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Pressão aborda o Dia D, da invasão da Normandia, pelo lado da meteorologia

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Alguns episódios históricos, alguns acontecimentos da humanidade, já foram retratados 1.300 vezes no cinema. E aí achar um ângulo diferente, encontrar uma maneira nova de contar a mesma história só porque ela é importante é muito difícil. O risco de filmar pela enésima vez um episódio histórico é fazer apenas mais um filme qualquer, que não acrescente absolutamente nada ao que já foi contado. Esse era o meu receio quando fui assistir a Pressão, novo filme do diretor Anthony Maras, baseado em uma peça teatral de David Haig, que também assina o roteiro ao lado do cineasta. O longa-metragem fala do Dia D, da invasão da Normandia, aquela batalha que ajudou a definir o destino da Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, o futuro da humanidade. Eu já tinha visto essa história no cinema. Vocês também provavelmente já viram. Só que, felizmente, o meu medo não se confirmou. O que encontrei foi a mesma história, com a mesma importância, contada por um prisma completamente diferente: o da meteorologia.

A meteorologia é importante no nosso dia a dia. A gente precisa saber se vai chover ou fazer sol para decidir que roupa vestir, se leva ou não um guarda-chuva, se pode praticar uma atividade ao ar livre. Para ganhar uma guerra, certamente, não poderia ser diferente. Uma vez marcada a data do Dia D, as forças aliadas precisavam saber se as condições meteorológicas na Normandia, na costa francesa, eram adequadas para a invasão. E é aí que entra James Stagg, personagem interpretado por Andrew Scott. Capitão escocês e meteorologista, Stagg é um cientista enviado por Churchill para aconselhar o general Dwight Eisenhower, comandante das forças aliadas, brilhantemente interpretado por Brendan Fraser. Só que, ao chegar ao quartel-general da força expedicionária aliada, Stagg encontra resistência, principalmente do coronel Irwin P. Crick, vivido por Chris Messina, um militar que já acompanha Eisenhower há três anos e que também é meteorologista.

Suspense histórico retrata as 72 horas tensas que antecederam o Dia D na Segunda Guerra Mundial.

O embate entre os dois é um dos motores de Pressão. Stagg é meticuloso. Não trabalha com hipóteses fáceis nem com padrões pré-estabelecidos. Estuda, estuda e estuda, porque sabe que o tempo e a natureza são imprevisíveis. Crick é o avesso disso. Ele parece um daqueles vendedores americanos que querem empurrar para você o melhor carro pelo melhor preço, ainda que nem o carro nem o preço sejam os melhores. É uma guerra de egos, mas também é uma disputa entre duas maneiras de enxergar a ciência. E, no fim das contas, Eisenhower precisa decidir em quem acreditar. O filme, então, transforma algo que poderia parecer absolutamente banal para quem está sentado na cadeira do cinema — uma previsão do tempo — em uma questão de vida ou morte para milhares de soldados e, em última instância, para o destino da guerra.

O mais interessante é que Pressão é um filme sobre o Dia D em que praticamente não vemos guerra. As cenas de tiros, explosões e combate, aquilo que estamos acostumados a encontrar nesse tipo de produção, aparecem apenas nos minutos finais. E isso não é um problema. Muito pelo contrário. Elas estão exatamente onde deveriam estar: no fim, depois de toda a tensão construída dentro daquele quartel-general, para mostrar o resultado da decisão tomada por Eisenhower. Cerca de três quartos do filme acontecem dentro de salas, em reuniões, discussões e embates entre os personagens. E nem por isso ele é menos tenso. Muito pelo contrário. A guerra de egos, a pressão sobre quem precisa tomar uma decisão e a dúvida sobre qual dos meteorologistas está certo são material suficiente para manter o espectador preso à cadeira. Entre os personagens que ajudam a construir essa tensão estão a tenente Kay Summersby, interpretada por Kerry Condon, secretária e braço direito de Eisenhower, e o general britânico Bernard Montgomery, vivido por Damian Lewis.

Todos esses personagens, muito bem construídos pelo roteiro de Anthony Maras e David Haig e muito bem interpretados, convergem para uma cena que, para mim, é uma das melhores coisas que vi no cinema neste ano. É o momento em que Eisenhower decide adiar a invasão da Normandia, baseado nos estudos de Stagg. É uma cena que depende quase exclusivamente do roteiro e das atuações. Há muitas palavras, muitos diálogos, alguns bem verborrágicos, e isso pode não agradar a todo mundo. Porém são diálogos muito bem escritos e deliciosamente cuspidos pelas bocas dos atores que estão em cena. E é aí que o filme prova que não precisa de tiros, explosões ou grandes batalhas para construir tensão. Basta colocar bons atores dentro de uma sala, entregar bons diálogos a eles e permitir que o conflito aconteça.

Pressão, portanto, é um filme de guerra diferente daqueles aos quais estamos acostumados. E talvez por isso algumas pessoas possam criar certa resistência depois de ler esta crítica ou descobrir que não se trata de uma produção convencional sobre guerra. Só que eu garanto: se vocês não forem ver, podem se arrepender. Assim como Eisenhower provavelmente teria se arrependido se não tivesse seguido o conselho do capitão James Stagg. Por último, preciso destacar duas coisas antes de terminar. A primeira é a fotografia de Jamie D. Ramsay. Se o mundo for justo, essa fotografia estará na próxima temporada do Oscar. Contudo, parece que não estará, já que o filme não teve uma boa recepção lá fora. Sinceramente, não quero saber o porquê e estou me lixando para os críticos americanos. A segunda é Brendan Fraser. Sua atuação como Dwight Eisenhower é a prova de que esse homem sempre foi um grande ator. Ele apenas escolheu, durante boa parte da carreira, os papéis errados. Pressão é diferente, é tenso, é inteligente e encontrou uma maneira muito interessante de contar uma história que o cinema já contou inúmeras vezes. Eu recomendo demais. 

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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