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Cidade de Deus: O impacto real da arte e novo elenco na HBO

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Duas décadas após o longa que projetou o cinema brasileiro internacionalmente, elenco e realizadores celebram a formação de novos talentos e relembram bastidores históricos da produção

“Mesmo que eu represente um bandido, que é uma realidade da minha comunidade, as crianças e os jovens de lá não olham para o meu trabalho na tela dizendo que querem ser bandidos; elas dizem: ‘eu quero ser ator também’.” A reflexão de Victor Andrade resume o peso cultural da coletiva de imprensa da 2ª temporada de “Cidade de Deus: A Luta Não Para”, cuja estreia está marcada para 8 de novembro na HBO e na HBO Max.

Mais de vinte anos depois do clássico de 2002 marcar a história do cinema brasileiro, a série expande esse legado. A produção agora abre espaço para que atores e realizadores da periferia assumam o controle da própria narrativa, transformando a convivência comunitária em motor criativo.

O impacto da arte na favela

Essa identificação popular citada no início dialoga com trajetórias concretas de quem vive a cultura no território. Victor Andrade estreou nas telas como Geninho na 1ª temporada da série da HBO antes de ingressar no elenco da novela “Dona de Mim”. Morador da Cidade de Deus e revelação do Instituto Arteiros, o ator relatou que o encontro no set com profissionais que acompanhou desde a infância foi um alívio:

“Não foi peso, pelo contrário, foi leveza. Essa galera nos recebeu de braços abertos, parecia literalmente uma grande família. A Cidade de Deus nos dá a oportunidade de mostrar tantas faces que a sociedade gosta de esconder atrás da criminalidade. Temos múltiplas faces dentro da favela.”

Para exemplificar essa potência, Victor lembrou vizinhos de comunidade que se tornaram referências esportivas mundiais, como a judoca e campeã olímpica Rafaela Silva e a multicampeã de jiu-jitsu Gabrieli Pessanha.

A presença de atores da periferia no elenco trouxe reflexões sobre a capacidade transformadora da cultura. Luellem de Castro (“Encantado’s”), que interpreta Leca, destacou como a ficção espelha sua própria trajetória na Baixada Fluminense, onde organizava saraus poéticos aos 14 anos para criar alternativas aos caminhos da violência:

“A Leca é meu ponto de vista: ela é a representação da arte dentro daquela favela, assim como o Buscapé era no filme. A minha vida muda a partir do momento em que a arte chega, e nem todo mundo tem essa oportunidade de onde a gente vem. Ter a Leca é a chance de mostrar para o mundo o que eu já fazia dentro da minha comunidade.”

Na trama da 2ª temporada, Leca assume a linha de frente como produtora cultural e empresária musical, resgatando garotos do tráfico por meio das gravações de funk.

Personagens coadjuvantes ganham complexidade

Para aproximar ainda mais a ficção do cotidiano real, o diretor Aly Muritiba explicou que a sala de roteiro buscou atribuir camadas aos jovens que compõem os núcleos armados da comunidade, afastando a narrativa de caricaturas com o apoio direto dos atores locais:

“A gente buscou trazer para a tela a humanidade desses meninos. Eles não estão ali apenas segurando um fuzil ou trocando tiros. Eles têm vida, soltam pipa na laje, sonham em ter o próprio negócio, jogam bola enquanto estão de vigia. Trazer essas sutilezas é fundamental para que o público compreenda a complexidade dessas vidas, e não apenas o estigma da criminalidade.”

Essa abordagem envolveu os integrantes do Instituto Arteiros, polo cultural sediado na Cidade de Deus que capacita atores e técnicos para o mercado audiovisual. A dinâmica resgata a atuação histórica do grupo Nós do Morro no Vidigal, espaço que abriu portas na virada dos anos 2000 para a profissionalização de talentos negros e periféricos nas artes cênicas brasileiras.

Matheus Nachtergaele quase não participou do filme de 2002

O método de nivelar veteranos e novatos por meio da vivência prática tem raízes profundas na história da produção. Ao recordar o início do projeto original de 2002, Matheus Nachtergaele relembrou que sua participação quase foi cancelada antes mesmo do início dos ensaios. Na virada dos anos 2000, o ator vivia um ritmo intenso na Retomada do cinema brasileiro, chegando a lançar três ou quatro produções por ano, com títulos de grande repercussão como O Auto da Compadecida e Central do Brasil.

Durante a coletiva, o ator contou que o diretor Fernando Meirelles temia que essa visibilidade atrapalhasse a proposta de trabalhar com estreantes. Segundo Nachtergaele, Meirelles disse, “Acho que você não pode mais fazer o filme. Você ficou muito conhecido e eu queria fazer um filme com a cara mais da carne viva do Brasil, da carne viva da Cidade de Deus. E você virou uma estrela. Você consegue abandonar isso, se abandonar ao processo da maneira como os meninos que estão chegando e estreando estão fazendo?”

Aliás, o ator aceitou a proposta de imediato, enxergando na preparação um espaço de renovação profissional: “Eu disse: ‘Eu consigo, inclusive vai me fazer bem’. Porque na época da Retomada eu trabalhava demais, fazia três ou quatro filmes por ano. Achei que ia ser um tipo de um descanso ativo, uma reciclagem. E foi.”

Para entender a dinâmica adotada com o elenco estreante, o intérprete questionou o método de trabalho. Meirelles explicou que os jovens ensaiavam sem roteiro fechado, guiando-se por um arco dramático prévio e muitos improvisos antes de cada tomada. Ao receber o texto das mãos do cineasta, Nachtergaele tomou uma decisão radical, “Se eles não têm o roteiro, é melhor eu não ter também. E assim fui embora fazer os ensaios sem saber o tamanho do meu personagem, a importância dele, portanto, o arcabouço intelectual. Fui para conviver com as pessoas, para aprender com eles como se fala, como se anda pelas ladeiras dos morros do Brasil, entender o humor que se pode ter e a dor que se pode ter. O perigo que tem e a paz que também tem.”

A troca geracional no set atual

Na série atual comandada por Aly Muritiba (“Cangaço Novo”), Nachtergaele relatou que o processo se renovou na resposta direta às atuações dos jovens escalados para a continuação. Durante o encontro com a imprensa, o ator relembrou essa convivência no set e a postura adotada diante das dúvidas dos novos colegas, “Os mais novos me viam e ficavam esperando, talvez até de mim: ‘como faz, como faz?’. Minha resposta interior mais sincera era: ‘eu não sei, eu faço com você’. Só assim que eu posso fazer o Cenoura. É mais uma tentativa de voltar a um estado de espírito.”

Essa dinâmica baseada na escuta, certamente, permitiu que veteranos e estreantes encontrassem o tom das cenas juntos, transformando a convivência diária no set em combustível dramático para a 2ª temporada.

Da desconfiança de 1998 à maturidade de mercado

Essa consolidação técnica e artística reflete também o amadurecimento do mercado audiovisual nacional. A produtora Andrea Barata Ribeiro (Marighella), sócia da O2 Filmes, relembrou os primeiros passos do projeto em 1998. Ela apontou que a longevidade da história contraria o ceticismo da época, quando o cinema nacional ainda se reestruturava e desconfiava do apelo comercial de um elenco estreante:

“Ninguém imaginava que o filme seria o sucesso que foi; ao contrário, um filme sobre tráfico de drogas na favela, com atores desconhecidos, estava fadado ao fracasso. A gente tem agora o privilégio de, mais de 20 anos depois, continuar essa história porque os personagens eram muito fortes.”

Andrea enfatizou o alcance atual da franquia ao citar que a produção reúne mil pessoas creditadas na equipe, comprovando o impacto econômico e a capacidade do audiovisual brasileiro de gerar emprego e formar novas equipes técnicas.

Para Alexandre Rodrigues, a continuidade da história mais de vinte anos após a indicação ao Oscar simboliza a vitória de uma geração que fincou o pé na indústria, “É muito emocionante ver que aquela semente plantada lá atrás gerou frutos tão sólidos. A gente vê essa juventude chegando agora com uma base técnica incrível, ocupando os sets com autoridade e respeito. Não estamos mais pedindo licença para contar as nossas vivências; nós conquistamos esse lugar com muito trabalho, estudo e excelência profissional.”

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