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Supergirl: Novo filme da DC é burocracia pura

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Tudinho que se espera de uma aventura (tanto das intergalácticas, como as de vigilantes de HQ) está no lugar, encaixadinho, em Supergirl tem briga a rodo, efeitos visuais de encher as pupilas, além de existir uma trama referente a investigações científicas e, se não bastasse, tem um cachorro fofo… passeando pelo espaço. Tem tudo o que publico busca, mas tem alma. Supergirl é, certamente, burocracia pura.

Para se ter uma dimensão da fundura do precipício, a dado momento, a gente sente saudade de O Homem de Aço (2013), a sofrível adaptação que Zack Snyder fez do último filho de Krypton (apesar de seus ótimos e autoralíssimos longas anteriores e posteriores). No mínimo, ele deu pra plateia uma frase memorável, que nem o DCnauta (leitor dos quadrinhos da DC) mais nerdola conhecia: “No meu planeta, esse S no meu peito quer dizer esperança. E Henry Cavill dizia isso com gosto… e viço.    

O realizador australiano Craig Gillespie, que levou Margot Robbie ao Oscar com em Eu, Tonya (2017), deixou de lado a inspiração desse e de outros filmes anteriores (“A Garota Ideal” e o ótimo “Dinheiro Fácil”) ao dirigir Supergirl . Nada que se vê na narrativa solo da kryptoniana enviada à Terra depois do Superman, à exceção da luminosa presença de David Krumholtz como Zor-El (o pai da heroína), soa tocante, empolgante, empático. Infelizmente, parece um filme feito por um despachante ou gerente de banco. 

Não há poesia. Há bateção de carimbo, ou seja: “cena de luta? tem… tickado; cena de voo? tem… tickado. Vilão malvado? Tem… ainda que o sucateiro estelar Krem, na composição careteira do belga Matthias Schoenaerts, não meta medo em ninguém. Piora tudo a busca por uma gotinha de carisma em Milly Alock (a jovem Rhaenyra Targaryen de “A Casa do Dragão”), escalada para ser Kara Zor-El, a Supergirl em pessoa.

Já Jason Momoa, no papel do aspirante a Deadpool chamado Lobo, só faz repetir o que realizava interpretando o Aquaman. De fato, ele renovou a imagem do Rei dos Sete Mares. Deu ao Senhor da Atlântida um quê de Wolverine na (incrível) safra Snyder, sendo bem dirigido pelo gênio James Wan num par de longas sobre o Rei dos Mares, sobretudo o de 2018. 

Como coadjuvante em Supergirl, Momoa até protagoniza uns quebra-quebras empolgantes, contra o bando de Krem, mas nem de longe se aproxima da persona modo ferrabrás que esse caçador de recompensas, criado em 1983 por Keith Giffen e Roger Slifer, tem nas revistinhas da DC. Cai na mesma buroca que ronda o longa de Gillespie qual uma perigosa marola.      

O perigo vem do fato de as produções baseadas nas artes gráficas de balõezinhos estarem à beira de um abismo desde que a Disney, em sinergia com a Marvel Studios, desgastou aquela usina de sucessos ao explorar personagens sem fôlego e a se ajoelhar para as patrulhas do politicamente correto. “Thor: Amor e Trovão” (2022) foi o indício de um câncer. Na sequência, “Quantumania” e “Marvels”, ambos de 2023, espalharam a metástase que hoje põe na CTI uma genealogia singular do cinema fantástico.   
    
Foi Wesley Snipes quem colocou o tijolinho inicial do império quadrinístico que reinou sobre Hollywood, indefectível, ao longo quase 25 anos, como o filão mais rentável do século XXI nas telonas. “Blade: O Caçador de Vampiros” estreou em 1998 e fez um sucesso GG num período de seca, vindo do fracasso do “Batman & Robin” com George Clooney vs. Schwarzenegger (de Sr. Frio), lá de 1997. Nesse tempo, a Marvel só se metia na TV, com o seriado do Hulk com Lou Ferrigno e com desenhos animados do Sufista Prateado e do Homem-Aranha.  

Àquela época, Tim Burton há havia revolucionado o Batman, que, então, brilhava na TV, nos desenhos revolucionários de Bruce Timm. Fora isso, em 1990, Warren Beatty extraiu das tirinhas quadrinizadas de Chester Gould (1900-1985) um filé chamado “Dick Tracy”, com Al Pacino de vilão. A mudança que Snipes fez foi abrir espaço para as pautas identitárias nas adaptações. Era um vigilante decolonial que debelava as forças das trevas. Um homem preto contra vampiros brancos racistas… quase como protótipo do oscarizado “Pecadores” (2025).

Snipes foi libertário. Pavimentou a estrada para Pantera Negra (2018). Com seu gesto, a Marvel entrou de cabeça no audiovisual. A DC também se sofisticou, ao extremo, com a trinca “Batman” (2005-2012) de Christopher Nolan e com “Constantine” (2005). O caminho aberto por “Blade” permite, ainda hoje, que debates dos mais urgentes, como a guerra ao sexismo, produza filmes como “Supergirl”. Nesse quesito, ele tira 10. No resto… 

Gillespie parte de um script da roteirista (de DNA brasileiro) Ana Nogueira para narrar o esforço da Supergirl para salvar seu cão, Krypto, mortalmente ferido pelo pirata e coletor de sucata galático Krem (Schoenaerts), em meio a uma parceria com uma órfã, Ruthye (Eve Ridley), com fome de vingança. Lobo (Momoa) cruza o caminho delas com seu gancho pingando de sangue.

Ana faz uma menção ao imperdível álbum gráfico “A Mulher do Amanhã”, lançado aqui pela ed. Panini, que revolucionou a Supergil graças à exuberante arte da paulista de Barueri Bilquis Evely. Essa minissérie, aqui compilada num só volume, fez sucesso de venda nos EUA e concorreu ao Prêmio Eisner, o Oscar das HQs. O roteiro é do aclamado Tom King.

Uma pena que Gillespie e Ana não busaram o espírito de Bilquis Evely ao narrar as peripécias da personagem criada pelo roteirista Otto Binder (1911-1974) e pelo desenhista Al Plastino (1921-2013), em maio de 1959, nas páginas da revistinha “Action Comics” nº 252, publicada pela DC Comics. A personagem nasceu durante a chamada Era de Prata dos quadrinhos, período em que as editoras ampliavam seus elencos de heróis para atender a um público cada vez mais diversificado. 

Kara Zor-El chega ao nosso planeta como ressaca tardia da destruição de Krypton. Segundo a cronologia clássica, Kara escapou da cidade kryptoniana de Argo City e foi enviada à Terra para reencontrar o primo, Kal-El, tornando-se uma das figuras mais populares da chamada Família Superman. Tem tudo isso no filme, porém, sem encantamento algum, seja na fotografia de Rob Hardy, seja na direção de arte do time de Alastair Bullock e Gregory Fangeaux.

Orçado em cerca de US$ 170 milhões, Supergirl não tem cenas pós-crédito. Nem isso!

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