verbalizando é um dos méritos de qualquer filme que a tenha no elenco. Aqui, Ingrid encontra nesse esquema de gangorra um potencializador de suas capacidades, mostrando um filme que sobrevive às suas ausência, mais uma vez, com explosões de afeto indiscriminadas. 

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